A rebeldia das coisas

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Começa com a porta que range e a janela que quer continuar aberta. Tudo em volta parece sofrer de um desarranjo de vontade própria. Eu preferiria manter o controle sobre as coisas, sabe? Poder tomar o banho com a certeza da água quente, poder escorregar pelo piso da cozinha, poder respirar pelas frestas. Mas agora a vida é incerta, e se na metade do processo me faltar água, me faltar chão ou me faltar ar, não foi por falta de aviso prévio. A porta rangeu.

No dia que se segue, a cama geme. Eu reflito pesarosa a falta que me fará uma noite completa sem o ruído inanimado. Ah, esse motim das coisas. O ranger de portas é só o aviso e logo, você vê só, a máquina de lavar aprende a sambar, a área inunda, o sofá quebra e a panela de pressão explode.

E eu bem que tento, insone, escutar o que as coisas têm a dizer, mas elas não se justificam e, pior,  parecem angariar apoio aqui do meu lado. O joelho adianta-se e estala. Quem será o próximo a virar a casaca? É então que o relógio, meu mais analógico amigo, já desenganado (o ponteiro dos segundos vai e vem enlouquecido), me revela, tictac, a lógica do universo: o tempo se conta pela rebeldia das coisas. 

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