A viagem parte X+1. O Porto Parte 2

Torre dos Clérigos vista da janela do quarto do Hostel

No quarto, encontramos o último colega que faltava conhecer: um americano da Flórida, com jeito de gente boa, que conhecia muitos brasileiros. Ele era arquiteto, tinha vinte e tantos ou trinta e poucos anos, e estava viajando o mundo com uma bolsa de estudos para pesquisar projetos arquitetônicos de arenas de eventos. Nas palavras dele: “pfff. basicamente estão me pagando pra viajar :D”. Muito sexy e, eu chutaria, gay. No dia, ele já tinha andado bastante e visitado a Casa da Música, um dos lugares ‘mais afastados’ (não daria pra ir a pé) que o Alan sugeriu que eu fosse. Perguntei se tinha visto a programação de eventos para os próximos dias, e ele  se desculpou falando que não tinha a menor ideia, que estava muito focado na arquitetura.

Era véspera de carnaval e a cidade estava barulhenta. O hostel, muito bem-localizado, ficava um pouco no meio da muvuca e, além disso, o grupo de 58 estudantes de intercâmbio também ajudava a compor a trilha para uma noite difícil. Depois de encerrar a conversa com Claudia Schiffer e o Arquiteto sexy, e, depois de uma luta relativamente breve com os barulhos, consegui dormir. A noite teria sido ótima, se não tivesse sido interrompida por um ruído forte vindo da direção da Claudia. Acordei de sobressalto e me virei depressa pra saber o que estava acontecendo na cama ao lado: Claudia chorava sozinha na cama, e soluçava ruidosamente – e eu achando que o arquiteto estava tentando estuprá-la. Acho que estava sofrendo pela volta à fria Alemanha, tinha sentido um draminha no papo no Plano B. Voltei a dormir.

Acordei às 7h30, todos ainda dormiam no quarto – menos a curitibana que não tinha dormido lá, danadinha-, peguei meu mapa, meu casaco e desci para a recepção. O café da manhã não estava totalmente servido, mas já deu para comer o emmental (que, por lá, dá em árvore que nem o queijo prato aqui) e o cereal do dia. Pulei pra fora do Hostel e comecei a seguir o trajeto que o Alan tinha me indicado num mapa. No quarteirão que separava o Hostel da Torre dos Clérigos, uma única lojinha de souvenirs estava aberta àquela hora daquele dia (carnaval), então aproveitei pra fazer as compras: dedais, galinho pro sobrinho, colher pra Laila que me emprestou a mala e imãs de geladeira. Eram as minhas primeiras compras  da viagem, e, no Porto, eram grandes as probabilidades de serem as últimas. Poderia seguir o resto dia sem me preocupar com presentes. O vendedor da lojinha, com um forte sotaque não-português, me perguntou de onde eu era, perguntei o mesmo pra ele: Bangladesh.

Naquele horário, só dava pra ver a Torre dos Clérigos por fora e, por fora, ela não parecia nada excepcional. Estava lá uma torre barroquinha que, quando fundada, foi a construção mais alta de Portugal. Dizem que é visível de quase todos os pontos da cidade, e, só de picuinha, eu procurei avistá-la em todos os lugares que fui, mas, em muitos deles, não consegui. Rá.

Eu e a Torre

Antes de seguir as informações do mapa, dei uma voltinha pela praça (Jardim da Cordoaria)  e me diverti com uma escultura “Treze a rir dos outros”, de um tal de Joan Muñoz, familiar. Aproveitei todas as vantagens de estar praticamente sozinha – só eu e o mapa. Voltando a escutar o que Alan me disse no mapa, contornei a praça pela Rua das Carmelitas, onde deveria ter encontrado a livraria Lello e Irmão (lê-se lélo), que está nesta lista das livrarias mais bonitas do mundo, mas passei uma, duas vezes, e nada de ver a livraria. Desistida, fui apreciar os azulejos da Igreja do Carmo, virando na Rua de Cedofeita e depois continuando na  Miguel Bombarda.

Palácio de Cristal

Ao passar pela Rua do Rosário, fiz o caminho que o Alan me indicou, indo de um lado a outro, para que conhecesse as galerias e casas de chá por lá, mas, carnaval, tudo fechado. Segui novamente pela Bombarda até finalmente chegar ao Jardim do Palácio de Cristal, onde não existe mais nenhum Palácio de Cristal – algo que, aparentemente, envolveu uma grande crise política, porque o palácio foi demolido por falta de verba pra restauração. No lugar dele, uma grande tenda abobadada, onde, mais propício impossível, estava montada uma exposição de dinossauros. Os jardins do palácio ainda estavam lá, e fui respirar um tanto de ar verdinho. Segui até os mirantes que davam  para uma vista linda do rio D’ouro, próximo aos jardins de rosas que, pelo frio, estavam todas secas esturricadas.

O rio, a ponte e a pintura da ponte. (e os roseirais esturricados no cantinho)

No caminho para a saída do parque, o movimento humano começava a crescer, e, junto com ele, surgiam outras  companhias inesperadas: alguns pavões caminhavam livremente pelos jardins e eram ora alimentados, ora judiados pelos visitantes, mais ou menos como fazemos com as nossas pombas por aqui.

Seguindo fielmente o mapa, fiz o mesmo caminho de volta, até a rua das Carmelitas, ainda que numa esquina tenha parado para comer um salgadinho e tomar café. É muito difícil encontrar salgados que pareçam bons por lá. Doces bonitos sobram, mas tive que me contentar com um folheado de frango um pouco murcho, meio desanimado.  Uma vez novamente na Rua das Carmelitas olhei e olhei de novo pra achar a tal livraria, até que um amontoado de adolescentes com rostos colados numa vitrine me chamou a atenção. Era lá, num prédio pequeno que estava fechado, com uma faixa enorme anunciando algum lançamento próximo e quase escondendo o nome da livraria. Tentei desviar o reflexo nas vitrines, mas não deu mesmo pra ver muita coisa.

Aproveitando que estava novamente próxima ao Hostel, dei uma escapada para ir ao banheiro e, depois, voltei à Torre dos Clérigos que já estava aberta para visitações. Comprei meu vale-subida e comecei a escalar os longos seis andares de escada que começam amplos e vão afunilando a medida que se chega em cima. No segundo andar, enquanto a vida ainda é bela, dava para ver os sinos da Torre, por uma abertura.  Lá pelo quarto, já não era possível respirar mais fundo por conta da estreiteza da escada. No topo, a vista da cidade era muito bonita, mas gostei mais da experiência da subida do que da vista em si e já começava a me preocupar em como iria descer (só existia aquela escada). Me espremendo e pendurando dos modos mais impossíveis, dividindo o não-espaço com quem estava subindo, fui descendo devagar, aproveitando também da falta de educação alheia, que atropelava os que estavam subindo. Consegui chegar viva ao andar térreo (a volta sempre parece mais rápida que a ida) e ainda dei uma voltinha pela igreja, que não tinha nada de mais.

Segui, então, pela Rua da Galeria de Paris, depois a de Santa Tereza, depois a da Fábrica, depois a Dr. de Magalhães, até chegar na Avenida dos Aliados,  que reconheci como sendo uma pela qual tinha passado na noite anterior. Por lá, um parque infantil estava armado e movimentado, tinha carrossel, chapéu maluco e um tiro ao alvo com bichos variados e uma banana maconheira de pelúcia de prêmio. Depois de dar umas voltinhas e fotografar as crianças cada vez mais fantasiadas, voltei ao rumo do mapa e fui andando pela Dr. Magalhaes Lemo. Cabe dizer que a cidade toda é bem bonitinha e que, se quase nada estava aberto até então, a arquitetura e a vida por lá me divertiam bastante.

Bananas maconheiras

Ao chegar na Rua Santa Catarina já era quase meio dia e, pontualmente, tinha achado o lugar onde o Alan sugeriu que eu almoçasse: Café Majestic. Apesar do constrangimento de sempre, por estar sozinha entrando num restaurante, fui muito bem atendida e acomodada numa mesa central, ao lado de outra que iria acomodar, em instantes, um sonoro grupo de brasileiros. Olhei o cardápio e, confirmando que os preços eram amigáveis, pedi “Magret de pato perfumado com Porto Tawny” (e batatas). Para acompanhar, uma água com gás. A garçonete pingou um azeite num potinho, me mostrando a garrafa como quem mostra um vinho, fiquei achando que era chique. Em seguida, serviu o couvert (pães e azeitonas) lacrado, e assim ele permaneceu – o folheado murcho de frango ainda trazia boas recordações.

Café Majestic

Mal deu tempo de apreciar o ambiente, que era bastante parecido com a confeitaria Colombo do Rio de Janeiro, com grandes espelhos e lustres, o pato chegou. Como nunca tinha comido pato, achei estranho a carne ser tão escura, mas, em todo caso, comi e gostei. Era uma boa carne, um molho razoável e boas batatas. Terminado o prato principal, hora da escolha da sobremesa. Sempre com alguma tensão nessa hora, escolhi a tarte de amêndoa, esperando uma torta delicada com um creminho de amêndoas. No lugar, veio um pedaço de bolo com uma cobertura crocante de amêndoas açucaradas. Não estava ruim, mas não gosto tanto de bolos, então fiquei um pouco decepcionada. Fiquei feliz com os $25,00 da conta, achei justo. Antes de ir embora, passei pela parte de trás do Café, e pude conferir o sol batendo em umas esculturas neoclássicas do tipo musa-anão-de-jardim.

O Porto Parte 1

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