Água, corredeira abaixo

Sonhei com o fim do mundo, no dia seguinte, uma amiga minha contou que sonhou que eu estava fumando porque pesquisava como era fumar para escrever sobre uma personagem num livro. Daí juntei os sonhos e escrevi esse comecinho ( de um livro que vai vir depois do livro juvenil sobre jovens com superpoderes – e é sério isso). 

Acordou com os gritos desesperados vindos dos prédios vizinhos. Olhou pela janela do quarto, que dava para as costas dos outros edifícios do quarteirão. Nada fora do ordinário, apenas aqueles gritos desesperados vindos sabe-se lá de quais janelas. Eram pouco decifráveis, não vinham com informação agregada, não era “zêro” ou “galo” ou o genérico “gol”. Domingo pela manhã, ninguém torcia assim por uma corrida de fórmula um. Nas vezes em que ouvia gritos isolados sem motivo aparente, vindos do interior de algum apartamento, ela, do 16º (e último) andar do seu prédio, pensava logo que alguém tinha pulado (e que, subsequentemente, alguém tinha descoberto que alguém tinha pulado). Mas aquilo, um conjunto de gritos desesperados e desordenados, nunca tinha acontecido antes – e seria motivo paraconversar com o síndico, certamente.

Sentia-se um zumbi quando sua manhã de sono livre era interrompida abruptamente e, como tal, arrastou-se até a sala e serviu-se de água. Por uma fresta da janela que dava para a rua, o cenário começava a explicar a razão para tanto desespero reunido. No horizonte, os primeiros raios de sol eram refletidos na superfície de um imenso mar azul. Seria uma paisagem ordinária, não fosse o fato de que não estava no litoral. A cidade ficava localizada a uns novecentos metros de altitude, no meio de um conglomerado montanhoso, a uns seiscentos quilômetros de distância do mar.

Tomando uma súbita consciência da estreiteza dos pés, ela tentou manter, simultaneamente, o equilíbrio e o copo de água pressionado contra os lábios. Demorou um bom tempo até que surgissem hipóteses para explicar o que estava acontecendo. Imaginou que tivesse sofrido um AVC, que estava de férias na praia e que não se lembrava de como havia chegado ali. Um grito mais agudo de uma vizinha  a despertou do estado catatônico, e imagens cinematográficas guardadas num canto da memória facilitaram o processo cognitivo: um novo dilúvio! é o apocalipse!, constatação seguida imediatamente da racionalização: poderia ela chamar de dilúvio aquela maré calma que vinha sem fazer alardes (tirando o fato de estar, aparentemente, acabando com a humanidade). Não havia tempestade, apenas a água. Tentou ligar a televisão,  testou o interruptor uma, duas, três vezes. Nem sinal de energia elétrica. O celular também não funcionava, a última mensagem que havia recebido, no dia anterior, era da operadora, divulgando um novo pacote de dados promocional.

Afastou a cortina da janela para ampliar seu campo de visão, e, conforme imaginava, a maré subia, a uma velocidade baixa, sem muita afobação. Contou os andares restantes de um edifício parcialmente alagado, muito distante, em que os moradores se abarrotavam nas janelas, sinalizando pedidos de socorro chacoalhado roupas (suspirou em reprovação), nove de uns… Doze?, marcou o horário. Se conseguisse estimar a velocidade da maré, saberia quanto tempo lhe restava para realizar seus últimos desejos – pensou no que gostaria de comer, mas achou prudente não sair de casa, a rua devia estar abarrotada de fugitivos do fim do mundo, as padarias deviam estar sendo esvaziadas e, principalmente, o elevador estaria parado pela falta de energia elétrica. Descer e subir 16 andares a pé não era a forma como gostaria de passar seus momentos finais de vida.

Dentro do armário, uma lata de sardinha do ano anterior e um pacote de macarrão instantâneo. Iria pela segunda opção. Cavou um pouco mais para buscar uma panela e achou algo que restabeleceu sua fé no futuro (mesmo que tão curto) da humanidade. Um último maço de cigarros, o maço que ficara de recordação de quando tinha parado de fumar. Violou o lacre, bateu o pacote na mão e escolheu, dos três que saltaram para fora, o que lhe pareceu mais apetitoso. Sentiu a fumaça cancerígena queimar a garganta (era mentolado) e sorriu com a lembrança da ameaça das não sei quantas substâncias químicas que poderiam destruir seu pulmão, em dez, vinte anos – conferiu a embalagem para ver se era a que vinha com esses números, não, era a do feto morto.

Não tinha mais tempo para o câncer, ou para o feto morto. Nunca se sentira mais livre do que na fração de segundo em que chegou a essa conclusão – mas a sensação não tardou a passar, dando lugar à de clausura, seguida por acessos de falta de ar ao perceber que morreria ali, naquele apartamento, naquele momento da vida. E ela nem gostava de estar lá.


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