Sobre o blog da Petrobrás ou ‘como num mundo perfeito não existiria jornalismo investigativo’

Antes: Não vou entrar no mérito das investigações sobre a Petrobrás. Vou falar a minha OPINIÃO sobre o caso do blog em que um empresa (qualquer) divulga as perguntas feitas por jornalistas a ela.

Um jornalista ao fazer contato com a assessoria de qualquer coisa, não vai perguntar diretamente “olá, quais são os podres da empresa?”. Isso porque o mundo não é perfeito e as empresas não são obrigadas a fornecer provas da sua própria culpa. Existe uma política interna de informações sigilosas ou dados que não devem vazar pra imprensa senão a coisa fica feia, mesmo nos casos em que teoricamente a coisa deveria ser pública. Não sendo o mundo perfeito, o trabalho da assessoria nesses casos específicos é dificultar o acesso a essas informações. Aí entra justamente o papel do jornalista, que vai pegar os vácuos deixados pela empresa e cruzar com outros dados públicos ou fornecidos por fontes sigilosas e jogar lenha na fogueira. É claro que os jornalistas vão checar as informações e dar à empresa uma chance de se justificar, criando um “outro lado”.

Daí, vem a Petrobrás que está sendo beliscada, graças a deus, de todos os lados e lança um blog em que publica a íntegra das informações que fornece aos jornalistas. Esses jornalistas ficam um tanto quanto acuados, porque na teoria a empresa rompeu um tratado tácito de confiança, em que o jornalista fala: olha, o meu veículo está te investigando, mas não queremos que ninguém saiba antes que a matéria, meu sonhado furo de reportagem, saia. Agora, quem é dono da informação, aquele que pergunta ou aquele que responde?

Principalmente no caso de assessorias bem estruturadas, a informação fornecida pra imprensa é pública desde sempre . O trabalho que um jornalista tem de apuração dos pontos conflitantes em qualquer situação pra chegar à checagem ‘oficial’ é perdido se a empresa revelar as informações que concedeu? Não, se ele tem outras informações que revelem algo realmente “sigiloso”. Porém, a assessoria de imprensa, abrindo um canal como esse afirma: “Olha, esse é o posicionamento da empresa quanto a essas informações, qualquer recorte feito DESSES dados é de responsabilidade do veículo” mas também deixa claro “olha, isso é o que nós informamos e isso é o que nós deixamos de informar”.

Alguns acham justo que a resposta da empresa venha SE ela for lesada por alguma informação omitida. Porém, regrinha básica do direito de resposta: o desmentido nunca tem o mesmo peso do publicado. O que vem primeiro tem sempre mais destaque. Acredito que a birra dos jornalistas bata exatamente nessa mesma tecla um pouco mais além. Ou seja, não publicar antes o “direito de resposta” porque o que for publicado depois perde o valor, principalmente se os outros veículos se aproveitarem dessa brecha.

No meio dessa discussão, começa a parte divertida, em que jornalistas e não-jornalistas partem pro contra-ataque. Publicam blogs em que exibem as perguntas não respondidas pela petrobrás e também expõem algumas lacunas na transparência da empresa em matérias. É uma medida de terrorismo válida? Sim, jornalistas usando a mesma ‘técnica’ da empresa para atacá-la. Porém, todavia, entretanto, nesse caso, os prejudicados continuam sendo da mesma forma os jornais que perdem mais ainda a exclusividade da reportagem. E, obviamente, perdem o foco da discussão, que seria a prática jornalística e como ela é afetada pelo ‘blog’. Assim, a empresa pode até decidir recuar na iniciativa, mas não por ter compreendido quais questões envolvem o direito do sigilo das perguntas, mas para que cessem os ataques menores. Para mim, parece chantagem e joguinho de “quem é mais forte”.  Onde estavam todas essas informações que surgem como medida emergencial de ataque, por que não foram publicadas? Por que antes não havia motivos para atacar esses pontos? Recorte e recorte. Mas, efeito colateral positivo, alimenta as polêmicas e as investigações sobre a Petrobrás.

Pergunta solta: com tanto espaço na internet, e se os jornais criassem uma seção em que transcrevessem entrevistas na integra, ou pelo menos as passadas por e-mail e só nas reportagens mais polêmicas (se o problema for tempo) e colocassem em highlight as passagens que foram citadas na matéria. Isso seria possível? Alguém teria coragem de assumir o recorte?

Uma das acusações que li é que a empresa estaria tentando intimidar a mídia. Não entendo muito bem essa colocação. Ou melhor, entendo, mas não entendo como isso é um ponto negativo para o jornalista e o jornalismo, ataquem! Como já disse, há duas formas de se ler a publicação das respostas e uma delas é instigante. No final das contas, acredito ser ingenuidade pensar que a defesa do interesse de jornais na “pergunta em off” passe por outro lado senão o da lógica de mercado. Interesses por interesses, eu  fico com os que balançam um pouco a ordem das coisas.

Links (ainda nao vi o atalho pra fazer link aqui no wordpress, preguiça do html):

Blog de treinamento da folha: http://novoemfolha.folha.blog.uol.com.br/

Post do Luis Nassif: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/06/07/o-fim-da-era-das-perguntas-em-off/

Post do Sérgio Leo: http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2009/06/por-que-jornalistas-experientes-fingem-nao-ver-que-a-petrobras-age-errado.html

Blog da Petrobrás: http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/

Anti-blog Petrobrás: http://www.petrobrasdadosefatos.wordpress.com/

Materiazinha da Folha: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u578621.shtml

Outro Blog anti: http://petroperguntas.blogspot.com/

 

Links:

Blog de treinamento da folha

Luis Nassif

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