Exercício de escrita – O show do Chico Buarque (8 – fim do primeiro capítulo!)

(Ler a história toda aqui)

Ele estava me esperando na porta do Café Marina, olhando para a direção errada. Antes que pudesse me ver, tive algum tempo para analisá-lo.  Não estava usando outra camiseta branca, no lugar, uma camisa pólo, azul marinho, com a marca ridiculamente grande bordada sobre o peito. Ponto negativo. A censura da Analu me impede de contabilizar esses pequenos deslizes. “Não é a camiseta branca! Que bom!” Tentava inutilmente me animar.

Preferiria que ele estivesse dentro do Café, me aguardando numa das mesas. Acho que me sinto mais atraída por homens que demonstram esse tipo de segurança. Mas a última coisa que ele transparecia era alguma segurança. Batendo o pé nervosamente, ainda esperava que eu aparecesse pela outra esquina. Penso que eu também não exibia um andar muito seguro e seria incapaz de fazer uma entrada inesquecível. Se fizesse,  provavelmente seria tropeçando depois da primeira troca de olhares. Melhor contar com o elemento surpresa, portanto.

Parei por alguns instantes bem perto do João. Ele não percebeu que eu já estou ali. Podia sentir o seu cheiro agradável, perfumado na medida certa para o fim de tarde. Era o mesmo cheiro que senti na festa, ao cumprimentá-lo. Já conheci outros que usavam um perfume similar, talvez não fosse um grande indício de personalidade, no final das contas.

– Oi. – falei quase em seu ouvido, para assustá-lo. Ele deu meio pulo para o lado, surpreendido. Não consegui deixar de achar graça. O meu sorriso teve um impacto maior do que o susto. Com as faces instantaneamente coradas, ele levanta sutilmente os cantos da boca, acho que era pra ser um sorriso também. Desajeitado como eu, me cumprimenta com um beijo no rosto e encara os meus peitos no decote por um milésimo de segundo. Inevitável.

-Tudo bem? – pergunta, quase não abrindo a boca.

– Tudo… Então, vamos entrar?

Sinto que ele ficou aliviado por eu ter tomado a iniciativa. No salão do café Marina, um atendente que já me conhece sorri de longe. Caminho com cuidado sobre os desafiadores saltos até a minha mesa favorita, no fundo, perto da única janela. Na verdade, é uma vitrine estreita, coberta por um adesivo fosco avermelhado. Através dela, é possível perceber somente as silhuetas dos pedestres que passam pela calçada. De fora, o mesmo efeito: apenas uma sombra indecifrável de alguém tomando um café ou lendo um jornal.

A mesa é pequena, enfeitada com uma vela. Não foi necessária muita dança para definirmos nossos lugares, sento de um lado e ele se dirige ao outro. Antes de sentar, tira uma vida dos bolsos da calça. Enche as duas mãos com uma exageradamente volumosa carteira de couro preta, um celular, que devia ser o dele, um molho de muitas chaves e, por último, o meu celular, que me estende, sorrindo, ainda com uma timidez astronômica.

– Ah! Obrigada!

Ele grunhe alguma reação, mas permanece mudo. Começava a me sentir realmente mal por ter ficado com tanta raiva do silêncio na festa. Então pensei sobre minha teoria, nunca comprovada na prática, sobre rapazes bonitos inseguros. Ou eles são gays enrustidos, ou têm pênis muito pequenos ou têm uma péssima relação com a mãe. Olhando para a sugestão de músculos na abertura da camisa pólo, desejei conduzir uma pesquisa empírica sobre o assunto… Sorri maliciosamente enquanto ele tentava arrumar toda a mudança que foi tirada dos bolsos em um canto da mesa, ocupando quase metade do espaço.

Num dia normal de julgamentos, já teria descontado uns cinquenta pontos. Mas prometi me esforçar, então, a cada vez que implicava com algum detalhe insignificante, zerava o placar e dava uma nova chance, não sabia até quando isso iria durar.

– A Analu que deixou o celular com você né…

– É… Eu deixei desligado… – ele disse, quase se desculpando.

– Obrigada! – já me apresso a ligar o celular, a bateria ainda estava viva – Mas ela não deveria ter te dado esse trabalho, desculpa…

– Ela me falou que não iria dar tempo pra te encontrar por conta da viagem… Mas ontem vocês se viram né? – fiquei feliz por constatar que ele era capaz de formular uma frase com mais de três palavras. Ao mesmo tempo, pensei que poderia ter se mostrado mais feliz por ter tido a oportunidade de me encontrar outra vez, no lugar de justificar por que ele teve que assumir a responsabilidade pelo celular. Amarga.

– É, ela passou lá em casa pra pegar um sapato lá em casa – não sabia porque tinha que inventar um motivo, não sou uma boa mentirosa – e aproveitei para emprestar o celular para te ligar…

O atendente que me conhecia chegou à mesa e nos entregou os menus, enquanto me cumprimentava oficialmente – Tudo bem, Rita? – eu sorrio, está tudo bem, na medida do possível, dentro daquelas circunstâncias.

Esperei por algum tempo, fingindo olhar as opções. Já sabia que precisaria de um pouco de álcool e esperava que o João pensasse o mesmo. Ele parecia não estar prestando muita atenção no menu também. Senti que teria que tomar a iniciativa novamente:

– Vamos beber alguma coisa? Você gosta de vinho? – ele me olha intimidado. Acho que exagerei. Pedir vinho é uma responsabilidade muito grande. Mas, se ele não sabe nada sobre o assunto, é a primeira coisa que temos em comum. Sem aguardar que ele responda, peço duas taças de vinho tinto.

– Adoro pedir vinho aqui porque não tem complicação, eles te trazem o que eles têm. Não entendo nada de tipo, safra… Gosto quando é tinto e bom, mas não reclamo se estiver ruim também. – soltei uma risada, tentando deixá-lo mais confortável.

Pela primeira vez, ele sorri sem constrangimento. E eu, finalmente, consigo reparar em como ele é bonito. Obviamente bonito como sempre. Mas também bonito de uma forma que eu posso vir a apreciar. Cabelos sem premeditação. E tão tímido.

– Então, você está fazendo qual curso? – uma das duas coisas que a Analu tinha me adiantado sobre ele. Que ele ainda estava na faculdade, ela tinha me dito antes da festa, a outra, que ele era jeca, tinha me falado ontem.

– Medicina…

– Ah, em qual período você está? – começava a sentir um tédio imenso com esse princípio de conversa. Passei todos os cinco anos de faculdade começando conversas com as pessoas da mesma forma. Achei que já estava livre disso, mas parece que ainda vou precisar de alguns anos antes de abandonar a convivência com os universitários. A voz do Silvio Santos ecoa na minha mente.

– No quinto.

– Você já morava aqui ou veio pra estudar? – tento parecer interessada.

– Eu vim pra fazer cursinho, meu irmão já estava aqui… Tem cinco anos isso… Minha família é de Luiz das Dores.

– E vocês voltam muito lá pra Luiz das Dores?

– Eu costumava ir todo fim de semana quando tinha namorada. – ele para de falar subitamente, como se percebesse que trazer a ex para a mesa do nosso primeiro encontro talvez não fosse uma grande ideia. Eu finjo não ter notado. Começava a ficar genuinamente interessada na conversa.

– Vocês terminaram faz pouco tempo?

– No começo do ano…

Na prática, isso queria dizer que ele estava, no máximo, há três meses solteiro. Ele redireciona o rumo da conversa, tentando fugir do assunto:

– Você trabalha no laboratório que fica perto do campus da medicina, né? A Analu me contou… – sorrio, confirmando e tentando pensar no que mais a Analu poderia ter dito sobre mim.

Uma garçonete me interrompeu antes que eu pudesse contar mais sobre o laboratório, e posicionou nossas taças na mesa, enchendo generosamente com o vinho genérico. Aproveitando que o entardecer deixa o ambiente cada vez mais mal-iluminado, ela acendeu a vela que decorava a mesa.

Talvez não fosse a intenção da garçonete, mas, segurando a taça de vinho, com a chama produzindo reflexos avermelhados sobre o meu rosto, percebo como o nosso despretensioso primeiro encontro está ficando constrangedor.

Queria apagar a vela, substituir o vinho por cervejas e gritar “não é minha culpa, juro!”. Mas foi o João quem guiou o próximo movimento. Ele olhou na minha direção da mesma forma como tinha olhado na cozinha da festa, enquanto eu me recuperava do desmaio. Era como se ele estivesse observando algo que eu mesma não podia identificar na imagem refletida naqueles grandes olhos castanhos. Ele acabou de descobrir como eu sou bonita, concluo, inspirando rapidamente, como uma presa acuada. Não digo isso no sentido geral da beleza. Ele acabou de descobrir como eu sou bonita para ele. Assim como eu tinha percebido que ele também era bonito para mim, alguns instantes antes.

Depois de tomar dois longos goles de vinho, ele respira fundo e, fazendo um esforço sobre-humano para vencer a timidez, diz:

– Seus olhos são muito bonitos.

Dessa vez, era o meu sangue que subia todo para o rosto. Sorri encabulada, tínhamos trocado de papéis. Mergulhei o olhar na taça e bebi violentamente. Não conseguia pensar em nenhum assunto para competir com aquilo. Meus olhos são bonitos. Isso quer dizer que qualquer interação despretensiosa que eu estava tentando encenar foi por água abaixo. Os interesses reais do nosso encontro já estão na mesa (em algum lugar no meio da bagunça dos bolsos) e, não sei por qual razão, aquilo me tirava o equilíbrio. Queria voltar para casa sozinha, sem complicações, e dormir com o meu pijama de anjinhos. Quando estava quase executando um plano de fuga, ele tenta me resgatar:

– Você falou que queria ir ao cinema, a gente vai ver qual filme?

Dou uma engasgada, antes de responder:

– Ah… Sabe o que é… Não vai dar para ser hoje. – reparei a queda brusca de eletricidade no olhar do João.  Para piorar, não consegui encontrar nenhuma desculpa plausível para cancelar um encontro num sábado à noite e a frase termina lá mesmo.

Fiquei em silêncio, ele também. Com remorso, lembrava o quanto tinha demorado para que ele tomasse alguma iniciativa, e pensei no quanto deve ter sido ruim ter recebido um não tão cedo. Ele não estava tentando esconder o baque. Terminamos nossas taças de vinho em silêncio e pedimos a conta.

Apesar dos meus protestos, ele pagou por nós dois. Enquanto abria a carteira pude notar o que a deixava tão volumosa. Fotos do que parecia ser a família dele quase transbordavam das várias camadas. Crianças, uma mulher com jeito de mãe, um casal de velhinhos com jeito de avós. Na saída da cafeteria, sem conseguir me encarar, ele arriscou:

– Você falou que mora aqui perto, né? Posso te acompanhar?

Se tivesse perguntado se eu queria que ele me acompanhasse, eu poderia negar de forma educada. Mas ele perguntou se podia e eu não sabia dizer não. Estava me sentindo a pior pessoa do universo. A destruidora de corações de rapazes bonitos que levam foto dos avós na carteira.

Assenti e seguimos em silêncio, já estava me acostumando, quase não parecia constrangedor. Na esquina da rua de casa, para não perder o costume, tropecei. Ele evitou a minha queda segurando firme em meu braço. Fui surpreendida com a força com que ele me segurava, parecia que eu não pesava nada, que ele poderia me levantar com uma só mão, se quisesse. Deixei um pedaço de fôlego escapar e trocamos olhares pela primeira vez desde que o assunto tinha acabado no café. Enquanto retornava à posição vertical, ele perguntou:

– Você já foi a algum médico ver o que aconteceu na festa? Nem tinha bebido nada, né?

Fiquei surpresa ao perceber como o drama pela paranoia na festa tinha me feito esquecer completamente que não era normal eu desmaiar daquele jeito. E mais surpresa ainda por ele ter reparado que eu não tinha bebido nada. Ainda, pela forma como ele soltou a pergunta de uma só vez, devia estar querendo me perguntar isso desde muito antes e aguardava apenas a chance. Estava preocupado comigo.

– É, ainda não deu tempo, mas acho que não foi nada. Tomei uma bebida estranha lá, meu estômago devia estar vazio… Estou bem agora.

Ele continuou segurando o meu braço, mas sem fazer força. Quando percebeu que eu tinha reparado, se afastou, esquecendo os dedos em contato com a minha pele por tempo suficiente para que um arrepio me cortasse no meio.

Em frente ao meu prédio, me despedi dando tapinhas ridículos nos ombros largos e agradecendo pelo celular. Apressada, transpus o portão. Não sabia se sobreviveria a um abraço. Subi os degraus para chegar ao elevador com o peso do mundo sobre mim. Nunca tinha parecido tão minha culpa não gostar de um homem absurdamente bonito e com uma timidez mais do que charmosa. Que tinha reparado em mim na festa. Que tinha fotos da família na carteira. Que era forte o bastante para que eu me sentisse leve. Voltei a olhar o portão. Ele me observava, como um cachorrinho abandonado.

– João? – antes que ele pudesse dizer qualquer coisa – e não acho que diria -, envolvi os meus braços em seu pescoço e o beijei.

No princípio, ele parecia estar em choque, mas aos poucos retribuiu. E como retribuiu. O corpo inteiro dele me beijava, era ao mesmo tempo quente e frio, tímido e decidido. Antes de nos separarmos, ainda tive tempo para mais uma pequena paranoia: lembrei que a Analu tinha falado sobre como ele beijava bem. Será que ela já tinha pegado o João? Não. Ela teria me dito.

Recuperei o fôlego e falei: – Depois a gente combina o cinema. Ele sorriu daquele jeito que o deixava bonito e eu flutuei até o meu apartamento.

Antes mesmo de entrar em casa, já estava ligando para Analu. Narrei com detalhes todas as minhas implicâncias, o silêncio, a vida dos bolsos em cima da mesa, a falta de inciativa, eu cancelando o cinema. Deixei que ela xingasse até a minha terceira geração antes de contar o epílogo na entrada do prédio. Quase fiquei surda com o grito que ela soltou antes de começar a me cobrar os detalhes físicos, afinal, era só isso que ela queria saber mesmo. Não deixei de lembrar da dúvida sobre o beijo. Perguntei:

– Analu, como você conheceu o João?

– Então, ele é irmão do Francisco, o meu rolo! Que estava na festa também, lembra?

– O outro da festa era irmão do João? Por que não me contou antes?!

– Porque você ia falar que não pegaria irmão de alguém que eu estivesse pegando, que era estranho – ela tinha razão, mas fiquei um pouco brava ainda assim.

– E a história da namorada do João, você conhece?

– Se conheço! Foi a única namorada dele, parece que ficaram juntos quase nove anos! Desde a adolescência. Acho que só beijou essa menina na vida. E, com ele na capital, ela ficou muito ciumenta. Ele nunca fez amizades por aqui porque a namorada não deixava. Você viu, é jeca de tudo. Daí que ele acabou descobrindo que quem traía era ela lá em Luiz das Dores. E ficou todo traumatizado. O irmão dele quer que ele saia, conheça gente nova, contei sobre você, e…  (ela riu satisfeita) Parece que deu certo.

– Analu! O João namorou uma menina por nove anos? – parecia inacreditável, apesar de justificar muita coisa.

Ela confirmou, mas não sabia mais detalhes. Conversamos mais um pouco, principalmente sobre a viagem que ela faria para o congresso em Madri. Eles voltariam só no próximo domingo, seriam três dias de atividades acadêmicas e teriam o resto do tempo livre. Perguntei se queria que eu comprasse ingresso pro Chico pra ela, mas ela não iria ter dinheiro, queria fazer muitas compras no freeshop. Aproveitei para encomendar um estojo de maquiagem de verdade e ela me prometeu um postal. O ônibus para o aeroporto sairia às cinco e meia da manhã. Contei sobre os meus planos de ir para a fila do ingresso cedinho também. Desejei boa viagem e nos despedimos.

Tentei não racionalizar sobre o encontro ainda mais. Não foi fácil, passei um bom tempo colocando, naquele homem que tinha amparado a minha queda na rua, o menino que namorou a mesma garota por nove anos e foi traído por ela. Pensei no olhar triste de quando cancelei o cinema, e na nova onda de eletricidade quando abrimos os olhos pós-beijo. Era ótimo me sentir desejada, mas ainda sentia a mesma insegurança de quando ele disse que achava meus olhos bonitos. Sentia que não seria capaz de retribuir qualquer sentimento. Eu não seria capaz de gostar dele o tanto que ele demonstrou ser capaz de gostar de mim. Mesma namorada por nove anos. Varri a nova tentativa de autossabotagem da mente. Tempo ao tempo, precisava arrumar a casa e ir dormir cedo, o despertador estava programado para 6h30.

Os primeiros acordes da música eletrônica me acordaram, mas ainda estava muito escuro para já ser o despertador. Olho a tela do celular, 5:43, uma mensagem:

Analu.

FYI, já tem fila pro ingresso.

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