A viagem – parte X. O Porto – parte 1

Cheguei ao Porto pela estação de Campanhã. Lá mesmo, pegaria um metrô que me deixaria próximo ao hostel. Primeira confusão: a máquina de bilhetes mais próxima só vendia os para trens urbanos e não havia sinalização alguma de para onde estava o metrô naquele corredor subterrâneo da estação. Parei um desavisado que corria menos: “Senhor, desculpa, com licença, boa noite, por favor, pode me informar onde fica o metrô.”, era um brasileiro – excesso de educação por nada, bastava um por favor, suspirei – e me indicou uma das escadas. Subi e, depois de umas voltinhas, encontrei a máquina de bilhetes do metrô. Os cartões no Porto são chamados “Andante” (as máquinas que os vendem têm esse nome também)  e valem para os outros tipos de transporte. Salvo engano, o preço da passagem foi de $1,25 (existe uma diferença de preço por zona para a qual se quer ir, um quadro na própria máquina indica a qual zona pertence cada estação). Pelo mapa, poderia pegar qualquer uma de três linhas que partiam da estação, só não poderia pegar uma que vinha de outro lugar e ia pro lado contrário. Obviamente me dirigi à plataforma errada.

O metrô no Porto correspondia à lenda ouvida algumas vezes de que “na Europa” não é difícil burlar as regras e usar o transporte público gratuitamente. Existiam algumas maquininhas para se ‘validar’ o cartão antes da viagem, mas não havia portas ou catracas, ou seja, você valida o cartão se quiser. Se não quiser, anda de graça e reza pro fiscal não te pegar (eu não sou de correr riscos). Regrinhas básicas para validação do cartão no Porto: é preciso passá-lo nas maquininhas sempre que for mudar de linha e você tem uma hora pra usá-lo depois de validado pela primeira vez. Aprendi as regras algum tempo depois de ter comprado um segundo cartão à toa porque validei o meu na linha que não poderia pegar e tive que ir para o trilho do outro lado, me perdendo muito no caminho, tendo até saído da estação pra chegar nas outras linhas.

Outros detalhes importantes: quatro linhas diferentes passam pelo MESMO trilho em umas quatro estações no porto, indo até em direções contrárias e não há diferença de cores ou tipos de trens, só o destino no letreiro luminoso da frente de cada um muda. Não sabia disso na primeira vez em que peguei o trem e supus que, como o adesivo com a logo do metrô era roxo, aquela era a linha roxa. NÃO. O adesivo da logo é sempre roxo, não importa a linha. Dei sorte porque poderia pegar qualquer trem que passava por ali. Outra coisa que indica a linha que está no trilho é a tela de horários da plataforma, sempre bastante pontual. Depois de uma mudança de linha menos conturbada (em uma estação mais sinalizada), parei na estação São Bento, a mais bonita da cidade e a mais próxima do hostel. Como de costume, me perdi mais um pouco, indo para a direção errada e subindo um morro desnecessário, às vezes acho que sou pior com mapas do que sem eles.

Yes! Porto Hostel

Banheiro compartilhado no hostel.

Tinha reservado a opção de hostel mais cara e bem-avaliada no Hostel World, que era também a mais bem-localizada. Por inexpressivos $36 pelos dois dias (mais uma taxa de reserva no site), ficaria num quarto quádruplo misto – inicialmente, tinha reservado um quarto feminino, mas houve um imprevisto e me perguntaram se poderiam me mudar de quarto. O Yes! Porto Hostel como o nome sugere, é o sonho de qualquer viajante jovem e animado: muito limpo, muito arrumado, com paredes adesivadas, tudo no lugar, tudo muito certinho. Eu prefiro quando as coisas são mais quebradinhas, mais complexas e menos funcionais.

Acho que como defeitos para um público “Uhul!”, no hostel, estão apenas a falta de elevador, o wi-fi só funcionar na área da recepção e o fato de o banheiro ser misto, ou seja, a área de banho e de vasos sanitários é dividida com meninos, muitas vezes sem muita mira. Por outro lado, o espaço nas duchas é bom, dá para tomar banho e trocar de roupa tranquilamente dentro de cada box e a limpeza é feita com muita frequência, de forma que não presenciei a sujeira, mesmo dividindo o hostel com um grupo de 58 intercambistas de vários países que estudavam na Espanha (o tal ‘imprevisto’ que me mudou para o único quarto em todo o hostel que não abrigava o grupo).

No check-in, a recepcionista, vestindo um bigode plástico por ocasião do carnaval, me entregou uma pulseira magnética com o número do meu quarto e o número da minha cama. A pulseira abria tanto a porta do hostel, quanto a porta do meu quarto, quanto a grande gaveta embaixo da minha cama, que comportava facilmente uma mala média. Apesar do aspecto over-arrumadinho, o quarto, localizado no isolado quarto andar, tinha o teto inclinado com três janelas com vistas incríveis para a torre dos clérigos e para uma praça próxima. Estava feliz, portanto.

Logo depois da minha chegada, entra uma companheira de quarto. Ela era de Curitiba, fazia engenharia civil e iria passar seis meses em intercâmbio no Porto. Passaria a primeira semana no hostel, procurando um lugar fixo para morar. Tinha chegado ao Porto naquele dia mais cedo e teve uma das malas extraviadas pela TAP, mas estava tranquila. Contou que não falava inglês e não conseguiu se comunicar com uma alemã que puxou papo com ela no banheiro.

Em instantes, uma terceira habitante, notadamente estrangeira pela tonalidade do cabelo, entra no quarto. “Você é a nossa vizinha?” sotaca a curitibana, a novata vira a face e constato que estou diante de uma sósia da versão jovem da Cláudia Schiffer, que faz cara de quem não entendeu o português. “Are you our neighbor?”, gaguejo eu, “yes!” ela sorri claudia-schiffermente, mexe mais um pouco em suas coisas e deixa o quarto.

Claudia Schiffer

Era a alemã do banheiro, me informa a curitibana. Se eu entendi bem, estou em Portugal com a Claudia Schiffer, então me sinto em um universo paralelo, remake de “Simplesmente Amor”, em que o quadro do Colin Flirt e o do recém-viúvo resolvem se unir. Nessa nova dimensão, seria eu o Rodrigo Santoro? Dúvidas existenciais.

Decido tomar um banho e, ao abrir a mochila para separar as roupas, descubro que tinha esquecido a toalha. Eu, que trouxe duas toalhas na viagem, para poder dispensar uma em Paris pra dar espaço às coisas que eu compraria, esqueço a toalha na casa do Alan. Não estava animada para pagar $5 pela toalha do hostel, então acabei usando uma blusinha improvisada para me secar – o que no final das contas foi mais vantajoso, a blusinha secava mais rápido que a toalha. Dica para tomar banho em cubículos que tenham ganchos para roupas: levar aqueles sacos de pano que se fecham com uma cordinha, toda a roupa pode ser colocada no saco e pendurada pela cordinha no gancho, sem riscos de molhar, por exemplo, a única calça que foi levada para a semana de viagens mochileira. A dica de levar sacos de pano em vez dos de plástico peguei do blog da Lívia, e eles são realmente mais práticos e diminuem o barulho dentro de quartos compartilhados com estranhos, acho que ocupam até menos espaço.

Banho tomado, volto ao quarto, a curitibana conversa com a família ao telefone, então penso em tentar o wi-fi da recepção, mas, descendo as escadas, escuto os primeiros acordes de “ai se eu te pego” e volto correndo. Espero a curitibana desligar o telefone e a chamo para sair e comer alguma coisa. Na recepção, encontro com a Claudia Schiffer e a convido pra nos acompanhar.

Francesinha

Andamos sem rumo enquanto a alemã conta que acabou de terminar um intercâmbio de seis meses numa faculdade em Salamanca, na Espanha, onde estudava história latino-americana, e tinha chegado naquele dia ao porto, de ônibus, numa espécie de escala para pegar um avião no dia seguinte para Colônia, sua cidade natal. Paramos em uma lanchonete aleatória sem clientes ou charme, e, apesar do frio intenso, nos sentamos nas mesas da calçada (eu prefiro aqui fora, e você, Claudia Schiffer, não está com frio? Não, sou alemã!). Por lá, decido pedir a comida típica que me foi recomendada pelo Alan, a “Francesinha”. Por $6, a alemã me acompanha no pedido, e a curitibana, que teria mais tempo no país para experimentar a iguaria, pede um hamburguer. Tento pedir vinho para acompanhar, mas a garçonete me repreende e fala que é costume comer a francesinha com imperial ($1,20), reparo nas garrafinhas long-neck vazias das mesas ao lado, então pergunto se servem também chopp (fino), servem. Contrariando minha previsão de morrer de frio, decido seguir a tradição. Pouquíssimo tempo depois, chegam nossos pratos.

A francesinha é um enorme sanduiche de pão de forma feito com todos os tipos de carne, coberto com queijo derretido, mergulhado em uma sopa super-picante e, no caso, acompanhada por batata frita. Em algumas lanchonetes, também é servida uma versão especial com ovo frito e bife. Resumindo, é o prato perfeito para os amantes de gororobas carnívoras e pimenta. Não sou muito fã da mistureba de carnes, mas adoro pimenta, e, estando lá, começo animada o desafio do prato.

Francesinha, tal qual a que eu comi.

Um amigo da curitibana, que ela conheceu pela internet e haviam se encontrado pela primeira vez naquele dia no aeroporto, se une a nós na lanchonete. Ele, coincidentemente, estuda história e está fazendo intercâmbio no Porto. Seus olhos brilhavam para a Claudia Schiffer, mas não consegui definir exatamente se era pelo fato de ser a Claudia Schiffer ou por ela estudar história latino-americana. Quando estou nas últimas garfadas da minha francesinha, a Claudia, na metade da dela, começa a reclamar que era um prato grande demais (e era, mas, em minha defesa, ela comeu a batata frita, e eu, só o sanduiche – pensei nisso enquanto maldizia mentalmente a magreza dela).

Depois da lanchonete, a curitibana iria beber no apartamento que o amigo divide com mais duas brasileiras e nos convida, mas, como nosso tempo é curto, sugiro para a alemã irmos conhecer um bar que o Alan me recomendou: O Piolho. O amigo dos olhos brilhantes sabe onde fica e nos deixou na porta. O Piolho é um bar que reune a juventude estudante do Porto e possui uma bonita área externa com espécies de estufas de vidro para os clientes fumantes, como não era o nosso caso, sentamos no interior. Por ocasião do carnaval, havia muita gente com acessórios divertidos e, somando-se a isso, era dia de jogo e alguns torcedores se exaltavam a cada lance mostrado na TV. Tomamos uma imperial cada a $1,40 e a alemã sugere irmos a um bar nas redondezas que um amigo dela tinha sugerido, o Plano B, e lá vamos nós.

Plano B de dia, no escuro é mais legal.

No Plano B, a atmosfera é bem diferente: um salão na penumbra, mezzo iluminado por lustres enormes que pendem do teto, espelhos grandes ampliando o ambiente, paredes vermelhas, mesinhas redondas pequenas, grupos de pessoas silenciosas e uma trilha sonora moderninha retrô. Me senti em casa. A alemã pede uma coca-cola e eu peço o cardápio. A garçonete vai para trás do balcão e demora uma eternidade preparando um drink para outra mesa. Escolhido o meu pedido, vou até outro atendente e tento pedir o tal Porto, pra já riscar a experiência da todo list, mas só havia o porto branco então peço o vinho tinto mesmo e aproveito para lembrá-lo da coca-cola perdida da Claudia Schiffer.

Munidas das nossas bebidas, conversamos mais e ela me conta que precisará trabalhar como garçonete para se recuperar financeiramente dos gastos do intecâmbio, que quer ser professora, que quer fazer mais uma viagem para a América Latina, que já foi a Buenos Aires, que tem medo de avião, que mora em Colônia com o namorado, que está, ao mesmo tempo, feliz por voltar pra casa, mas muito triste por deixar os amigos, que a noite anterior foi de muita festa de bota-fora e que ela estava exausta. Toca Moloko – Fun for me, e comento que era minha música favorita em 98, ela não conhece. Terminamos as bebidas, ela tira algumas fotos do lugar e seguimos de volta para o hostel.

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A viagem – parte X. O Porto – parte 1

4 comentários sobre “A viagem – parte X. O Porto – parte 1

  1. alguns apontamentos:
    – eu sugeri o bar do piolho mas foi só pra mamar a francesinha, que lá tem bom custo/benefício. para outros fins, aquilo não serve para pessoas que nasceram em 1985.
    – imperial = fino = nosso chope. imperial é a nomenclatura para o centro/sul de portugal. fino, para o norte (de coimbra pra cima). no norte, é mico falar ‘imperial’; no sul, é mico falar ‘fino’. e no norte ainda tem o ~príncipe~, que é um fino grande.
    adoro que você tenha gostado do porto. estou ansioso para ler o texto sobre o dia seguinte.

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