Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (3)

(ler desde o começo)

– Briga de namorado? – o taxista me acordou do transe de lágrimas. Eu não estava afim da conversa fiada, então esperei que minha cara de poucos amigos fizesse as honras da casa. – Briga de namorado? – ele repetiu, elevando o tom da voz e separando bem as sílabas. É… Não ia dar pra escapar.

– Não, mais pra briga de amiga mesmo.

– Ah… – pelo retrovisor, pude ver ele piscar o olho esquerdo para mim, certamente achou que eu fosse lésbica. Não é o caso, mas, nessa altura da madrugada, tanto faz o que o taxista acha.

Voltamos ao silêncio. Que durou pouco.

– Você sabe que eu peguei um passageiro hoje à tarde que tinha brigado feio com a namorada. – eu estava disposta a escutar a história, contanto que ele não me fizesse mais nenhuma pergunta –  Novinho o rapaz… E como era o nome da namorada mesmo? – ele olhou para mim, e eu suspendi as sobrancelhas, esperando que ele percebesse que eu não conhecia nem o rapaz e muito menos a namorada e que era mais sensato que ele olhasse para a rua – Era desses que têm apelido… Bia?… Mari…? Carol? Carol! Isso, a Carol. E ele ficou a viagem inteira discutindo no telefone com a Carol. A tal namorada parece que é daquele tipo mais recatado, que gosta de ficar enfurnada dentro de casa… E eles tinham combinado de ir num show… De quem mesmo?

– Chico Buarque – completei, irônica.

– Esse mesmo! – o taxista estalou os dedos gordos, deixando o volante de lado – Sei que o passageiro estava chateado porque tinha deixado pra ela comprar os ingressos e ela disse que esqueceu. Daí o que acontece? Os ingressos acabaram!  Pô! Mas aí até eu! Não é mesmo? O Chico Buarque… Não sabia que ele ia fazer show por aqui… Se soubesse, tava lá na fila.

– É, também fiquei sabendo só hoje… – o Chico Buarque não iria me deixar tão cedo.

– Acho que eles fizeram as pazes no final. Não sei se dura muito não, viu? A tal Carol parece bem xoxinha – eu sorri pela escolha da palavra. – É o que eu falo pros meus meninos, mulher pra casar tem que ser viva, ter um brilho nos olhos e estar pronta pro que der e vier. Você não concorda? – ele realmente estava achando que eu era lésbica.

Antes que eu pudesse concordar, o assunto já tinha mudado e, até chegar na minha casa, foram mais três, ininterruptos. Arredondei o valor da corrida pra cima e, não sei se por isso, ele abriu um largo sorriso embaixo do volumoso bigode e disse, premonitório: – Não se preocupa não, minha filha, que o tempo das vacas magras pra você já vai acabar.

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