Paris, je t’odeio (parte 3)

o pratinho de escargots

Os quartos ainda não estavam liberados, então a recepcionista pediu que eu aguardasse alguns minutos. Um casal de japoneses fazia o check in e, numa mesa ao fundo do hall, uma menina parecia esperar a liberação dos quartos também. Ela era muito branca, com cabelos escuros, lisos e oleosos na altura dos ombros, era pequena e não parecia ter mais de dezoito anos. Reciprocamente, me observava curiosa e, vez ou outra, desviava o olhar para a moça da recepção, que logo nos chamou. Com a chave do nosso quarto na mão, nos explicou que seria uma única chave que deveria ser deixada na portaria, e, apontando para a escada, informou que nosso quarto era no quarto andar – na hora do registro ela já tinha dado um cartão que serviria de controle de acesso ao hostel e nos permitiria recuperar a chave na portaria.   

A menina pegou a chave e começou a subir as escadas. Eu a acompanhei. Chegando no terceiro andar, ela entrou em um dos corredores, e eu tentei alertá-la que a moça tinha falado que era no quarto, mas ela parecia me ignorar enquanto olhava o número dos quartos. Não era lá, voltamos à escadaria. O nosso quarto era composto por quatro beliches, com colchões e cobertores finos, porém dormíveis. Também estava equipado com um aquecedor ligado a uma temperatura alta demais e uma pia com espelho, escondida por uma divisória. Eu tentei puxar assunto com a colega soltando o “oi, de onde você é?” de sempre, ao que a menina me respondeu com gestos e “nous” apontando para a boca, querendo dizer “não falo inglês”. Tentei perguntar se ela falava francês, no meu français basique e nada. Enfim, batendo com as mãos sobre minhas clavículas, arrisquei: “miii, Brasil” e apontei para ela, que, aparentemente muito a contragosto, rosnou um “Rrrrruuuuussssiannnn”.  Minha colega de quarto era uma russa que só falava russo e não fazia questão de se comunicar.

Ela saiu apressada assim que arrumou sua bagagem, levando a chave do quarto consigo. Eu saí logo depois de esvaziar minha mochila e deixar a roupa suja e as lembrancinhas do Porto embaixo da cama. Em cinco minutos estava na rua novamente, pronta pra fazer o roteiro turístico do dia, que incluía: louvre por fora, jardin des tuileries, praça da concórdia, champs elysee, arco do triunfo e torre. Mas antes, tinha que comer alguma coisa. Minha última refeição decente tinha sido o omelete do Piolho, na noite anterior. Eram quase três da tarde e eu não tinha almoçado ainda.

O restaurante da minha primeira refeição em Paris.

Nos meus momentos perdidos pela Rue Du Louvre, tinha visto um restaurante com promoção de $18 euros por entrada, prato principal e sobremesa, que achei justo – já esperava os preços absurdos de Paris. Consegui achá-lo novamente e um simpático garçom me acompanhou até uma mesa. Dentre as entradas, estava o “Assiette d’escargots au beurre d’ail poêlés”, e eu que nunca tinha comido escargots na vida fiquei toda feliz por poder ser minha primeira refeição em plena França.

No inglês com sotaque francês, ao qual ainda não tinha me acostumado, o garçom me explicou os pratos principais. A emoção com o escargot apagou da memória o resto do que eu comi por lá, mas lembro de não ter entendido o que vinha a mais num prato com frango e o garçom ter achado que eu não tinha entendido o que era chicken. Para me explicar, ele bateu os braços como se fossem asas, e fez “cocó” diante da minha expressão de absoluta incredulidade. ATÉ EM FRANCÊS EU ENTENDIA QUE ERA FRANGO, PQP. Acho que comi o poulet com o acompanhamento misterioso no final das contas.

O escargot não veio na conchinha, como eu esperava, mas num prato muito prático, em buraquinhos, mergulhado num molho de manteiga, ervas e alho, de modo que era impossível sentir nojo – não dava pra ver nada. Trouxeram o garfo especial, e lá fui eu pescar minhas lesminhas nos buracos do prato. Achei que estavam boas, com uma boa consistência e uma temperatura quentinha, mas não dava sentir nada além do gosto agradável do molho. Para pagar a conta, fiquei na dúvida quanto à gorjeta, resolvi arredondar o valor e parece que era isso mesmo.

percurso

Em dois minutos estava novamente em frente (de costas) ao Louvre. Andei pela lateral até chegar à pirâmide da entrada, onde sentei para descansar em um dos banquinhos, enquanto observava o movimento da turistada japonesa e brasileira. Me sentia oprimida pelas construções altas e estava começando a ficar magoada com Paris. Não dava pra dar dois passos sem tropeçar em cinquenta turistas, e isso porque nem alta temporada era. Mas ok, iria continuar o passeio porque a caminhada seria grande.

Depois de passar en passant por algumas das pontes sobre o Sena e ver os cadeados dos namorados nas grades, entrei no Jardin des Tulieries. Eu estava toda aparatada com a câmera semiprofiça que emprestei do meu pai, o casacão de neve que não deixava uma ínfima brisa entrar, a pochete íntima para dinheiro e passaporte e a mochila surrada. Me sentia um pouco como aquela turista que faz a redação no Paris, eu te amo, exceto pelo fato de que tinha comido escargot e não comida chinesa e não estava tão entusiasmada com a cidade.

O jardim, seco de fim de inverno, exibia as árvores desfolhadas que davam um ar trágico para paisagem, mas eu achava bonito. Para variar, era muito grande e repetitivo e, como eu enjoo facilmente daquilo que é só bonito, enjoada da paisagem fiquei. Fui andando com um pouco de tédio e algum arrependimento pela máquina fotográfica ser tão grande e pesada. Mas, apesar dos poréns, dava para entender porque Paris era um bom destino para os românticos e recém-casados. Ali parecia um ótimo lugar para ter longas conversas sobre o futuro, e parar de vez em quando pra ver alguma fonte ou paisagem, ou algum prédio-igual-a-todos-os-outros. Era possível alugar charretes românticas para fazer o trajeto que deve ter bem lá seus uns quilômetros.

ache a torre

Foi entre os galhos secos das árvores do jardim que a vi pela primeira vez: alta, morena e longilínea. A torre. E eu não senti nada de especial. Só lembrei do comentário de uma amiga que falou o quanto ela sempre parece perto, mas que estava longe, muito longe. Continuei o trajeto até chegar em algo, quase na saída, que realmente despertou meu interesse: o banheiro. Por alguns centavos de euro (ou era um euro e cinquenta?), pude usá-lo e renovar as energias para o resto da longa caminhada.

‘mó louco’

Na saída do jardim, estava a Place de La Concorde, onde um trio de adolescentes brasileiros observava o obelisco de Luxor, um enorme pirulito da praça 7 ornado com hieróglifos dourados. Uma no grupo comentava: “Sabia que Napoleão roubou isso lá do Egito?”, ao que o outro respondeu: “Cara, ele era mó louco, num era?”. É, Napoleão era mó louco, mas eu não estava certa de que tinha sido ele a trazer o obelisco. A Wikipédia iria confirmar minha dúvida posteriormente. Tropeços históricos à parte, o obelisco era a coisa mais bonita que tinha visto até então e poderia ficar horas olhando os desenhos – mas tinha outras coisas para ver.

Entrei, então, na Champs Elysee, a avenida com as lojas bacanudas. Lojas que eram a última coisa que eu, minha carteira limitada e minha mochila superlotada queriam ver. Depois de recentemente ter feito uma sessão de desapego e com a pretensão de acumular cada vez menos coisas, as grandes fachadas de grifes de todos os tipos só me deixavam com o estômago um pouco embrulhado. Abri uma exceção para a loja da Disney. Queria contar para o meu sobrinho como era. Por lá, fantasias e apetrechos dos heróis dos desenhos cobriam as paredes e fiquei com vontade de levá-lo para ver. Mas foi só. Nem na Virgin Records quis entrar. A avenida estava movimentadíssima e me deixava cada vez mais irritada e enjoada– e não era das lesminhas no almoço. Paris estava me fazendo mal.

Ao chegar no arco do triunfo, minha irritação era tão grande que nem achei a construção lá essas coisas. Um arco altão e meio fino, com umas esculturazinhas aqui e ali e uma horda de turistas dependurada nos parapeitos do andar de cima. Em menos de cinco minutos e uma dúzia de fotos, dei as costas pro arco (“poupe-me”) e peguei a avenida Kleber que iria até a torre. Tinha mais uns três ou quatro jardins e palácios no plano, mas já considerava pular tudo e ir direto para a torre esperar minha hora de subir, só por já ter marcado. Calculava mentalmente a probabilidade de arranjar um voo na manhã seguinte e fugir daquela cidade – estava com um nó enorme na garganta, a ponto de chorar.

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