Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (1)

– Nova turnê? Não sabia nem que ele tinha lançado disco no…

– Nem posso acreditar! – me interrompeu, aguda, uma amiga da Analu, contraindo o rosto inteiro em um sorriso e apertando os punhos contra o peito. Ela estava realmente empolgada. – Consegui comprar pela internet! – deu gritinhos de excitação – Os lugares não são ótimos, mas é o Chico, né?!

“É o Chico, né” aquele excesso de intimidade com um artista tão credenciado reverberou na minha mente.  Era mesmo o Chico. Ele, que canta todas aquelas músicas bonitas, que mexe com o coração de umas quatro gerações de mulheres mal e bem amadas. Mas que, ultimamente, estava mais dado a escrever bons livros do que boas músicas.

– Poxa, acho que vou tentar ir também… – falei por falar.

– Os ingressos já estão esgotados. – sentenciou a amiga, em um tom que me pareceu arrogante. Ainda mais arrogante do que a completa indiferença que os outros dois amigos da Analu tinham direcionado a mim durante todo o tempo. Uma arrogância como se eu não tivesse o direito de querer ir ao show, já que não tinha acompanhado as notícias sobre as filas quilométricas para compra de ingresso ou o martírio que foi enfrentar o sistema de compras online.

– Ah, melhor assim, eu economizo… – disse, já me afastando, enquanto a escutava  enumerar para Analu as músicas que queria que o Chico cantasse.

Olhei em volta, provavelmente existiria uma rodinha mais amistosa na festa. Pessoas sorridentes com quem eu pudesse conversar sobre como fui relapsa com as notícias da nova turnê do Chico Buarque, sem me sentir culpada. Mas o cenário não era animador. As mesas estavam ocupadas por sonoras e herméticas rodas de amigos de infância, a fila do único banheiro disponível estava longa, mas nenhuma das pessoas por lá conversavam entre si.  A Analu continuava escutando a menina do Chico, e os outros dois amigos, que tinham ignorado minha presença enquanto eu estava lá, pareciam muito interessados na discussão da setlist.

Em uma última tentativa desesperada de me comunicar com outro ser humano, fui ao bar improvisado em um canto mais sombrio do jardim em que acontecia a festa. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a bartender, rudemente, me esticou um copo plástico com um líquido vermelho dentro que, muito provavelmente, deveria ser destinado a outra pessoa. Provei a bebida com cautela. Não consegui definir se era uma espécie de groselha com vodka ou um suco artificial não-alcoólico de sabor indefinido. De qualquer forma, não estava bom e a bartender obviamente era mais uma que me desprezava.

Logo troquei a necessidade de fazer contatos com desconhecidos pela vontade de me desfazer do copo sem muito estardalhaço – não queria ser pega matando plantinhas inocentes ao despejar aquele líquido potencialmente cancerígeno numa parte do gramado.Muito menos queria ser flagrada  pela dona original da bebida – as pessoas por ali pareciam cada vez mais ameaçadoras. E, para minha surpresa, apesar da decoração modernete, dos poderosos canhões de luz, dos trezentos designs diferentes de copos plásticos, não existia uma única lata de lixo decente naquela festa. As mesas eram zonas de perigo social e a fila do banheiro tinha crescido ainda mais, mas permanecia silenciosa. Paranóica, decidi ir embora, nunca mais a Analu me arrastaria para essas enrascadas. Tentei olhar o número do taxi no celular, mas minha cabeça começou a girar.

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