A entrevista – Parte I

Passei novamente pela recepção do Mercure às 9h45. Quinze minutos antes, entrava na sala para a entrevista. Quinze minutos, sem descontar o tempo de corredor e elevador, um fiasco.

Epimenta é um personagem do twitter. O fundo da sua página na rede social costumava ser uma imagem bonita, um homem e uma mulher, posados nitidamente sob uma perspectiva de dominação e submissão. A figura masculina parecia ser guiada pela feminina. Uma imagem familiar, não me lembrava de onde. Distraída com os lindos sapatinhos de salto do homem, demorei um tempo para perceber que a mulher da imagem não tinha ambas as pernas, amputadas e substituídas por longas botas de cristal que sustentavam os curativos abaixo do joelho, isso talvez invertesse a ordem da dominação. As bundas desnudas davam um toque doce ao cenário. Na imagem do perfil, epimenta usava um recorte de uma foto sua, apenas olhos e monocelha maquiavélica. A foto original era simpática, mas, uma vez recortado, o olhar era meio assustador, meio azul.  Os twits, sempre muito gentis, ora trocavam elogios com colegas, ora comentavam eventos culturais e, um ou outro atualizava os seguidores sobre o rumo do curso abril, que ele coordenava. Um gentleman.  Deixei de segui-lo assim que começou a fazer suspense sobre as entrevistas, para voltar a segui-lo após a entrevista fiasco, e deixar de segui-lo quando começou a fazer suspense sobre o resultado final, e voltar a segui-lo quando o resultado saiu. Eu, obviamente, não estava entre os selecionados.

Me inscrevi para o curso de jornalismo da Abril aproveitando uma brecha no regulamento. Poderiam se inscrever graduados em 2009 ou 2010, e, por graduados, entenda-se aqueles que colaram grau naquele período. A data da minha colação de grau é 16 de fevereiro de 2009, apesar de ter concluído o curso em 2008. Li tudo o que havia de limitações e,  certificando-me de que nada me impedia de participar, à 00h30 do dia final do prazo já prorrogado (acabaria às 10h00), envio a redação feita quinze minutos antes. Terrível, feia, errada (como tudo que escrevo), mas, por desencargo de consciência, a inscrição estava feita para a categoria texto. O curso Abril, para mim, poderia ser um processo de capacitação ótimo que me enriqueceria enormemente. Se passasse, que bom, se não passasse, o mundo não acabaria. Não acabou.

Acredito que, nesses processos de seleção, o quesito sorte deva contar bastante, a cachorrinha do avaliador pode ter morrido no dia, o namorado pode ter brigado, ele pode ter sido assaltado. Querendo ou não essas coisas acontecem e ou ajudam ou prejudicam, inevitável. Deve ter sido por conta de um desses acasos que passei na primeira etapa, junto com 299 outras pessoas, certamente mais qualificadas. Para encerrar a entrevista, epimenta politicamente me lembra que foi uma concorrência dura e só os textos ótimos foram selecionados para aquela fase. Acho que é um bom discurso para encerrar entrevistas nesse tipo de processo seletivo, mas, dada a autocrítica, não se aplicava a mim. Sorri. Critérios, nos vemos ali, get over yourself. Outro sorriso.

Somado à qualidade do texto escrito de última hora, o meu currículo também me denuncia: nada de produção de notícia, ou melhor, quase nada. Já fiz um estágio de três meses na rádio da faculdade, e só. Estava tentando retomar as veias clássicas do jornalismo para escrever, queria, de qualquer jeito, voltar a produzir volume de texto. Mas, a bem da verdade, se queria escrever, teria que ser escritora e não jornalista, não é isso?  A outra experiência vivida com o jornalismo foi com o livro-reportagem na conclusão de curso, mas qualquer meio graduando de hoje em dia já tem um livro-reportagem no bolso, e, se formos selecionar os que tratam da diversidade sexual, devem ser pra lá da metade desse contingente. Big deal. A coisa que pega mesmo no meu currículo é a questão do intercâmbio. Nunca fiz. E vou culpar eternamente a falta de intercâmbio pelas derrotas em processos seletivos. Não tentem me convencer de que eu seja incompetente, a verdade é: nunca fiz intercâmbio.

Cheguei meia hora mais cedo do que o combinado, morava perto, mas não tão perto a ponto de ir a pé, resolvi pedir uma carona de última hora para o meu pai, sem explicar do que se tratava. Não queria mais pessoas envolvidas na ansiedade do resultado, inventei que tinha uma palestra com um cara da Abril. Meia mentira. Ele me levou, e o tempo calculado para ir de ônibus, naquele feriado de proclamação da república, foi muito mais do que suficiente.

O recepcionista pediu para que eu esperasse e, às 9h29, me indicou o caminho para a sala de entrevista: você pega o elevador e vira à direita depois à esquerda. As salas eram nomeadas de acordo com o nome dos planetas, Mercúrio, Venus, Marte, a da entrevista tinha o nome do sexto ou sétimo, não lembro mais qual. Ao entrar, epimenta terminava de assentar-se. Estava vestido com uma camisa similar à que usava na foto do olhar maquiavélico. Familiar. Sente-se, por favor. E o erre de “por” saiu retroflexo, aquele erre do interior paulista.  Após a pronúncia do “por favor”, perco o autocontrole, e começo a rotina de nervosismo somado aos incontroláveis sintomas de pânico. Ótimo. Ele tenta me deixar à vontade: Sabia que meu pai nasceu em Fernandópolis também? E eu reajo com a única coisa que me vem à cabeça – momentos em que é melhor ficar calada – Quem é seu pai?

Meu pai é… meu pai. Constrangimento.

Parte II

Parte III

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A entrevista – Parte I

2 comentários sobre “A entrevista – Parte I

  1. Maggie Mae disse:

    Tereza. Não aguentei, tinha mesmo que fazer um adendo. Pra ser sincera, seu texto me tocou bastante, mas me fez sentir mal por mim também – really sorry for myself. Como você, também não tive muita experiência no Jornalismo. Contingências, sempre. Mas fiz intercâmbio. Aprendi bastante. Conheci gente. Estive cara a cara com o epimenta mais de uma vez. E ainda assim, o gosto de bola na trave ainda não me saiu da língua. Você realmente não deveria se sentir mal por não ter estudado em algum lugar a mais de 10h de vôo daqui. Sério. Todo mundo já viu que talento você tem. Só não pode é deixar que o medo e o cansaço te vençam, daquele jeito de quando o trem passar na sua frente você não ter fôlego o suficiente pra correr e montar nele.
    -Acho que foi isso que me aconteceu, e pra essas coisas não há desculpa. Por isso, eu te digo de novo: não se sinta mal por causa de intercâmbio. Competência não vem com umas horas a mais dentro de um avião.

    abraço!

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