A entrevista – Parte II

Parte I

A minha pergunta tinha sido um reflexo ao primeiro tiro. Eu já sabia o nome do pai dele, estava na dedicatória. O pai, igualmente E., fazia de epimenta um epimentajr.  Refleti sobre isso durante algum tempo antes de passar para a próxima página. O homem que não gostava de peit… Interrompo, BEIJOS!, O homem que não gostava de beijos! Risadinha ordinária e o vendedor digita o nome corretamente. Um no estoque. Ele olha o resultado incrédulo: é, vamos conferir… Pppps, e o epimenta estava de comprido, em cima de uns, embaixo de outros. A capa é mais bonita do que a versão online pode sugerir, aliás, a capa é bonita, o jpeg, por sua vez, horrendo. O nome do livro não é amarelo vômito, é dourado e uma textura recobre a arte, acho que era para dar a impressão de sujeira, eu gosto. A lombada deixa um pouquinho a desejar, sem a tinta dourada.

Na noite anterior à entrevista, peguei meu caderno de anotar sonhos – um bloquinho afetado, com uma imagem do Andy Warhol na capa, em que registro sonhos sonhados – e escrevi a minha história de vida em tópicos. Seria a primeira pergunta, imaginei, fale um pouco sobre você. Eu, que estava completamente desestabilizada depois do “porr favor”, pedi um copo de água, que não existia. Novo constrangimento. Respirei fundo e comecei. Entre meu nascimento e minha formatura, ao contrário da longa lista registrada no caderninho, foi-se meio minuto. Acho que daí pode-se concluir que a minha vida, afinal, não tenha sido tão interessante. Pelo menos na questão acadêmico-profissional da coisa.

Ao pensar previamente nas outras perguntas possíveis, mais a certeza de que estaria no lugar errado, na hora errada: quais os meus jornalistas favoritos? quais revistas eu leio? como foi meu curso?  o que você sabe sobre a Abril? Bem, o que eu sei sobre a Abril… Sei que a Abril é uma empresa que publica revistas para segmentos específicos e que tem lançado novos produtos no mercado e tentado uma inserção competitiva no mundo online/ multiplataformas. Pessoalmente, já comprei muita Capricho, minha família sempre assinou a Veja, e, teve uma época que eu corria para a internet antes da revista chegar em casa para ler. Gostava principalmente do Diogo Mainardi.  Pronto: morri. Um nome deslocado de sentido e contexto com alguma polêmica rasa e datada bem no meio da resposta. Logo agora que o Mainardi iria deixar a Veja por reclamações dos leitores, segundo aquele vídeo do youtube com a atendente de assinaturas da Abril.

Então, você gosta do Diogo escritor ou do Diogo (deixou a frase incompleta para que eu pegasse o gancho)…

Não sei porque ele perguntou isso. Talvez esperasse que eu não conhecesse o Diogo Mainardi escritor, ou que eu considerasse o Diogo Mainardi um jornalista. No caso, nem um nem outro. Li tudo do Diogo Mainardi a que consegui ter acesso, dos livros de ficção, às coletâneas de colunas, às traduções de livros do italiano, às críticas literárias. Tratando-se de Mainardi, só não gosto do trabalho dele como membro de bancada do Manhattan Connection. Tenho um pouco de vergonha alheia… Fisicamente ele é muito frágil, a falta de maquiagem, a camisa meio amassada, a ruborização, o suor de nervoso na testa, a incapacidade de elaborar argumentos rapidamente, tudo isso me incomoda, prefiro o texto.

Tomo fôlego e começo a formular a resposta. Descobri o Diogo por uma coluna linda que ele escreveu sobre o filhinho dele, Meu pequeno astronauta. Epimenta se levanta para pegar café, me oferece, recuso (que tipo de jornalista não toma café?). Entre uma chuchada e outra na garrafa, ele pigarreia e me corrige “Búlgaro, pequeno búlgaro”. Isso, búlgaro. Constrangimento. Tinha confundido o título por uma imagem de astronauta que o Mainardi usa no texto. Mas puta que o pariu, não é possível que ele saiba o NOME de uma coluna do Diogo Mainardi de 2001. Desisto de comentar sobre outra em que o colunista fala da sobrinha dançando Wanessa Camargo sobre o sofá da sala, temerosa de que ele me corrigisse: mesa, mesa da sala. Comento que a coluna me chamou a atenção por minha mãe sempre ter trabalhado com crianças especiais, ela tinha dirigido uma escola de educação especial, e eu, consequentemente, gostava muito do assunto. Ele pergunta se era escola para deficientes físicos ou mentais, os dois, respondo. Awkward silence. Pulo pra demonstração de que sim, sei que o Mainardi escreveu livros de ficção. Eu li o Arquipélago e mais um, que não lembro o nome.  Olha, é raro ver gente que tenha lido o Diogo escritor, e o que você achou de o Arquipélago?  Review literária que consegui elaborar na hora: Não foi o melhor livro que já li na vida, mas foi divertido. É, habilidade para desenvolver uma crítica e relacionar autores contemporâneos nacionais: nula.

Vai colocar nomes no meio da resposta pra ver como a coisa desanda, vai.

Parte III

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