Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (6)

(ler desde o começo)

Sorrindo, coloquei o interfone no gancho. Depois das últimas vinte e quatro horas fazendo drama, tudo parecia estar correndo bem. Mesmo que a Analu tivesse tentado me convencer que a tal Bárbara era legal, ainda alimentava uma animosidade contra a menina do Chico. Ir ao show parecia uma questão de honra. Corri para pesquisar os detalhes. Teria que desembolsar trezentos reais para assistir do melhor setor, e era lá que eu queria estar, mesmo se tivesse que passar fome no próximo mês.  Seria bem perto de casa, no Palácio das Artes, a três quarteirões do meu prédio, e iria acontecer um dia antes dos outros três shows que já tinham esgotado. Como a turnê iria começar por aqui, tecnicamente, eu iria na estreia! Toma essa, menina do Chico! Os ingressos começavam a ser vendidos às nove horas da manhã de domingo. Eu estaria na fila às sete e garantiria lugar bem no meio do primeiro setor. E esse seria o melhor show da minha vida.

Revirei uma das caixas de mudança que nunca desfiz por completo, procurando por um CD dele. Era uma coletânea de músicas românticas que ganhei num amigo oculto, o único CD do Chico Buarque que eu tinha. Outros álbuns, tinha em vinil, o que era pouco útil, já que a vitrola tinha ficado na casa dos meus pais. Encontrei a caixinha plástica com a capa genérica e coloquei o cd para tocar no aparelho de DVD – minha casa era realmente minimamente equipada. Os primeiros acordes da valsinha contaminaram o ar, e eu me joguei no sofá feio e duro, para sonhar acordada e tentar despertar o romantismo que vinha me fazendo falta, já estava na hora, lembrei das palavras da Analu.

“O primeiro me chegou… Como quem vem do florista…” Enumerava o Chico, se fazendo de Teresinha. E eu, como ela, contava em uma mão os homens que já passaram por mim. Perdi a virgindade aos dezessete anos com o Pedro. Nossas famílias moravam no mesmo prédio, nos conhecíamos desde criança.  Ele era um ano mais novo e virgem também, então fizemos um pacto. Combinamos de matar aula um dia e nos encontramos no apartamento dele, enquanto nossos pais trabalhavam. Foi bem ruim e rápido, como acho que devam ser todas as primeiras vezes – pelo menos quando nenhum dos dois tem alguma experiência -, mas, um mês depois, ele propôs que fizéssemos de novo. A nova tentativa também foi um fiasco, mas a pior parte aconteceu depois. Deitamos abraçados e ele, ainda ofegante, se declarou para mim. Gaguejando, falou que estava apaixonado, que queria namorar comigo. Lembro que a única coisa que consegui sentir foi pena. Eu não estava apaixonada, na verdade,  foi mais ou menos a época em que comecei a a abandonar o hábito das paixões adolescentes, e até por isso tinha decidido resolver o “problema” da virgindade daquela forma. Acabei falando que achava melhor não, que eu gostava dele como amigo, que não queria estragar a amizade. Não adiantou nada, depois daquilo, tudo ficou estranho, nunca mais conseguimos nos olhar direito, mal e mal nos cumprimentávamos. Muito tempo depois chegou o convite de casamento dele e eu nem sabia que ele estava namorando sério. Foi exatamente o casamento em que encontrei o feio. Um frio na espinha interrompeu o fluxo do meu pensamento: será que ele achou que eu tinha pegado o feio por estar sofrendo com o casamento dele? E, pior, será que inconscientemente tinha sido isso mesmo? – quase soltei uma gargalhada, nunca tinha pensado nisso dessa forma, acho que talvez precise de terapia.

O meu segundo aconteceu quase dois anos depois, e não envolveu sentimentos profundos também: um amigo gay do cursinho queria experimentar uma novidade. Eu, racional como sempre, topei. Foi bem difícil alinharmos a parte prática da coisa, mas, no final, conseguimos um resultado razoável – imagino um jurado levantando uma plaquinha de nota 7 para a performance. Pelo menos ele ficou mais convicto de que não era aquilo mesmo que queria. E eu fiquei feliz por ajudar.

O terceiro foi minha única experiência mais marcante. Naquela festa que combinei de ir com a Analu, logo depois de nos conhecermos, ela me apresentou outra nova e grande amiga: a tequila. E também alguns colegas de curso dela, dentre eles, o Ricardo. Ele tinha um rosto agradável, boca e nariz grandes (tenho algo com narizes), os olhos bem pretos, expressivos, que eram  espremidos pelas maçãs do rosto quando ele sorria. A pele ainda tinha uma tonalidade adolescente, com algumas marcas de espinha e o cabelo estava bem curto por conta do trote do vestibular, o que dava um charme militar na composição. Não era lindo de morrer, mas, se o feio era “o” feio, o Ricardo era “o” legal. Daquele tipo que sempre vai conseguir pegar a mulher que quiser, que consegue fazer rir, que é atencioso com detalhes inesperados e perseverante quando escolhe um alvo, naquele dia, eu.

Lembro de estarmos conversando sobre o exame de direção no qual ele tinha acabado de ser reprovado pela segunda vez, e, de repente, o resto do pessoal que estava junto com a gente sumiu e ficamos sozinhos. Em algum lugar entre baliza e freio de mão, ele tirou uma mecha de cabelo que caía no meu rosto e encaixou atrás da minha orelha.  Depois disso, fui abrir os olhos novamente na cama dele, numa república que ele dividia com mais dois amigos. Era perto da faculdade e, na semana seguinte, fui para lá todos os dias depois da aula. Cheguei a inventar pros meus pais uma excursão didática para poder dormir fora de casa sem levantar suspeitas – ainda não sei como eles caíram nessa história… Excursão no primeiro período de faculdade… Só faltou eu ter falsificado uma autorização para eles assinarem.

Passamos os três dias da “excursão” praticamente sem sair do quarto dele. E ele continuou sendo legal, mas, não sei se por estar longe da tequila, ou se por terem se esgotado todos os assuntos banais nos poucos minutos em que conversávamos, acabei percebendo que não tínhamos mais nada em comum, além da química na cama. Acho que conseguiria ignorar esse pequeno problema por mais um tempo, afinal, não foi isso que acabou com o nosso relacionamento.

No fim de semana seguinte à excursão, falei que não poderia encontrá-lo, iria viajar com meus pais. Acabamos voltando antes do planejado e, sem avisar, fui até a casa dele no domingo. Apesar dos colegas de apartamento tentarem me deter, abri a porta do quarto e o peguei no ato, com outra. Apenas olhei a cena e fui embora. Aquilo abriu um rombo no meu ego, mas não chorei, não fiz escândalo. Não me sentia com o coração partido, eu definitivamente não estava apaixonada por ele. Foi por uma questão de convenção social que nunca mais quis vê-lo – uma culpa cristã me impediu de ligar o foda-se e fingir que nada tinha acontecido, afinal, o que eu queria continuava disponível, era só avisar com antecedência.

A Analu ficou bem mais revoltada do que eu, até relatou o caso na cornet, anexando a foto e o perfil dele. A cornet é um grupo de e-mails em que mulheres denunciam traições e filhadaputagens masculinas. Aliás, essas são duas das categorias oficiais do grupo: todos os emails trocados devem identificar, no assunto, se se trata de traição, filhadaputagem ou investigação (quando há a desconfiança de traição, ou alguém quer levantar o perfil de um cara que acabou de conhecer). Já que era impossível dissuadi-la de postar o acontecido, com muita luta, consegui que a Analu o classificasse como filhadaputagem. Na prática, não estávamos namorando nem tínhamos discutido fidelidade, ele era livre para fazer o que bem entendesse.

Ela ficou um mês monitorando meu estado psicológico, trocávamos quinze mensagens por dia. Por mais que tentasse convencê-la de que estava tudo bem, que eu não me apaixonava tão fácil, acho que ela se sentia culpada por ter nos apresentado – e deve ter confundido minha empolgação pelos orgasmos reais com amor verdadeiro, acontece. Tirando esse caso, nunca mais participei ativamente da cornet, mas ainda hoje me divirto lendo os e-mails e acompanhando eventuais barracos – me pergunto se meu subconsciente não registra todos os absurdos que homens fazem e é isso que me mantém longe deles. A gargalhada quase sai outra vez, eu, sempre tão objetiva, me fazendo de mistério para mim mesma, era o que me faltava.

Assim como a Teresinha, eu deveria ter parado no terceiro. O quarto e último foi o feio, que dispensa apresentações. Espreguicei os dedos dos pés enquanto a Maria Bethânia começava a cantar sobre o amor dela, que tinha o jeito manso só dele, e voltei à tentativa de me lembrar do João. Muitas fichas na mesa apostando que o meu quinto homem seria ele. Iria com mais calma dessa vez, vou tentar conhecê-lo antes – repetia para mim mesma, num esforço para me convencer de que desse mato sairia cachorro. Até agora só sabia que ele tinha uma beleza óbvia e tendia a ficar mudo quando intimidado por olhos verdes e cara amarga, o que aumentava a chance de eu nunca ouvir a voz dele ao vivo, essa é a única cara que tenho – repreendi minha clara tentativa mental de auto-sabotagem. Os olhos castanhos caramelizados, nariz e boca sem personalidade, porém harmônicos, o cabelo jogado pra trás, o porte atlético. Isso poderia render, suspirei, nostálgica. E jeca…  Será que ele iria querer ir ao show do Chico Buarque?

Anúncios
Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (6)

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s