A distância da Lua

No primeiro parágrafo de Cem anos de solidão, o Gabriel García Márquez fez uma ótima definição para uma gênesis alternativa:

O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. (Cem anos de solidão)

Em 2004, pouco antes de estragar pra sempre meu julgamento literário com o incomparável cem anos,  li Cosmicômicas do Ítalo Calvino. Nessa época, eu passava muito tempo na biblioteca pública: ia prestar vestibular no final do ano (pela terceira vez) e convenci meus pais a me deixarem fazer o cursinho intensivo só no segundo semestre com a condição de, no primeiro, ir para biblioteca “estudar” durante no mínimo quatro horas todos os dias.  Por lá, toda semana eu pegava dois ou três livros emprestados e fiz uma rotina de ler contos sem levá-los para casa. Lia um conto (ou capítulo) por dia. Assim, foi em pé, junto às prateleiras empoeiradas, que li o conto da ilha desconhecida (Saramago), as Cidades Invisíveis (Ítalo Calvino), a Mulher Desiludida (Simone de Beauvoir) e as Cosmicômicas!

Em Cosmicômicas, é contada a história de diversas épocas antigas da formação da terra, por meio da narração segmentada de acontecimentos fantásticos. O personagem principal, recorrente nos contos, se chama Qfwfq, e o acompanhamos pelos tempos, alguns tão remotos, que nem a luz existia ainda. O meu conto preferido é um que tem pescadores invertidos, que “pescavam” pedaços da lua. Na época retratada, a Lua ficava muito perto da terra, e dava pra pegar pedaços esticando o braço. O conto dá pra ser lido nesta página daqui.

Gostava dessa história porque me lembrava outra, bem marcante na minha infância, sobre uma menina (ou era um menino?) que juntava um canudinho no outro, para chegar na lua e bebê-la como um milkshake.  Passei grande parte da minha infância juntando canudinhos, vendo até onde eles iriam. Lembro de guardar vários e levar para casa, mas acho que nunca cheguei a juntar mais de seis, e, se isso importa, o grande desafio era mantê-los numa trajetória reta.

Não sei se algum dia cheguei a desistir oficialmente de alcançar a lua, eu acho que não. Mas, agora que já sei de onde vêm os canudinhos e posso comprar um milhão deles, minha vida ficou científica demais e as possibilidades diminuíram junto com essa ciência. De vez em quando eu fico nostálgica da época em que eu era tão recente que, para alcançar a lua, eu só precisava de canudinhos.

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