Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (7)

(ler a história desde o começo)

Adormeci no sofá. Sonhei que estava num grande salão oval. O chão, de tábuas bem enceradas, era da mesma tonalidade do olhar castanho intenso da Analu. As paredes eram cobertas por longas cortinas de veludo preto e ornadas com infinitos filetes em que corria um líquido vermelho, como em milhares de veias. Não era grotesco, ficava até bonito, aquele líquido escorrendo para cima e para baixo, refletindo a luz que vinha das pequenas e numerosas lâmpadas no teto.  Olhei em volta e não havia ninguém. Uma música começou a invadir o ambiente. A princípio não consegui reconhecê-la, mas pude perceber, então, duas pessoas dançando juntas, como num baile, em um ponto bem distante do salão. Era valsinha, quero dizer, a música era aquela, Valsinha. Nessa versão, o Chico cantava quase a cappella. O casal se aproximou flutuando, e reconheci, no longo vestido vermelho, a bartender da festa, ela tinha os olhos grandes bem abertos e um sorriso de orelha a orelha para o seu par, que era nada menos que o taxista bigodudo, ainda com as roupas que vestia no taxi: uma calça jeans surrada e um camisa de mangas curtas meio desbotada.  Ele olhava para ela admirado, como se estivesse orgulhoso de ter um par tão bonito, como se estivesse apaixonado. Passo longos instantes analisando o rosto do taxista. Num movimento brusco, ele se inclina e deixa que a bartender caia em seus braços. Então, do outro lado do salão, consigo ver um homem que me observa. Com terno preto e uma gravata borboleta redundantemente vermelha, ele permanece impassível, os lábios travados, mas as feições estão relaxadas, como se estivesse olhando para o horizonte. É o João. De repente, sinto vontade de ir embora, mas tropeço, caio, e, num segundo, ele está ao meu lado para me levantar, ainda com o mesmo olhar, ainda com o mesmo silêncio.  “E o dia amanheceu em paz…” Finaliza o Chico, e o salão está novamente vazio ecoando a última palavra da música.

Acordo. Era quase uma da madrugada e o CD já deveria ter parado de tocar há tempos, o aparelho de DVD estava desligado. Podia escutar apenas o zumbido da geladeira. Com alguma dificuldade, me transferi para a cama. Ela já não me parecia tão grande. Girei de um lado para o outro, tentando desvendar o sonho. Odeio quando sou enganada pelo meu próprio inconsciente, o que aquilo queria dizer? Será que eu me sentia atraída pelo João? Preferia acreditar que ainda não.

O melhor a fazer era dormir. Às seis da tarde, no café Marina, eu descobriria.

Recuperando o sono da noite anterior, acordei tarde, quase onze horas. Como em todos os sábados, desde a mudança, saí para almoçar na casa dos meus pais. Era costume chegar lá ao meio dia e ficar até mais ou menos umas três. Às vezes jogava xadrez com meu pai, às vezes assistia a um filme na TV com minha mãe. Se morar com eles não era ruim, agora que eu era visita, a situação tinha melhorado exponencialmente. Minha mãe sempre preparava minha comida favorita, meu pai trazia uma sobremesa bem calórica da rua e, vez ou outra, ainda ganhava um presente. Invariavelmente, um livro ou uma bijuteria que minha mãe achou “a minha cara”. Quando chegava a hora da despedida, ainda percebia alguma tristeza, principalmente no olhar da minha mãe. Meu pai, por sua vez, adotou a mania de sempre dizer “eu te amo” em vez de “até logo”. Por algum motivo, fico um pouco assustada, bate em mim a consciência de que, eventualmente, será a última vez que poderei vê-los.  Como se eles pudessem morrer até o próximo sábado e fosse bom que deixássemos claros os nossos sentimentos. Procuro não pensar muito nisso.

Voltando à minha casa, me permito começar a entrar em pânico por antecipação. Que roupa iria colocar? Será que iria “preparada”?  Iria facilitar ou dificultar as segundas e terceiras intenções do encontro? No banho, optei por facilitar as negociações. Querendo ou não, iria pegar esse garoto. Dedidi pela clássica combinação decote e salto, que, em suas enormes variações, nunca falhou. Não iria tão produzida, era algo mais informal. Escolhi uma blusa mais larga, mas com um generoso decote em V, uma calça jeans justa e uma sandália com saltão. Será que poderia ficar tão alta? Tentava lembrar a altura do meu par… Eu tinha quase um metro e setenta… Ele era alto também, acho que dava, vai o saltão mesmo. Sequei meu cabelo, que, por alguma interferência divina, estava se comportando bem para eventos desta semana, e coloquei meus enormes brincos de argola. Agora, maquiagem. O que farei? O menos possível, lembro da aversão que alguns homens têm a batons, passo um quase da cor da pele e o rímel. Era isso. Fui conferir o meu reflexo de corpo inteiro e, como sempre, estava a imagem e semelhança do desarranjo.

Apesar disso, o decote com salto não falhava nunca. Já tinha usado em uma dezena de outros encontros. Apesar de ter dispensado todos os caras, a decisão sempre foi minha e não deles. Os meus peitos, por menores que fossem, eram uma distração. Desconfio que deva ser uma característica evolutiva do sexo masculino, essa coisa de subitamente ter as órbitas oculares vidradas nos peitos das mulheres. Quão mais civilizado o homem, menores os milésimos de segundo em que descuidadamente o olhar parava lá. Eu era até bem compreensiva, como isso é algo que acontece com todos, nunca foi um critério de exclusão, a não ser que a situação se tornasse insustentável – nunca tinha acontecido comigo, mas já escutei relatos de homens que não conseguiam parar de olhar para lá, daí realmente ficaria difícil levar o encontro para frente.

Meus critérios de exclusão eram mais específicos, apesar de serem, ao mesmo tempo, muito abrangentes. Não é que eu acredite em príncipe encantado, como a Analu falou, apenas não quero um homem que: tenha menos de 22 anos, tenha mais de 40 anos, seja menor do que eu, seja loiro, participe ou tenha participado de diretório acadêmico na faculdade, faça artesanato, tenha blog, trate a mãe mal, não tenha irmãs, seja muito bem dotado ou muito mal dotado, nunca tenha pegado ônibus na vida, ainda ganhe mesada, tenha namorado mais de três vezes, tenha sido casado, tenha namorada ou esposa, tenha namorado ou esposo, seja bissexual, seja gay, jogue futebol, não tenha carteira de motorista, fume, use drogas ilegais, tenha uma moto, tenha pegado amiga minha anteriormente, faça teatro, seja amigo do povo do teatro, seja jeca, use calça jeans e camiseta branca como uniforme ou tenha ficha suja na cornet. Para mim, esses são critérios completamente racionais e justificáveis, e com certeza existe todo um conjunto de homens que não apresentava nenhuma dessas características. Mas, para tentar finalmente ter um namorado, estava disposta a relevar uns quatro ou cinco desses critérios e mergulhar na vida loka. Quinze para as seis, hora de sair de casa.

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