A saga da semana passada

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Durante a semana passada, li uma avalanche de livros de sagas infanto-juvenis (para todos os efeitos, por conta de uma pesquisa que estou desenvolvendo).

Até antes dessa pesquisa, o único livro que tinha lido nesse estilo era o primeiro da saga Crepúsculo. Justificativa: fui passar o carnaval numa cidade do interior e, como toda cidade do interior, por lá, o carnaval é bem movimentado, então, como toda terezamaria (eu sempre quis ser isso mesmo), fiquei trancada na casa de uma tia durante os três dias. Sem por o pé na rua. Na mesa de cabeceira da prima, achei o Crepúsculo e comecei a lê-lo. Achei o livro horripilante, não no sentido “que medo de vampiros que brilham como purpurina”, mas no sentido de mal escrito e com personagens ruins. Já tinha assistido ao filme, e, devo admitir, preferi a Bella cinematográfica à do livro. O Edward é um pouco “menos ruim” no livro, não que isso melhore muito sua avaliação. No geral, foi o bastante para me manter afastada de qualquer Best-seller do gênero.

Queria reiniciar minha saga pelo Harry Potter, parte pela fama,  parte por já ter lido algumas páginas e gostado. Para o meu azar, em todas as livrarias que fui, a versão econômica do primeiro volume tinha esgotado. Decidi comprar o primeiro Percy Jackson. Foi uma experiência agradável, adorei os novos conhecimentos sobre mitologia grega e a aventura em si é bem divertida. Achei que o livro é razoavelmente bem escrito, mas houve uma irritação inicial com a mensagem de “olha, vou contar  a minha história, você também pode ser um de nós, ou pode não ser”. Não sei até que idade esse discurso, que coloca de forma tão direta a imersão esperada do leitor, cola.  Para mim, foi só uma embromaçãozinha e acho que, se eu fosse criança e não tivesse essa parte, eu iria fantasiar sobre ser um semi-deus e gostar do livro da mesma forma. Outra pequena irritação foi com o tamanho dos parágrafos, a maior parte deles é formada por uma única frase (quem no mundo consegue separar ideias assim!). Acho que isso acelerou bastante a leitura, talvez seja essa a razão, talvez o público idealizado para o Percy Jackson seja mais novinho e tenha mais dificuldade de estabelecer sentido em parágrafos maiores (e que feito deve ser para uma criança de 8 anos ler um livro de quase 400 páginas!).

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Terminado o Percy Jackson, minhas mãos já coçavam para pegar o Harry Potter, então voltei à livraria na esperança de ter chegado um novo lote, mas não. Decidi então comprar o segundo livro da saga (“HP e a câmara secreta”) e o primeiro dos Jogos Vorazes – com o plano de comprar o primeiro Harry Potter na internet. Abri o Jogos Vorazes e quase não consegui interromper a leitura para comer, dormir ou ir ao banheiro. A estrela do livro é amarga e demonstra uma indiferença doentia pela tragédia que a cerca, preocupada somente com a sua sobrevivência (e a de sua família). Eu me perguntava a todo momento “para que idade esse livro foi escrito?”, afinal, pessoas morrendo de fome pelas ruas e jovens se matando graficamente numa arena  não me parece próprio para crianças. Talvez eu as esteja subestimando, afinal, o livro está na parte infantil da livraria, lado a lado com os Harry Potters e Percy Jackson. Ao terminar a leitura, ainda estava tomando fôlego pra me recuperar das últimas emoções da história (senti vontade de ler os outros da saga, mas desanimei ao ver resumos e críticas generalizadas sobre o terceiro e último livro).

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Li também uma crítica do Stephen King que fala muito bem de Jogos Vorazes, mas menciona um porém, com algo que ele chama de “preguiça autoral”. Acho que entendi isso, há toda a ação eletrizante que não deixa que você se afaste do livro por um segundo, mas, por outro lado, há pouco desenvolvimento de personagens e alguma inconsistência na trama. A única personagem decentemente desenvolvida é a Katniss, ainda assim, a autora vive lançando mão de justificativas criadas na hora para determinadas ações dela. Por exemplo, se a Katniss acerta um papel amassado numa lixeira, é apresentada a lembrança sobre uma situação com o pai na infância, em que ela teve que acertar um papel na lixeira e, por ter acertado, ganhou uma grande lição – muitas vezes, essas lembranças contrastam com o perfil ‘miserável’ que fazemos dela e da família.

Outro ponto que devo levantar foi a minha dificuldade em acreditar na heterossexualidade em Katniss, que basicamente só demonstra reações afetivo-sexuais com personagens femininos da história (o ápice das minhas desconfianças foi o momento em que ela fantasia sobre dormir com a Avox ruiva. QUEM VOCÊ QUER ENGANAR?! – e não me venham com explicações baseadas na falta da figura da mãe, não cola). Por isso, confiei piamente no relacionamento fake com o Peeta  definitivamente, não acho que fosse movido por conta da lembrança de um Gale lá da Costura. Aliás, o Gale teve desenvolvimento nulo de personagem e, nessa primeira história, é plano como uma folha de papel. De todo modo, Katniss já é minha personagem feminina preferida de todos os tempos, principalmente pelo jeito bitch amarga, difícil de ser retratado nos estereótipos ‘doce e frágil’ que todas as heroínas, de uma forma ou de outra, parecem carregar por aí. Justamente por gostar tanto desse retrato de um feminino “alternativo”, fiquei com um temor perene, durante toda a segunda metade do livro, de que, de alguma forma, eles colocassem um homem como herói da Katniss. SPOILER! graças a deus, isso não aconteceu. Ufa. No final das contas, esse é um livro que eu gostaria de dar para meus filhos lerem.

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Terminei a leitura e a minha encomenda online não tinha chegado ainda, então, não me restou alternativa que não fosse ler o segundo Harry Potter antes do primeiro chegar pelo correio. E vou ser sincera ao dizer que fiquei um pouco decepcionada. O livro não era tão bem escrito quanto eu imaginava, a história é boa (fiquei impressionada no tanto que o roteiro adaptado do filme foi fiel ao livro), cativante, mas há alguns probleminhas. Em muitos trechos, a autora retomava descrições de personagens e ambientes já apresentados no livro anterior. Eu achei desnecessário, por desconhecer alguém (além de mim, haha), que tenha lido o segundo sem antes ler o primeiro. Na época do lançamento devia fazer alguma lógica, já que havia uma distância de, acredito, um ano entre um lançamento e outro, mas, mesmo assim, as descrições retomadas eram plenamente dispensáveis para o andamento da história (minha pouca prática com os segundos volumes não permite que eu faça uma avaliação se essa é uma prática comum nos livros infanto-juvenis). Mais ou menos a cada vinte páginas, eu encontrava um frase com uma construção incômoda – talvez fosse problema da tradução, mas não tem como deixar de reparar.

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Dois dias depois, o primeiro Harry Potter chegou. Eu já tinha baixado as expectativas, então, posso dizer que o livro me surpreendeu. Ele é exatamente o que eu imaginava antes de ler o segundo, otimamente escrito, não tem os probleminas que a Câmara apresentou. Fiquei com vontade de saber se esse segundo é o pior da série, talvez tenha acontecido um lapso, algum estresse entre autora e editora que tenha sido solucionado para o terceiro. Leitores de Harry Potter, se tiveram essa sensação também, compartilhem suas críticas.

Ainda estou montando minhas considerações (leigas) sobre a estrutura dos livros, mas já deu pra sacar que há uma similaridade no modo como a história é apresentada. Uma parte bem grandinha é dedicada somente à construção do personagem, uns 40% do livro, em que lentamente vão sendo construídos os tijolos da personalidade do protagonista, e as pistas sobre o que está por vir são veladas. Em geral, o narrador da aventura é o personagem principal. Até no caso do Harry Potter, em que o narrador é em terceira pessoa, ele não é “onisciente” e apresenta apenas a percepção de Harry Potter para os acontecimentos (à exceção do capítulo introdutório do primeiro livro). Depois dos 40% iniciais, em que o personagem principal além de ser apresentado também ganha seus aliados, temos uns 10% de preparação para a jornada, quando há maior interação com os mentores e o reconhecimento inicial de quem é o vilão da historinha. Daí acontece uma jornada de mais uns 40% com aventuras paralelas, que teoricamente estão levando a um embate final (essa parte, por costume, eu pulo, leio o final, e depois retomo – sofro de ansiedade grave para ler os livros, tenho que ler o final antes). A cada batalha é revelado mais um pedaço do quebra-cabeça que vai ajudar a solucionar a situação – nos três casos, a trama surpreende por sermos levados a acreditar durante os 40% das aventuras que o inimigo era um, quando, ao final é constatado que, surpresa (não para mim, que li antes), é outro.

Não sei se vou continuar a leitura de nenhuma das sagas, acho que elas vão acabar entrando no meu estoque junto aos livros espíritas, na categoria ‘livros-emergenciais’ – aqueles livros que leio quando estou com bloqueio pra ler qualquer outro gênero, porque sei que são fáceis de terminar e reacendem o ânimo da leitura.

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A saga da semana passada

4 comentários sobre “A saga da semana passada

  1. Tinha esquecido de como é legal vir ler suas coisas por aqui.
    Você já leu “The perks of being a wallflower”? quero saber o que você acha =)

    (ps: a Câmara secreta é o pior.)

    1. Maria Tereza disse:

      Não conhecia esse livro, Otavio! Vi que tem pro kindle, vou aproveitar pra ler semana que vem e te conto (pro resto da semana agora vou lutar com o pequenas memórias do saramago). Sempre bom receber a sua visita também! (e outras duas pessoas falaram que o Câmara secreta era o pior mesmo, então fiquei mais tranquila)

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