Pornô para românticas – Cinquenta tons de cinza (Fifty Shades of Grey)

Vale a pena ler Cinquenta tons de cinza. 

Resumão: por um acaso do destino, Ana Steele precisa substituir sua melhor amiga, Kate, e entrevistar Mr. Grey, um magnata intimidador, para o jornal da faculdade. Mr. Grey é a idealização romântica do homem impossível. Ele é lindo, bilionário, poderoso e se apaixona monogâmica e perdidamente por uma mulher, a Ana, que, aparentemente, não tem nada de especial. Aliás, todos os homens que a cercam  são perdidamente apaixonados por ela – que é a única que não percebe e fica cozinhando todo mundo na Friend Zone. Mr. Grey é o primeiro que ganha o coração de Ana com seu jeitinho homem alfa de ser. Amor eterno à primeira vista. Como um romance pronto assim não daria pra encher o livro, existe um pequeno problema:Ela é uma virgem de 21 anos sem acesso à pornografia online e Grey é um dominador de carteirinha, membro da comunidade BDSM,  todo chicotes, cordinhas e masmorra domiciliar.

O livro é a primeira publicação da autora britânica Erika Leonard James (E. L. James), e foi escrito originalmente na forma de uma fanfic inspirada na saga Crepúsculo – muita gente apaixonada por uma moça sem sal que escolhe o mais perigoso de todos, alguém lembra de uma personagem assim? Publicada por partes, como quase toda fanfic, a obra apresenta características fortes do sub-gênero que comprometem a qualidade do texto quando se trata de uma “ficfic” de trezentas e tantas páginas, para serem lidas de uma tacada só.

Bad… bad… author.

Um dos pecadinhos literários cometidos pela autora é a  objetividade com que a ambientação musical é descrita em muitos trechos. As músicas são citadas com referências de nome e artista e não conseguem se misturar com a trama – isso funciona muito bem na fanfic, em que os leitores correm no youtube para escutar. A repetição de metáforas é outra característica que desvaloriza o texto: são duas para o orgasmo, que vão se alternando nas milhares de vezes que os personagens, nas palavras de Mr. Grey, “fodem”. Também, por 24 vezes (contador de palavras do kindle), o Mr. Grey “cocks his head”, o que se torna o único indício de linguagem corporal do personagem.

Apesar de orgasmos e órgãos sexuais serem repetidamente descritos de uma mesma forma, as cenas de sexo são bem construídas – nada muito gráfico, a depender da formação humano-cristã do leitor.  Mesmo com a limitada variação das punições (amarras e umas palmadas), as cenas conseguem ser criativas e diferentes umas das outras, e mostram um progresso das barreiras morais (sexuais?) da personagem principal. Mas, ainda que visivelmente cedendo nos seus limites,  Ana é uma contradição ambulante quanto ao desejo de continuar ou não com Mr. Grey. Sua personalidade não é suficientemente bem construída de forma que seja justificável a hesitação constante com relação aos próprios sentimentos. E, mesmo que ambos os personagens repitam que não sabem viver sem o outro, Ana questiona os sentimentos do Mr. Grey a cada vinte páginas: “Ele ainda não disse ‘eu te amo’, com essas exatas palavras, então ainda não sei se ele me ama”… zzzzz.

Cena do filme Secretary, em que a Maggie Gylenhaal é uma submissa mais coerente (e decidida).

Quanto ao Mr. Grey, sua idade, 27 anos, é completamente inverossímil. Como ela só é citada uma ou duas vezes, é possível ignorar esse dado e imaginar alguém com 30 e tantos ou 40 e poucos anos, mais crível. Outra parte problemática da trama é a caracterização do personagem como um “dominador” em tempo integral. Apesar de todo o poder que seu status social inspira, o que a narrativa deixa transparecer é um homem que gosta de brinquedinhos e mais intensidade na hora do vamos ver. É inconcebível que alguém que baseie todo um estilo de vida em regras de dominação abra tanta exceção para uma mulher que deveria ser sua submissa – mas, ponderando, a narração é em primeira pessoa pela Ana, então, essa inconsistência pode ser culpa dela.

Um outro ponto de instabilidade na narrativa é o improvável super-aproveitamento do tempo. Os quinze dias que a melhor amiga de Ana passa longe duram praticamente o livro todo – até dá pra esquecer que a Kate existe. Nesse tempo, Ana começa a tomar a pílula, menstrua,  para de menstruar, ela e Grey têm relações sem camisinha porque ela já está na pílula, ela esquece de tomar a pílula, consulta novamente a médica que receitou a pílula e troca o método contraceptivo, enquanto faz um drama com a hipótese que poderia estar grávida (só que não).  Cada dia vale por dois, e os personagens têm tempo de fazer sexo e drama na mesma medida generosa, trabalham e, à noite, ainda conseguem dormir 8 horas (e vez ou outra eles dão uma sonequinha vespertina). A única coisa com  que Ana não gasta tempo é comida, o que se torna um problema muito além do razoável. Os questionamentos sobre o controle do Mr. Grey  da parte “alimentação” são ridículos. Quem questiona a necessidade de três refeições diárias? Você não tem pena das crianças na África, Ana Steele?!

Lady Heather e Grisson, Domme e submisso bem alimentados de CSI.

Quanto à polêmica em torno da mulher submissa, o livro não é machista. O sentido de dominação estabelecido na trama não é a do homem sobre a mulher (papéis socialmente construídos), mas de um dominador em relação a uma submissa. Homens e mulheres, independente da orientação sexual, podem se identificar em qualquer um dos papéis. O personagem de Mr. Grey chega a introduzir o conceito de que na relação BDSM quem tem  o poder é a submissa, mas também não vai muito além da citação – e, que surpresa, a bobinha Ana, que questiona tantas coisas, não o questiona sobre o assunto. Qualquer relação de dominação estabelecida por ele com suas submissas é completamente consensual –  nisso, talvez o fato de Ana ser totalmente inexperiente atrapalhe bastante, já que o seu consentimento não tem muito parâmetro. Mas ela é maior de idade e vacinada, não é mesmo?

Repetindo, apesar desses muitos pesares, vale a pena ler Fifty shades of Grey, mas só se for exatamente pelo que o livro é: um relato pornográfico de um romance idealizado.

Fifty Shades of Grey

Bem escrito?  *****
História boa? *****
Fácil de ler?   *****

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Extra:

Se Fifty Shades of Grey consegue ser divertido, o segundo livro da série, Fifty Shades Darker, é intragável. A autora começa a colocar suspenses e tramas paralelas infundadas, menos verossímeis que a relação do casal principal.  As cenas de sexo, que no primeiro livro são ágeis e criativas, no segundo, são longas e repetitivas – a vontade que fica é de pular as páginas, mas daí vem a trama sem sentido, e dá vontade de pular mais páginas, e, quando você vê, já está no último capítulo e não leu nada, mas, mesmo assim, já é o bastante.

Para piorar, a demonização do BDSM começa a ficar mais clara, já que as práticas são relacionadas a desvios de personalidade e caráter.  Afinal, o Mr. Grey só está nessa porque teve uma infância traumática e foi abusado na adolescência, uma das suas ex-submissas é uma doida que quer matar todo mundo e a  sua iniciadora é uma pedófila corruptora de menores. Acaba com o ânimo da leitura.

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