O conto da moça desconhecida

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(leia antes o conto da ilha desconhecida)

 Uma moça foi bater à porta do rei. Aquela das petições. Carregava junto ao peito um envelope pardo em que levava todos os documentos necessários e suas cópias autenticadas. Entregou-o prontamente à moça que veio atendê-la pela portinhola. Ao pegar o envelope, a moça da portinhola observou de cima a baixo a moça da petição, tremilicou  a ponta do nariz e foi ver o que podia fazer a respeito.

Foram-se longos instantes até que a portinhola abriu-se novamente, e a mesma moça de antes veio informar que, por desconhecerem por completo de quem se tratava, não saberiam dizer qual era mesmo a petição e que ela  voltasse outro dia, ou melhor, que retornasse ao seu trabalho, que já devia ser-lhe suficiente, e nunca mais voltasse – havia petições melhores a serem atendidas (e apontou para o mapa numa parede ao fundo, em que estavam demarcadas as coisas que já estavam definidas e os caminhos que já estavam traçados, e eram muitos, de todas as cores, com traços fortes de canetinha).

Por confiar na norma e na burocracia, a moça que foi ter à porta resignou-se. Já estava na hora de voltar ao escritório. Seu trabalho consistia em refazer coisas feitas e, todos os dias, ia para lá, refazia algo já feito e voltava para acolá. É suficiente dizer que ela, indo e vindo a todo tempo do mesmo lugar para o mesmo lugar, não ia, de fato, a lugar algum. Também, ao refazer o que já estava previamente feito, ela não fazia nada. E que, existindo daquela forma, sem, no entanto, existir para além daquilo, ela, na verdade, não existia. Achou que a moça da portinhola tinha um tanto de razão ao desconhecer a petição e ao fazer pouco caso de seus documentos.

Contornando a casa do rei, deu uma espiada pela janela das oportunidades, uma espécie de “achados e perdidos” que ficava no lado oeste do castelo. Encontravam-se por lá um bolo de chocolate com vinte e sete velas acesas, uma garrafa de água com gás e um conjunto de canetas e papéis. Decidiu ficar com o bolo e o conjunto de canetas e papéis. Sentou-se no meio fio, acomodou bolo e papéis de um lado e mordeu a ponta de uma caneta observando a tarde que ia embora.

Bonita, alguém notou ao passar pela moça sentada na calçada. Não fosse essa papada, essas arrobas sobrando pela cintura, esse cabelo de gente assustada, as unhas desfeitas e uma ligeira escoliose, resultado da má postura – quase não se nota, salientava uma vizinha-, ela era bonita. E era bonita principalmente à luz das vinte e sete velas do bolo que eram refletidas nos olhos castanho-acobreados naquela tarde entardecida.

Dessa forma, bonita, ela contou com firmeza as velas do bolo e desejou encontrar o que quer que fosse que deveria estar buscando. Não foi exatamente um sopro que desfez o fogo das velas, talvez tenha sido aquilo que pode ser chamado de suspiro de esperança. A moça percebeu que não havia porque voltar ao escritório e que, se quisesse seguir para outro lugar, provavelmente saberia para onde, dali a alguns instantes. Enquanto esperava pelos instantes, adormeceu no chão frio e imundo do entorno da casa do rei, e sonhou.

Sonhou que andava por um reino desconhecido e que, por estar a conhecer algo novo, algo novo também a estava a reconhecer. Não podia evitar de tropeçar e cair várias vezes pela estrada esburacada, mas, todas as vezes que tropeçava e caía, descobria o que havia do outro lado do buraco e o outro lado do buraco a descobria.

Na manhã seguinte, com o barulho de trânsito intenso, a moça desconhecida comeu o que restara do bolo, ajuntou o maço de papéis e as canetas, desfez-se do envelope pardo, e fez-se enfim  ao mar,  à procura de si mesma.

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