Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (5)

(ler desde o começo)

Telefone fixo é o último item na minha lista de prioridades nessa vida de morar sozinha. Nunca tinha feito nenhuma falta até então. Agora, mais do que desabafar com a Analu, precisava recuperar meu celular. Liguei o notebook e, torcendo para que ela olhasse o e-mail a tempo, mandei:

Analu,

Queria ligar pra você, mas perdi meu celular na festa, você achou? Estou chateada. Precisamos conversar!

 Rita

A resposta veio quase imediata. Bendito seja o 3G.

Rita,

Quem está chateada sou EU. Conversaremos. Seu celular vai ficar com o João, depois vocês combinam de se encontrar ;).

Analu

Fiquei perplexa. Como assim, ELA estava chateada? Como assim o celular ia ficar com o João? Vamos falar sobre limites, senhorita Analu? Contei até vinte. De nada iria adiantar escrever um e-mail raivoso. Ela tinha a irritante capacidade de desfazer todos os meus argumentos escritos – ao vivo, não era mais fácil vencê-la, mas, pelo menos, era possível. Respondi da forma mais expressiva que consegui digitar:

Amanhã. Aqui em casa. Depois da sua aula.

Na resposta rápida, ela conseguiu se complicar ainda mais:

Ok. Btw, já passei o seu e-mail pro João, ele vai entrar em contato ;).

Depois dessa, era melhor que eu tentasse dormir. Antes, precisava desmontar a fantasia da festa. Sempre me sinto fantasiada quando me arrumo um pouco mais, como se quem estivesse com essa roupa não fosse eu, e sim uma personagem que deveria ser leve, sorridente, dançante. E que péssima atriz eu era. Confrontei-me no grande espelho do banheiro. Meu rosto estava inchado e vermelho, a roupa parecia ainda mais suja e a maquiagem estava completamente borrada. O cabelo, pelo menos o cabelo, ainda estava razoável, os cachinhos negros brilhavam e caiam sem muita rebeldia sobre meus ombros. Não era tão difícil me achar bonita, refleti, reparando nos meus grandes olhos verdes separados pelo nariz com personalidade, que não é muito grande, só o bastante para não passar despercebido. Minha boca é fina, mas gosto dela assim. E estou numa fase boa com meu corpo, quase no meu peso ideal, não teria vergonha de ficar pelada com outra pessoa… No escuro, suspirei. Era óbvio que precisava ganhar algum tônus muscular, acho que poderia colocar um pouco de silicone… Mas o que pega em mim é esse meu desarranjo, nenhuma roupa nunca fica legal, eu não sei andar de salto (lembro que ainda estou calçada e chuto as sandálias para o monte de sapatos que se acumula num canto do quarto). E o apartamento se parece tanto comigo… Nada fica no lugar, o sofá é feio,  o móvel da televisão está torto, estão faltando dois azulejos da cozinha… Antes que eu pudesse sentir mais pena de mim mesma, coloquei o meu pijama de frio, com estampa de anjinhos, e deitei encolhida no meio da cama de casal. Que patética eu sou, uma cama tão grande só fazia com que me sentisse mais sozinha. Finalmente consegui chorar os últimos acontecimentos. E dormi soluçando.

Acordei afobada, pensando que estava atrasada. Não tinha o celular para me despertar, mas eram exatamente 7h15, o horário em que costumo levantar. Era sexta-feira e meu corpo inteiro fazia questão de lembrar porque eu não saía mais no meio da semana. Vinte e cinco anos não é mais idade pra essas farras pensei, irônica. Além de todo o resto, estava ficando velha precocemente. Resmunguei com despeito que a maior parte do pessoal da festa ainda estivesse na faculdade e, se quisessem, podiam matar as aulas de sexta de manhã. A Analu nem aula de manhã tinha, só uma à tarde que terminava às seis e meia – devia chegar aqui em casa umas sete. Tinha esperança de que a história do celular ter ficado com o tal João fosse uma pegadinha, mas, abrindo meu e-mail vi que não.

Oi Rita,

Aqui é o João da festa de ontem, não sei se você se lembra de mim (sou amigo da Analu). Estou com o seu celular, podemos nos encontrar pra eu te entregar? Quando/onde é melhor pra você?

Abs

João

Suspirei. Não iria responder até tirar a história a limpo com a Analu. Tinha que tomar banho, me arrumar e ir pro laboratório.

O dia passou arrastado, calibrar os equipamentos e medir um ou outro composto químico aqui e ali costumava ser bastante tedioso, mas, hoje, estava particularmente insuportável. A recepcionista tinha reparado nos meus olhos inchados e perguntado se estava tudo bem. Estava, respondi. Mas tudo o que eu queria era gritar com a Analu. Às cinco, saí apressada e fui direto para casa.  Fiquei cobrando o tempo do relógio da cozinha, esperando ansiosamente que ele passasse mais rápido, enquanto ensaiava mentalmente o que iria dizer para ela.  Quinze pras sete o interfone toca.

– Oi. – cumprimentei secamente a Analu.

– Oi. – ela retribuiu, desafiadora, entrando na minha pequena sala. Deu meia volta e me encarou, os braços cruzados, aguardando que eu começasse a batalha. Fechei a porta e, então, comecei:

– Analu, eu estou muito magoada com você. Nós estávamos juntas na festa, você não percebeu como seus amigos me trataram, como eu fiquei desconfortável? Aquela sua amiga veio toda arrogante pra cima de mim! Você sabe que eu me sinto mal com desconhecidos. Eu já tinha decidido ir embora, pra você ter uma ideia! Mas tomei um gole de uma gororoba vermelha que me deram por engano e desmaiei! Um gole! E você me tratou como se eu fosse uma adolescente que não soubesse beber! Nem perguntou como eu estava, se eu precisava de ajuda! Você por um acaso se lembra de como a gente se conheceu? Você se lembra de quem bebia até cair?! Poderia ter tido um pouco de consideração, pelo menos. E, ainda por cima, esse negócio de deixar o celular com o João! O menino foi tosco e me ignorou o tempo todo, como você pôde fazer isso comigo?! – parei, feliz com o resultado do ensaio, tinha dito tudo o que precisava.

A Analu respirou fundo. Sempre que tomava fôlego assim, eu sabia que lá vinha chumbo pesado.

– Rita, é claro que eu me preocupo com você. – ela segurou meus dois braços, me esfaqueando com aquele olhar castanho-intenso, eu estava prevendo mais uma derrota na guerra – Mas chega uma hora que cansa! Você entrou na festa já resmungando da roupa do João. E ninguém te fez nada de mal. Os meninos estavam calados porque eles são assim! Eles são tímidos! E você os intimidou mais ainda com esses olhões verdes e a cara amarga que fez desde a hora que chegou.  A Bárbara não é arrogante, ela é só muito expansiva. Pode ser chato se você não conhece, eu sei. Se tivesse ficado mais quinze minutos por lá, ia perceber que é só o jeito dela! Mas você deixou a gente falando sozinha! Olha: foram o João e a Bárbara que te carregaram pra cozinha, evitando que mais gente te visse, e você nem se preocupou em agradecer, só ficou implicando mais ainda com a Bárbara que estava tentando brincar com você, amenizar a situação. Com esse seu jeito, nunca vai arranjar ninguém mesmo. – abri bem os olhos, surpresa, por que a discussão tinha ido parar nesse ponto? Mas ela continuou –  Não estou falando que você precise arranjar homem. Você é toda independente! Tão independente que eu tinha certeza que não precisava da minha ajuda pra chegar em casa! Se sustenta, mora sozinha, tem um trabalho legal. Mas obviamente sente falta de alguma coisa. Se você não ligasse, eu entenderia, juro! Mas, depois do que você fez ano passado naquele casamento, não vou deixar você se jogar pra qualquer um só por desespero. Você precisa aprender a ter mais paciência e dar chance pras pessoas te conhecerem! E para você conhecer as pessoas! Sabe do que mais? Príncipe encantado não existe. Se você ficar implicando por esse tanto de coisa besta, vai ficar seca e amarga pra sempre. Está mais que na hora de você gostar mais de si mesma e deixar os outros gostarem de você! Não entende isso?

Ela parou e ficou me encarando, esperando a tréplica. Seu rosto estava completamente vermelho. Era quase engraçado que uma criatura daquele tamanho – exatos um metro e meio – tivesse aquele poder de persuasão. Já tinha visto a Analu brava, mas nunca em tantas palavras. Tudo que ela tinha dito fazia tanto sentido que não sei por que eu não tinha começado a chorar ainda, acho que estava em choque. Amarga. Repassei a festa na minha cabeça. Os meninos mudos, a amiga expansiva, os dois na cozinha quando eu acordei. Engoli litros de lágrimas de remorso. Não. Não era hora pra chorar, precisava tomar alguma atitude.

– Você tem o telefone do João no seu celular? – perguntei, fingindo firmeza. Ela ficou boquiaberta e remexeu a bolsa, deixando umas três canetas e uma lixa de unha caírem, enquanto pegava o aparelho, que me estendeu já com o número programado.

[Ligar]…

– Oi João, é a Rita, amiga da Analu, (….) não, tá tudo bem… Já… Já  estou legal, obrigada. Então, eu estava pensando se amanhã a gente podia se encontrar pra você me entregar o celular (Analu socava joinhas no ar com as duas mãos, com um grande sorriso no rosto) Isso… Isso… Tem um café bem legal aqui perto de casa, o Marina, conhece? Então. Depois estava pensando em ir ao cinema, se você topar (ela começou a dar pulos chacoalhando as mãos. Ri-dí-cu-la, murmurei para ela, encarando a cena)… Tá ótimo… Te encontro às seis no café, então.  Tchau, beijo… Até…

Desliguei. Ela estava tão eufórica que parecia que iria tascar um beijo na minha boca bem antes do João. Tanto escândalo por tão pouco. Mas, ainda mais rápido do que a onda de alegria tinha vindo, a Analu retomou o ar sério, franziu a testa e deu o toque final no sermão:

– Então Rita, escuta bem o que eu vou te dizer agora. Você vai sair amanhã com esse menino. Vocês vão conversar amenidades no café. Você VAI beijar esse menino na boca por lá ou no cinema, pode escolher. Quando já estiver com o seu celular e for me ligar para contar, eu não quero ouvir uma palavra sobre como o João é jeca, porque te adianto que ele é muito jeca – sorri nasalmente, prevendo o desastre-, como ele estava de camiseta branca de novo, como ele é barbeado demais, como ele recomendou só filme ruim pra vocês assistirem. Isso tudo eu já sei que vai acontecer. A única coisa que eu quero saber é como ele foi muito gente boa e beijou bem pra caralho e onde vai ser o segundo encontro. Ah! E, quiçá – estendeu as palmas das mãos e olhou para alto, como se fosse fazer uma prece, o meu caso era grave assim-, como ele é ótimo na cama!

– Analu! – repreendi a indiscrição – Ok! Vou dar o melhor de mim, prometo.

Ela me deu um abraço forte e, não contendo saltinhos de felicidade, se despediu, tinha que começar a fazer as malas – no domingo iria viajar pra participar de um congresso na Espanha, apresentar um artigo com uma turma do mestrado, e precisava conferir se tinha três pares de cada tipo de roupa.

Eu estava mais leve, a bronca tinha tirado um peso grande dos meus ombros. Me sentia querida de novo e realmente estava disposta a dar uma chance para o João. Enquanto tentava me lembrar de mais detalhes sobre ele na festa, o interfone toca. Era a voz da Analu:

– Ah. Esqueci de te falar! Você viu? Divulgaram que vai ter show extra do Chico Buarque. Domingo começam a vender os ingressos!

Anúncios
Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (5)

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s