Aventuras de mais um sábado

San Giovanni Battista che nutre l’agnello (São João Batista chatiado)

A meta deste sábado era ir ver a exposição do Caravaggio (que acabou hoje em BH e agora está indo para São Paulo). Como em todos os sábados, tinha muitas coisas para fazer: a faxina de sempre, pintar a unha de vermelho, passar na casa da minha irmã que estava viajando pra ver se ela tinha deixado a janela da área aberta e, no final do dia, encontrar os amigos.

O plano: acordar às 8h00, fazer faxina rápida, sair de casa às 9h30, passar na casa da irmã, ir tentar manicure numa rede de salão de beleza estilo fast food, ir para o BH shopping de ônibus, almoçar por lá e pegar um taxi para a Casa Fiat de Cultura – a exposição abriria às 14h00, mas tinha escutado  rumores de filas quilométricas, então ia chegar lá às 13h00, pra garantir.

Às 8h44 sinto a gata bater a pata com força no meu rosto, um modo sutil e carinhoso de me acordar. Lá se foi o plano da faxina. Enrolo, tomo banho, saio sem celular ou relógio e vou pra casa da irmã (a janela está fechada). Desço a rua para chegar ao salão e consulto a disponibilidade de manicure, só dali a uma hora, a recepcionista me desanima.  “Que horas são agora”, “10h30”. É, desisto. Deus sabe que eu tentei, apesar de ter me conformado bem rapidamente em não fazê-las – acho que faz mais de ano que não chego perto de uma manicure, haja cutícula.

Por pouco, eu não me chamei Marieta. Se fosse o caso, esse blog se chamaria “tamarie”.

Como não tinha tomado café da manhã, decido tomar um suco na Marietta. Por ser sábado de aventura, escolho, ineditamente, o de  laranja, mel, alecrim e xarope de guaraná. Errado. Muito errado. O suco chega numa suspensão, metade água verde-musgo densa, metade uma espuma do mesmo verde modorrento salpicada de galhos triturados de alecrim. A parte mais líquida, que o canudinho apressou em trazer primeiro, é até tragável, com o gosto similar a algum remédio amargo em versão 250 mililitros. Já a segunda parte não desce de jeito nenhum e os goles ásperos da espuma com galhos ficam presos na glote. Fiquei engasgando  folhinhas de alecrim pelo resto do dia.

Queria almoçar no BH shopping por gostar muito de uma batata recheada que tem por lá. Lembro da primeira vez que pedi a batata e, assim que dei a primeira garfada fui reclamar que o recheio estava gelado, se não dava pra colocar num micro-ondas ou coisa assim. As atendentes rudemente me explicaram que era daquele jeito mesmo, que a batata era quente e o recheio (estrogonofe!) era frio. Levou um bom tempo pra eu querer repetir a experiência, mas, a partir da segunda vez, comecei a gostar do contraste entre frio/quente e aprendi a  misturar as temperaturas de forma equilibrada. Também peguei a manha da melhor configuração de batata: manteiga sem tempero, estrogonofe de carne ou de camarão e requeijão, sem batata palha. Desde então, sempre que vou ao BH, como a batata recheada.

Kebab daqui

Chegando na praça de alimentação, senti que o peso do suco ainda estava por mim. Aquele meio copo de remédio energético tinha diminuído muito minha fome e concluí que pedir batata talvez sobrecarregaria meu sistema digestivo. Com o espírito aventureiro, decidi experimentar o Gyros, que é uma espécie de subway árabe (turco? grego?, santa ignorância). Por lá, você pode comer o kebab (um sanduba em pão ‘de 16 ou 32 cm, com a carne preparada em um espeto, que acho que é o que é realmente o ‘kebab’), ou o “gyros” que é aquele wrap árabe. E escolhe o recheio. Eles te dão um guiazinho pra você escolher dois disso, três daquilo, um daquiloutro e colocam no seu ombro todo peso e responsabilidade de um prato bem sucedido.

Não sem a hesitação da falta de experiência, escolhi hommus, repolho, cebola, tomate, cordeiro, queijo, cogumelo e os molhos de mostarda e mel e de iogurte e menta. A moça conseguiu colocar tudo isso no pão de 16 cm, e me entregou num pratinho com guardanapos, como se aquela montanha fosse realmente um sanduiche. Arreguei e pedi garfo e faca, nunca conseguiria fazer aquele mundo de coisa caber na minha mordida.  E, no final das contas, acabei não dando conta de comer o pão e comi só o recheio. Fiquei imaginando que a opção de salada que eles oferecem deve ser muito grande, já que é mais cara que esse kebab que é o menor das opções – talvez seja uma pra experimentar da próxima.

Quanto ao sabor geral, previsivelmente, cometi erros clássicos de principiante em self-services. Quase nenhum dos ingredientes harmonizou com seus pares – acho que, apesar de te darem o limite de ‘3 recheios desse tipo’, ‘2 recheios desse tipo’, etc., o melhor é ir pelo mínimo possível. A mistureba dos quinze ingredientes definitivamente não ornou. O cordeiro com o molho de iogurte e menta foi a única mistura que considerei um sucesso (repetirei) e, nas lições aprendidas, nunca mais vou pedir queijo ou cebola (o sanduiche não é aquecido, então fica aquela fatia de cheddar meio morta e os cubinhos de cebola crus ao fundo).

Imagem da fila, daqui.

Almoçada, hora de seguir para o espaço Fiat. Quando cheguei, ainda estava fechado e um homem pedia informação ao segurança, eram 12h40 e ele informou que só abriria às 14h00. O homem resmungou um pouco, enquanto eu já achava uma sombra e sentava pra esperar pela fila – então, o homem da informação ficou sendo o primeiro e eu a segunda. Quando mais um grupinho chegou, enganados pelo horário, o segurança nos chamou e apontou que a fila deveria ser formada pelo outro lado, o lado do sol rachando. Lá fui eu, o moço e o grupo, assar por uma hora em fogo alto.

Os recém-chegados falaram um pouco sobre as obras (aprendi que o tchan do Caravaggio tinha a ver com a iluminação e que a cor preponderante era o vermelho), também reclamaram sobre como tinha espaço para fila na sombra, dentro da galeria, sobre como ‘no Brasil’ fila era sinal de qualidade e coisas do gênero. Acompanhando de orelha as reclamações sobre falta de filtro solar, sede e ‘a gente não é acostumado com sol’ (em que país, afinal, aquele pessoal aparentemente tão brasileiro vivia), até me senti um pouco culpada com minha egoista garrafinha de água, mas passou logo. Me auto-justifiquei com o fato de que eu ainda estava me recuperando de uma gripe, e que oferecer a garrafinha para outras pessoas seria contribuir com uma epidemia.

Um pouco mais próximo do horário de abertura, o grupinho animado levantou aquela polêmica de sempre sobre a validade da prioridade (mais ou menos umas 20 pessoas entre idosos, mulheres grávidas, com crianças de colo e deficientes físicos se amontoava na sombra do lado oposto à fila), todos concordavam sobre a necessidade para idosos e deficientes, mas discordavam sobre mulheres grávidas e com crianças de colo – para quê levar o bebê pra exposição.  Entrei na discussão mentalmente, defendendo a prioridade de todo mundo, afinal, tem gente que não tem com quem deixar uma criança para ir a um programa desses.

Parte dos seguidores (azul, a do Caravaggio era vermelha), vazia, como a vi.

Porteira liberada. A primeira leva seria de 140 pessoas e, naquela hora, a fila claramente já passava e muito dessa quantidade. Enquanto o pessoal da prioridade parou pra ler as informações sobre a exposição, logo na entrada, me apressei para ver os quadros antes do auê. Ao passar pela última porta que me separava das obras, o segurança me lembrou que era proibido entrar com chiclete. Tive que voltar para uma lixeira e, nesse meio tempo, uma boa quantidade de gente já começou a encher a parte destinada às obras de Caravaggio.  Então tive que ir pelo plano B  da estratégia de guerrilha para eventos culturais superlotados, que era começar a ver a exposição de trás pra frente (das obras dos seguidores), dei muita sorte porque consegui ver essa metade (menos prestigiada) completamente vazia – acho que só assim consigo gostar de exposições, com silêncio e sem pessoas.

Lá estavam as obras, semelhantes a muitas outras que já vi em outras vezes em museus ou livros. Tentei reparar no vermelho e na iluminação, levantados na fila, e, realmente, eles estavam lá. Mas o que me chamou mais atenção foram as expressões faciais (em especial a de um gato, num dos quadros dos seguidores), bem impactantes. Durante a visita, escutei algumas mulheres mais velhas soltarem suspiros de admiração, mas a minha experiência estética foi bem mais contida. No final das contas, acho que tenho um paladar infantil para arte, vamos logo à sobremesa.

Bloquinho, caneta, corrente, boné, bandana, caneca, canivete, capa pra ipad… *exagero

Gostei do São João Batista (quadro que foi colocado na exposição na última semana), de comparar os São Franciscos do Caravaggio e de um seguidor e, principalmente, do escudo com a Medusa – que estampa a maior parte do material de divulgação e é a motivação de todos os souvenirs (quase comprei uma correntinha de medusa, mas o vendedor não estava lá – e se estivesse, provavelmente me assustaria com o preço). Também me diverti com a parte da exposição que exibia a comparação entre as obras do Caravaggio e as imitações, estabelecendo os parâmetros para diferenciar uma da outra.

De problemas técnicos, tirando a multidão ensandecida, a iluminação poderia ser melhor. Costumo ter muitos problemas com lugares sombrios, com focos de luz individuais por quadro. Apesar de criar um clima mais artsy, e, sei lá, talvez ser feito para não danificar as obras, o foco individual de luz causa um reflexo muito grande. Nenhum dos quadros podia ser visto de frente sem que se perdesse a visibilidade de grande parte pelo reflexo da luz. A solução foi olhar de lado e brincar de fugir do reflexo, o que não é muito fácil com mais dez pessoas tentando ver o mesmo quadro.  Outro porém foi o neném de uma moça da prioridade que, depois de cinco minutos, começou a chorar alto, e assim ficou durante outros vinte – eu assumi minha hipocrisia frente ao meu próprio argumento mental anterior, e me perguntava se não era melhor deixar a criança em casa ou porque a mãe não tentava dar uma voltinha lá fora, para acalmá-la. Ao sair da exposição, descobri o porquê. A fila tinha o controle de entrada bem na porta da galeria e, no total, devia ter mais de 500 metros, já que saía  do prédio e ia no quarteirão a se perder de vista. Ao sair, você teoricamente não poderia retornar sem pegar a fila novamente – e, se eu tivesse um bebê chorão, também preferiria irritar os 140 dentro da exposição, a estressar os milhares esperando na fila.

Depois de Caravaggio e da constatação da fila, fui conferir a exposição do De Chirico, muito mais atraente ao meu paladar infantil e vaziíssima. Depois de alguns poucos minutos, ei que o neném chorão entra nessa outra galeria – agora com o pai. Mas, por continuar a chorar mesmo no espaço amplo, foi levado para fora rapidamente, ufa.  Nessa exposição, os quadrinhos coloridos são bem mais numerosos  e as representações humanas são irônicas, alegres ou críticas. Além disso, a luminosidade era bem distribuída e não havia quase nenhum segurança ou pessoa para trombar. Dei umas voltinhas feliz e saí da galeria. Sensação de dever cumprido. A exposição do De Chirico ainda continua nesta semana, acho que sem as filas, agora que o Caravaggio se foi.

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