Sentar-se à mesa, ter um nome

Todos os meus vídeos preferidos no TED são de mulheres fortes e batalhadoras, que falam sobre os mais diversos assuntos, de negócios na África a macacos aquáticos. Um, em especial, volta e meia revejo: o da Sheryl Sandberg (aí de cima). Ela, que é a segunda na linha da realeza do Facebook (uma empresa que eu nem curto muito, apesar dos méritos óbvios), tem um jeito sutil e lindamente bitch de se apresentar. 

O conteúdo da palestra gira em torno da discussão sobre porque há poucas mulheres em posição de liderança nas empresas (em todos os setores). E ela dá três sugestões para aquelas que querem chegar a postos de destaque. A primeira, e mais discutida delas, é o “sit at the table”, em que são levantadas questões como a auto-valorização das mulheres. Ela fala que, geralmente, (nós)  mulheres nos consideramos inferiores (não necessariamente aos homens, mas em geral) e não acreditamos no nosso próprio taco. Antes de ver esse vídeo, eu achava que isso era uma coisa pessoal. Que, por conta de uma autoestima baixa, estava fadada a não valorizar minhas habilidades da forma como outras pessoas as valorizariam se as tivessem.

Já participei de análise e seleção de candidatos para vagas e nunca entendi como eles se sentiam tão confiantes com certas informações no currículo. Havia muita gente que colocava “conhecimentos avançados” em certo campo, sendo que eu colocava os meus como “intermediários” e sabia tanto quanto ou (muito) mais do que essas pessoas. Nunca tinha parado para pensar que isso estivesse ligado ao machismo no mundo. E, antes que alguém fale que não tem nada a ver, que mulheres e homens podem ter baixa autoestima, e o blábláblá não existe racismo/machismo/homofobia de sempre, nessa palestra, são levantados dados de pesquisas que apontam que as mulheres realmente não se valorizam tanto quanto os homens (ainda não procurei as fontes para analisar). Nas pesquisas, são levadas em conta coisas objetivas, por exemplo: pedindo para homens e mulheres estimarem suas notas num teste, as mulheres erram por menos, os homens erram por mais.

Eu trabalho num meio predominantemente masculino (desenvolvimento de software para clientes engenheiros). Nunca fui a reuniões em que tivessem lugares “fora da mesa”, mas já senti claramente o preconceito ao levantar uma questão e ser sumariamente ignorada (ou por ser mulher, ou por ser jovem, ou por estar de tênis, ou pelo cabelo atrapalhado – ok, também não faço muito esforço estético para ser levada a sério nesse meio). Mas, por não desistir de participar, já houve muitas reuniões em que eu tivesse a chance de guiar os assuntos discutidos, em meio a engenheiros “seniores” e recebesse elogios ao final do projeto – ficando toda feliz.

Recentemente, reparei em algo que começou a me incomodar tanto na minha empresa quanto com clientes. Gostaria que alguém que trabalhe num meio masculino confirmasse se isso é uma prática geral: é muito mais difícil para os homens se lembrarem do nome das profissionais mulheres com quem têm contato do que dos profissionais homens. Os homens, quase sempre, têm nome e sobrenome, as mulheres não.  Se elas forem feias, serão referidas como “aquela de óculos”, “a baixinha” ou “a gordinha”, se elas forem bonitas, serão referidas como “aquela morena”, “a loira, sô” seguidos de gestos sobre seus melhores atributos e risadinhas, antes que a frase seja completada com um “falou que a gente precisa entregar tal documento para completar a ordem de compra”. E, mesmo que na maioria das vezes as mulheres tenham colocações inferiores nesse meio, isso acontece também comparando homens e mulheres de mesmo cargo.

Só há um tipo que foge à regra da falta de nome. A bitch. A bitch, além de nome, tem ainda uma alcunha, como monarcas, por exemplo: Vanessa, a implicante. Ao que a outra parte responde: “aquela mulher é chata demais”. Mas, para Vanessa, a implicante, os documentos da ordem de compra sempre saem antes do que para “a gordinha” ou para “aquela morena”.

Eu me considero uma feminista bitch nas pequenas ações. Acho que não estou fazendo mais do que o meu dever como ser pensante quando levanto o tom de voz para dar minhas broncas no escritório, interromper alguma piada sexista ou comentários homofóbicos. Mas, no final das contas, meu principal objetivo não é que as pessoas com quem eu trabalho se tornem seres humanos melhores, mas sim que, pelo menos, saibam separar o espaço profissional, que eu e outras mulheres dividem e querem continuar dividindo (sentando-se à mesa, sem serem diminuídas), do pessoal – que temos a opção de não querer fazer parte. Espero que eu consiga fazer meu nome ser lembrado, tremo em pensar que eu possa ser “a gorda descabelada” em algum lugar.

Anúncios
Sentar-se à mesa, ter um nome

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s