Auto-ajuda

O sonho de ir para outro lugar, de ir para outro país, de falar outras línguas, conhecer pessoas novas. Sou cautelosa, já faz tempo que descobri que o que está errado em algum lugar nunca é o lugar em si, e sim, a gente mesmo. Assim, acredito que seja impossível ser feliz sem que se seja feliz de qualquer jeito. E, eu sei que é insuportável assumir isso, eu sou feliz. Existem coisas que me fazem feliz sem as quais eu não sei viver (ainda), e foi pensando nisso que eu desisti de ir pra São Paulo. E existem coisas que eu não sou forte o bastante para enfrentar, e foi pensando também nisso que eu desisti de ir pra São Paulo. Resolvi ficar e mudar de casa, morar sozinha, um sonho antigo que agora tenho condições de bancar. Tenho condições de comprar geladeira, fogão e lavadora de roupa. Mesa, banquinhos e sofá. Pagar a internet, a luz, o condomínio. Resolvi pagar o IPTU a vista, mesmo sem o desconto, já tinha passado o prazo. Menos uma preocupação por este ano.

Até agora vem sendo, na maior parte do tempo, tranquilo, o que me aborrece em parte, porque são das intranquilidades que surgem as boas histórias. De intranquilidades, o sofá que não passou da porta da cozinha, a lavadora que faz um barulho terrível por dois minutos, o telefone que não disca, o cheiro do banheiro, a internet que não funcionou nos primeiros dias, o vizinho alcoólatra, acho que só.

Comprei um pinguim para segurar a porta da cozinha, que, aliás, nunca tinha batido com o vento. Comprei porque era bonito, um pinguim na cozinha, e ele é simpático, ainda não tem um nome, acredito que deva continuar sem. O pinguim é minha companhia e foi meu único companheiro quando precisei de um ombro e ouvidos para choramingar minha frustração com o sofá que não tinha passado pela porta da cozinha. Essas têm sido minhas únicas angústias, o sofá que ficou na cozinha, a geladeira que ficou na sala, a extensão de tomada cruzando o chão, o cabeamento da TV e da internet que ainda não encontrou um lugar, o rack que só chega dia 15, o roteador que só chega dia 18, a mesa pro meu computador desktop que tem previsão de chegada para 14 de março. Sou da época em que me prometiam o mundo em três dias úteis, agora tudo mudou.

[parágrafo censurado]

Outra intranquilidade, um cheiro no banheiro, mofo com mistério. Comprei um Bom ar desses que atacam de tempos em tempos,tem sido eficaz. Comprei tapetes, muitos, para camuflar o chão danificado. Comprei também uma cortina bonita pro meu Box, e libélulas de gel para colar nos azulejos sobre a banheira. Achei que ficou bonito, e fiquei feliz.

De mais importante para o conceito da coisa toda do apartamento é aquela velha história do “cansei de ser moderno, agora quero ser eterno”. Tenho me segurado para não comprar módulos cúbicos para fazer estantes, não quero nada que cheire à contemporaneidade. Procuro agora um abajur que projete constelações na parede, e gire. A coisa toda tá ganhando um ar romântico não intencional, que não se parece comigo.

Então eu estava pendurando roupa, na minha área de serviço que não tem janela, é aberta, e, dela, dá pra ver a janela do corredor, e, do corredor, dá pra ver minha área de serviço. [censurado]. Lembrei que o cortador de unhas ainda estava perdido em alguma caixa.

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