Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (2)

LER parte (1)

– Rita! Rita! – a voz da Analu parecia distante, eu reunia forças para abrir os olhos. Um branco intenso me cegou, mas, vagarosamente,  formas começaram a fazer sentido. Eu estava sentada e alguém segurava minha cabeça, era Analu. Um dos amigos dela que me ignorava estava sentado numa bancada, olhando entediado em minha direção. Era como se não olhasse para mim, como se eu fosse invisível, e ele estivesse apenas fixando o olhar num ponto qualquer.

– Não sabe beber, isso que dá. – a voz, desta vez, não era a da Analu, mas parecia familiarmente irritante. Uma onda de adrenalina me acordou de vez.  Eu poderia levantar naquele momento e rasgar o pescoço da intrometida do Chico. Mas, mesmo um pouco grogue, ainda tinha algum autocontrole.

– Eu não bebi nada. – consegui dizer engasgada.

– É, mas acho melhor ir para casa. – disse Analu, misturando incredulidade e reprovação. Outra que não estava se esforçando para me fazer feliz naquele dia.

Eu estava indo para casa, pensei. Aliás, eu já estaria em casa, não fosse o mal súbito que tinha sentido e que me fez desmaiar – meu Deus, começava a lembrar da festa, todos devem ter me visto cair feito um galho seco. Será que tinha sido a bebida vermelha? Uma nova onda de ansiedade percorreu o meu corpo, olhei para baixo e minha roupa inteira, a calça clara, a blusa azul com detalhes brilhantes que tinha comprado na véspera, estava manchada de vermelho. Era como se eu tivesse sido recolhida de um campo de batalha, completamente ensanguentada.

O amigo, sem dizer uma palavra – novidade! – saiu do cômodo, que agora eu podia reconhecer como sendo a cozinha da casa em que a festa acontecia. Para minha irritação, a moça do Chico continuava me encarando como se eu fosse a filha endemoniada da vizinha, em um restaurante sofisticado, atrapalhando o jantar de todo mundo. Ah, se ao menos eu tivesse uma arma.

Analu me ajudou a levantar e, sem deixar de pressionar meu braço – estava praticamente me machucando -, conduziu-me pelo corredor que levava à saída. Nele, alguns convidados da festa me presenteavam com a (agora) conveniente indiferença de antes. Sentia alguma dificuldade para respirar, mas podia reparar melhor na expressão da Analu, que estava incrivelmente parecida com a da menina do Chico. Indiferença, repreensão, incômodo. E aquilo, vindo dela, poderia me fazer chorar, não fosse a raiva que eu estava sentindo. Raiva dela, da menina do Chico, dos amigos, da festa, da roupa manchada, da vida.

Um taxi já me esperava na porta da casa, entrei e me arrastei até a outra ponta do banco traseiro, esperando que Analu me acompanhasse. Ela, do lado de fora, se dirigiu ao taxista e deu as indicações do caminho para a minha casa, antes de, sonoramente, bater a porta. O que era aquilo? Ela não iria se preocupar em me acompanhar? Não iria nem perguntar como eu estava e o que tinha acontecido? Agora sim eu sentia que iria desabar, engoli as lágrimas enquanto o carro dava a partida.

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