Diário de uma garota precoce – 13 de outubro

Tem que ter muita coragem para ser uma garota de quatorze anos hoje em dia.  Paro e reflito sobre a frase que acabo de ler, e reconheço que, de certa forma, me identifico profundamente com a palavra “coragem” e, mais diretamente, com o fator “quatorze anos”, mas, mesmo assim, não espero grandes revelações para as próximas 112 páginas. Minha mãe ainda não entende a lógica editorial que faz com que livros recomendados para uma certa faixa etária sejam ideais para a leitura da faixa etária imediatamente anterior. Assim, esta obra prima da literatura infanto-juvenil que ganhei ontem, ironicamente pelo dia das crianças, me serviria, na melhor das hipóteses, para quando tinha doze anos, apesar de desconfiar de que aos oito já seria capaz de entender a mensagem. Porém, sigo concordando que é preciso ter muita coragem para ser uma garota de quatorze anos hoje em dia. Olho fixamente para a Barbie mulher-maravilha, única sobrevivente do massacre dos brinquedos, que uso como apoio para os livros na estante do quarto.  Sigo lendo e, como previsto, começo a discordar de que o perigo que aterrorize minhas contemporâneas seja o amor irracional que vem em ondas tsunâmicas por esta idade. Sendo uma garota de quatorze anos “hoje em dia”, posso arriscar dizer que o menor dos meus problemas seja o amor. Carrego uma certeza precoce de que eventualmente aprenderei  a domar meus hormônios e que, para as intermináveis horas de sofrimento amoroso, minha melhor amiga é a caixa de bombons garoto que segue aberta com mais da metade de seus integrantes transformados em papéis amassados, bem mais sofridos do que eu. Os bombons são bons anti-faixa-etáreos, e me tiram o gosto amargo dessas paixões (e bota plural nisso) não correspondidas, apesar de reconhecer que, para o bem do meu desenvolvimento físico, deveria me comportar um pouco mais como minha prima Luana, a anoréxica da família (me pergunto se há alguma família funcional que não tenha alguma adolescente com distúrbios alimentares). Por ocasião do mesmo dia das crianças, minha avó, como já é tradição, deu caixas de bombons para todos os netos, e a Luana, previsivelmente, fez um escândalo. Notícias da tia Bia dão conta de que ela chorou a noite toda, algo a ver com a insensibilidade da avó, que, graças a Deus, ficou sem entender nada e hoje já tinha esquecido de tudo. A senilidade chega a ser uma benção para avós de adolescentes. Voltando à coragem, aquela  com a qual concordei de início, considero que de desconhecidos em minhas idades anteriores, e, espero, superados por minhas idades superiores, estejam esse medo insuportável do que é ou não eterno na vida,  o desconhecimento dos limites da minha razão e das minhas responsabilidades e as dúvidas a respeito do que vou me tornar, ou mesmo do que eu sou e pareço ser, monstros muito mais cabeludos que me aterrorizam e que, sendo assim como sou, considero que seja preciso ter muita coragem para enfrentar e vestir meu “ser ou não ser” de cada dia. Por agora, a eternidade dá sinais de que quer ser escrita em vermelho vivo por essas estrias que insistem em percorrer meus peitos, e que, no momento, me parecem as únicas coisas com tendências sérias de serem para sempre em mim.

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