A ponte (incompleto)

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Há um tempo muito muito distante, havia uma pequena menina que, dos pés à cabeça,  mal media um braço. A menina tinha longos cabelos azuis e morava perto de um rio lamacento. Todas as manhãs, ia às margens do rio buscar um balde d’água, que colocava no quintal junto aos outros que seus irmãos levavam. Então, por todas as manhãs, o quintal se enchia de baldes cheios. E, em todos os entardeceres, o quintal era o cemitério dos baldes vazios.

A menina não era a menor da família, tinha mais dois para além dela, ainda mais pequenos. Mas ela era a menor dos que saíam cedo para ir buscar a água e se sentia orgulhosa por isso. Pelo caminho, sem muito mais a fazer ou pensar, ela apenas gostava. Gostava do peso equilibrado na cabeça, dos pés sujos da lama, de assustar os peixes. Mais do que tudo, ela gostava da ponte – não muito longe, tinha uma ponte  que ligava os dois lados do rio. E o rio não era tão grande, mas a ponte era.

Dali até o outro lado, quando a correnteza era delicada,  dava pra ir nadando – não ela, que era pequena, mas os outros-, e nem cansava. Então, a ponte era grande porque não era ponte de ligar um lado ao outro apenas. Era ponte de dividir o mundo entre aquilo antes e aquilo depois. E era assim, aquilo que estava para depois da ponte, seja o lado para o qual se apontava, era mais cheio de mistério e respeito do que aquilo de antes.

(…daí a menina morre)

Os cabelos azuis da menina morta eram uma poça d’água no leito lamacento do rio, emaranhados no pé da ponte, algo terrível para uma manhã de terça-feira, algo terrível para todas as manhãs seguintes, e tardes e noites. 

 

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