Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (4)

(Ler desde o começo)

– Boa noite, Rita! Quer que eu acenda a luz? – o porteiro da noite me recebeu solícito, como sempre.

– Boa noite, Lúcio… Não, obrigada, está tranquilo.  – no escuro, subo os degraus para chegar ao elevador. Moro no 19º andar de um total de 20 num prédio antigo, no centro da cidade.

Sempre que conto que moro sozinha na mesma cidade que meus pais, as pessoas me perguntam se era muito ruim morar com eles. Não era. Quando me formei e arranjei um emprego num laboratório que pagava bem, o caminho lógico me pareceu sair de casa – meus pais acabaram entendendo. Também, nunca dei motivo para que eles se preocupassem, e nada de muito novo aconteceu na minha vida desde a mudança. Tirando as contas, que insistem em chegar todo mês, a rotina de vai e vem do trabalho e a pouca atividade social continuam as mesmas (o elevador faz um barulho indecente quando chega ao meu andar).

A Analu é (ou era?) a minha última companheira de incursões sociais. Os meus outros amigos estão todos casados ou prestes a se casar, e nossos encontros se resumem a cafés e almoços sem pessoas novas para serem apresentadas. Com ela é diferente. Nos conhecemos no primeiro ano da faculdade, numa calourada unificada da Farmácia, que eu cursava, e da Engenharia Elétrica, que ela cursava. Eu estava encostada em uma parede, cautelosamente movendo meus ombros no ritmo do pop dançando que tocava, quando uma menina baixinha e loira caiu na minha cabeça. Era a Analu, e, instantes antes, ela dançava perigosamente na laje bem acima de mim, sem que eu percebesse. Nessa distração, quase quebrei meu nariz, mas ganhei uma amiga.

Ela, completamente tonta, chorou pedindo desculpas, enquanto meu nariz sangrava intermitentemente – se a Analu não fosse tão leve, talvez o estrago tivesse sido mais grave. Fomos pra enfermaria, trocamos telefones e e-mails e, no dia seguinte, ela já estava me contando sobre a desilusão amorosa que tinha sofrido na calourada. Combinamos de ir a outra festa, para que terminasse de afogar as mágoas e, seis anos depois, ainda somos companheiras de badalações. Nesse tempo, a Analu mudou bastante. Eu, nem tanto. Ela ficou mais séria, formou, começou o mestrado, arrumou um namorado, depois arrumou outro, e agora está solteira novamente. Eu ainda me sinto a mesma caloura estabanada, encostada na parede, embaixo de uma laje prestes a desabar.

Depois de passar os últimos dois meses solteira, como ela diz, “por opção”, a Analu tinha resolvido caçar novamente – nunca entendi a facilidade que ela tem em arrumar namorados. E era por conta disso que eu tinha ido à festa. Ela encontraria um pretendente, um dos rapazes mudos, e eu, supostamente, deveria me esforçar para interagir com o amigo dele, o outro rapaz mudo. “Você vai adorar o João, Rita! Ele é um amor e ainda por cima muito bonito, pra você variar um pouco!”.

O João era obviamente bonito. Alto, corpo definido, olhos castanhos claros, cabelo liso louro escuro, com uma franja jogada para trás sem premeditação. Mas era muito ariano e barbeado para o meu gosto sujinho. Ele estava usando jeans e camiseta branca, que, por mais que acenda a lembrança de James Dean nesse inconsciente coletivo, não revelava nenhuma personalidade. “Eu acho homem de jeans e camiseta branca enjoativo”  foi a primeira coisa que disse pra Analu, assim que ela me apontou o João ao longe. “Para você variar um pouco”, ela repetiu, em tom de desaprovação.

Eu sabia que aquilo era uma gozação velada pela minha última conquista amorosa. Há pouco menos de um ano, cometi um erro memorável com um padrinho do casamento de um amigo de infância.  Apelidado pela minha turma como o homem mais feio da festa, ele deu em cima de mim descaradamente. O meu superego bêbado de champanhe não achou ele tão feio. Bem, pelo menos não achou que fosse “o” mais feio da festa. Mas ele realmente não era bonito. Em minha defesa (ou não…), a aparência era o menor dos problemas dele.

Se o feio fosse uma pessoa agradável, poderia levantar meu lado não-superficial e soltar um “ele é tão legal que não consegui achar feio” – afinal, tenho bem desenvolvida a capacidade de transformar amabilidade em beleza. Mas, além de feio, ele conseguia ser pedante, egocêntrico e, consequentemente, ruim de cama. Em seu favor estava somente a minha crise de carência afetivo-sexual catalisada pelo espírito matrimonial da festa. Só isso justificava por que eu tinha ido parar numa cama de motel com o feio desprezível. Foi um gesto desesperado, e foram os três minutos e meio mais longos da minha vida. Depois de praticamente fugir do quarto, não sem antes escutar os autoelogios que o feio fazia à sua ligeira performance, ignorei todas as tentativas de novo contato que ele chegou a fazer.

Desde o incidente, a Analu tenta, sem sucesso, me arranjar para conhecidos dela.  E eu fico me perguntando por que as pessoas ainda fazem isso, digo, por que as pessoas ainda se relacionam. É tanto esforço pra algo tão efêmero e potencialmente frustrante (Ah. Sobrevivência da espécie. Entendo…). Lembrei que ainda estava com raiva da Analu e não queria dormir com aquilo engasgado, precisava ligar para ela. Procurei o celular na bolsa, e percebi, com algum pânico, que ele não estava lá. Será que tinha caído no taxi? Não era possível. Comecei a refazer mentalmente os meus passos desde a última vez que o tinha visto… Merda. Estava com ele na mão quando desmaiei, deve ter ficado no jardim da festa.

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