Meu caso com a Biblioteca

Foi no primeiro semestre de 2004, eu tinha 18 anos e acabava de não passar no meu segundo vestibular para medicina. Decidi prestar Comunicação Social e convencer meus pais a só fazer cursinho no segundo semestre. Estudo em casa no primeiro semestre. Não. Vou para a biblioteca e passo o dia todo estudando por lá. Ok. Assim começaram os melhores seis meses da minha vida. Todas as manhãs ia para a biblioteca pública. Matemática, Geografia, Português e Química eram as últimas das minhas preocupações… Estudava tudo o que não caía no vestibular. Foi assim que comecei a aprender francês e fiquei muito boa nas flexões verbais (quando fiz aulas de verdade me surpreendi com a pronúncia dos meus queridos voudrais e pourrais). Passava horas folheando o grande Houaiss, descobrindo livros de línguas, espirrando o pó e o mofo de todas aquelas edições da década de 70. Na parte de literatura, decorei a localização e a ordenação de todos os livros. Costumava levar um livro pra casa e ler outro, parte a parte, nas estantes mesmo. O Ítalo Calvino era ótimo para ser lido partido. Cidades Invisíveis pode até ter sido o mais bonito e profundo, mas o meu favorito era Cosmicômicas. Lia um conto por dia, pronunciando os nomes dos personagens mentalmente, com a testa encostada na prateleira, despedaçando, do cheiro ao acabamento, às costuras, às fichas catalográficas… Foi assim que descobri que o Diogo Mainardi fazia as traduções do italiano. Num passeio pelo labirinto previsível, um dia me surpreendi com Le Petit Prince. Enquanto me recuperava de um suspiro romântico, uma barata sorrateira passou por trás do francesinho. Ainda por aquelas bandas, nutria uma desconfiança pelas Marguerites (só fui ler a Duras anos depois, e batalho hoje com uma Yourcenar daquelas edições comemorativas da Nova Fronteira, Memórias de Adriano). Algumas lágrimas rolaram quando li O conto da ilha desconhecida. Enquanto estava com O manual de caligrafia em casa, chorei, desta vez muito, com A mulher desiludida. Lembro de soluçar, encostada na quina da estante (A Simone de Beauvoir ficava na ponta esquerda). Era o mesmo ritual das Cosmicômicas, uma história por dia. E um chororô por dia também. Amor en los tiempos Del Colera, li em duas sentadas na área de estudo da biblioteca. Lembro de estar em uma mesa coletiva, lendo o trecho do sexo de Florentino Ariza com a Fermina Daza chorando e rindo ao mesmo tempo. Falando no Gabriel Garcia Marquez, é também dessa época as minhas pataquadas com a língua espanhola. Antes do Amor veio La señora Dalloway, carinhosamente apelidada de Cenoura Dalloway, da Virginia Woolf e, depois, a proeza de ler La Educación Sentimental do Flaubert sem saber que existia um segundo volume. Fiquei no vácuo, acho que em uma sala escura com alguém subindo escadas, não me lembro bem. Depois de um Ninguém escreve ao coronel, voltei à prateleira para descobrir o volume II, agora em português. O auge da trapalhada foi ler O tempo redescoberto, último volume do Em busca do Tempo Perdido do Marcel Proust, sem saber da existência dos outros livros. Depois de descobrir a importância da historinha para o cenário literário, pedi a coleção completa do Marcel Proust, um Box da Ediouro, para o meu aniversário de 19 anos. Até hoje culpo a edição horrenda do box por nunca ter conseguido passar do primeiro livro. De Proust ficou só o último livro, lido como se fosse o primeiro, e o eterno desafio encostado na parede, sem serifas. Dali fui pro O Sol Também se Levanta e aproveitei o caminho para ler O velho e o mar e Por quem os sinos dobram. E foi pelo Hemingway que tomei todos os Mojitos desta breve existência. No último mês de biblioteca, resolvi me comprometer com os russos, Guerra e Paz seria a última fronteira? Já sabia que não tinha estômago para Dostoievsky – aqui cabe uma confissão: tenho problemas sérios com ansiedade, qualquer tipo de suspense me derruba, para contornar, leio o final dos livros antes. Assim, leio o primeiro capítulo, o último e depois vou ler o resto do livro. No caso do Dostoievsky, o que pegou foi o último capítulo de Crime e Castigo não ser muito esclarecedor. Eu sofria como o personagem. Parei de ler quando a irmã e a mãe chegaram à cidade. Foi muito para mim… Acho que se Raskólnikov tivesse escolha, ele teria parado por ali também. – E não foi daquela vez que conquistei a Rússia. Guerra e Paz ficou pelo caminho, assim como e tão grosso como o Dom Quixote com volumes faltantes, que, presumo, não ter lido é tão pecado quanto não ter assistido ao filme Sexto Sentido, forgive me father, for i have sinned. Depois daqueles seis meses, não tive tempo para voltar com tanta freqüência à biblioteca pública e também nunca mais li tantos livros ao mesmo tempo. Acho que sinto falta do cheiro.

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Um comentário sobre “Meu caso com a Biblioteca

  1. Impressionante como seu texto melhorou [muitíssimo] de 2004 pra cá. Muito provavelmente por causa de todas essas leituras excelentes. Um dia quero ler todos esses que você listou (li apenas alguns, minoria). Anyway, parabéns pelo texto de hoje!

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