A entrevista – Parte III

PARTE I

PARTE II

Respirei aliviada no primeiro parágrafo da introdução. É ruim, desse jeito, tem que ser ruim. Talvez eu não agüente chegar ao fim se continuar ruim assim. Por via das dúvidas, olho no final da introdução. Afe, a introdução era do Gerald Thomas, não do epimenta. E, implicância totalmente infundada, é claro que o texto seria ruim, sendo do Gerald Thomas, aquele que não vi e não gostei.

They don’t kill cats Horace, do they? After all, quero dizer, as montanhas aqui ao norte de Nova York nada mais são do que uma versão classe média dos Poconos. Epa! Poconos, em português, também não quer dizer que temos poucos nós para amarrar. Chega! Horace é um homem, óbvio. Mais que isso. Um pervertido. Mais que isso. Um daqueles que todos gostaríamos de ser. Faz coisas e observa coisas obscenas e pornográficas… Chega! Vou começar de novo.

Ruim, não acha? Então, vamos acabar logo a introdução e chegar à parte que interessa. Mas o texto introdutório acaba ficando bom, depois do novo começo.  É um relato manso e elogioso sobre a experiência de leitura do livro. O Gerald Thomas do texto vai ganhando uma face carismática que nunca achei que ele teria. Um ursinho carinhoso. Ao chegar na parte epimenta da coisa, sofro ao constatar que o texto é terrivelmente bom. Não há nada a se fazer.

Meu espírito tinha se distanciado do corpo e se perguntava, do alto, o que eu estava fazendo falando do Diogo Mainardi por tanto tempo. A minha parte matérica, sentada na cadeira, dobrada sobre a mesa, tentava se lembrar o nome do segundo livro de ficção que eu tinha lido do polêmico autor. Já que estava me afogando na referência, nada melhor do que ir mais ao fundo. Do poço. Epimenta então me sugere o nome Polígono das Secas. Este era o que eu queria comprar na época em que comprei o Arquipélago, porque foi o livro que deu o Jabuti para o Mainardi, devia ser bom, não o encontrei. Talvez fosse o que li depois, emprestado, mas tinha alguma certeza de que não era. Decido cortar o assunto, sim, esse mesmo, Polígono das Secas (foda-se, suspira, desolada, minha alma flutuante).

Essa leitura rasa, preciso parar com isso. Literatura é diversão e nada mais. Eu gosto de histórias e gosto da forma também. E o Homem que não gostava de beijos era pura forma e ritmo, boas palavras, boas tensões, contos com arestas aparadas.  Adoro a sonoridade da palavra micropênis.  O Gerald se perguntou:  será que esses contos são inspirados em experiências verídicas do autor? A resposta não é mesmo necessária, como concluiu ainda na introdução.  Há uma mente que fantasiou essas situações, e, seja qual for o valor metafórico, a travesti do micropênis está ali, com suas luvas cirúrgicas fazendo o fist-fuck sujo no gordinho, que é a cara do autor. Fofo.

Destituído do fluido essencial, meu corpo, assim como a mão da travesti, mergulhava em lama novamente.  Depois de alguma digressão sobre autores (destaque para a revelação de que não li Vargas Llosa, um crime, principalmente se descoberto depois de elogiar o Garcia Marquez, como um dos meus autores favoritos) volto ao tema secas do polígono, para comentar que tinha lido recentemente, e novamente, Morte e Vida Severina e Vidas Secas para o trabalho de revisão do livro de uma moça que também estava no processo seletivo.  Agora o assunto seria a minha pós em revisão de textos. Com ela, queria apenas estudar a língua, o que consegui. Não tenho ambição de ser revisora, apesar de recentemente ter descoberto que gosto muito da coisa e adoro sociolinguística. Ponto.

Última pergunta. Você pratica inglês? Essa é a parte em que ele vai me mandar ler alguma coisa em inglês, ou fazer alguma pergunta em inglês, pensei. Respondi que não, não praticava, e epimenta me dispensou sem tentar qualquer teste. É claro que, naquele momento, esqueci que poderiam contar como práticas a viagem pra Buenos Aires em que conversava em inglês com outras pessoas de outros lugares, ou mesmo a reunião na quinta-feira anterior com Erika, a pesquisadora sueca, para discutir captação de recursos para um projeto de protótipo de camiseta com um tecido que captaria sinais vitais por meio de sensores e enviaria as informações em tempo real via wireless para monitoramento a distância. Só lembrei que nunca tinha feito intercâmbio, maldito complexo de inferioridade.

Anúncios
A entrevista – Parte III

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s