Paris, je t’odeio (parte 5)

A fila do elevador que levava à saída estava razoavelmente curta, daria para entrar no próximo, que chegaria em uns dez minutos. Logo atrás de mim, três brasileiras de meia-idade conversavam alegremente sobre a excursão que faziam, se referindo a uma quarta que não estava presente. Contavam que essa quarta tinha reclamado de cansaço ao andar pelo museu, mas, para ficar duas horas dentro das lojas da Champs Elysees, ela tinha energia. Riam-se à beça.

O elevador da volta não teve a graça do da ida, eu estava me distanciando da vista terapêutica da cidade e voltando aos meus odiados companheiros turistas, que aguardavam sua vez de subir. Logo na avenida lateral, havia placas indicando uma estação de metrô próxima que eu, uma numerosa e ruidosa família de brasileiros e o casal lésbico da fila de entrada seguimos mais ou menos cúmplices.

A dinâmica da família brasileira era típica de final de programa de domingo, o pai estava nervoso com alguma coisa, a mãe estava nervosa com algum filho, um tio e uma tia faziam contas de gastos, e os filhos, meninos e meninas, pareciam extremamente cansados. A família acabou se perdendo em algum lugar do caminho, que era um pouco mais longo que o previsto, e eu achei mais confiável continuar seguindo as placas e o casal lésbico. A estação de metrô (ou RER?) em que chegamos era parte de um prédio de lojas que, àquela hora, não estava funcionando. A galeria estava silenciosa e adornada com um ou outro personagem mal-encarado encostado nas paredes. Fosse pela terra mãe, diria que estavam esperando a próxima vítima. Não fui eu.

Entrei num vagão que tinha mais meia dúzia de ocupantes e observei cativada a paisagem pela porta. O trem ia por cima da terra. Decidi descer na parada Chatelet que teoricamente era ainda mais perto do hostel. Depois de muitos minutos andando pela estação, que é enorme, consegui sair, mas não tinha muita noção de onde estava. Tentei me guiar pelos nomes de ruas conhecidas e cheguei até a rua do hostel. Ele tinha desaparecido. Sério. A rua acabava e o hostel não estava lá. Lembrei de uma vez que tive que ir numa rua em belo horizonte, que acabava e, depois de um quarteirão fechado, continuava do outro lado. Dei a volta no quarteirão onde a rua não estava e, chegando do outro lado, ela continuava não existindo!

Antes de pedir informação ou entrar em desespero, ainda um pouco leve do efeito Eiffel, rodei pelo início de vida noturna da região. Fiquei animada com o que vi, Paris à (meia?) noite era bem mais agradável do que a versão diurna de inferno de turista na terra.  Vários barzinhos com música, gente de verdade na rua, vida pelos prédios. Andei por quase duas horas nas redondezas, me orientando pelos mapas nos displays de algumas esquinas.

Além dos bares, achei uma loja natureba simpática e comprei um suco de beterraba batida com outra coisa estranha e uma salada linda para a janta – outra coisa sobre Paris até então: a apresentação da comida parece importar muito mais do que importa por aqui, tudo é muito bonito, desde a embalagem à confeitaria e, além disso, pelo menos o que eu comi não só era bonito como estava ótimo.

A rua do hostel e sua idiossincrasia.

Depois de um tempo de contemplação que pareceu satisfatório, tive que me desesperar um pouco antes de finalmente reencontrar a porta do hostel. Por lá, um novo recepcionista organizava alguns papéis. Lembrei do cartãozinho que daria acesso ao quarto, e, para variar um pouco, não achei na bagunça da mochila. Depois de muito procurar, desisti e fui negociar minha entrada. O recepcionista perguntou sobre um papel de recibo, se estava comigo, e não, também tinha ficado no quarto. Ele parecia menos agradável que a que tinha me recebido à tarde, e, depois de muitos poréns, resolveu autorizar minha entrada.

Um tanto distraída com um anúncio de internet wi-fi sobre o balcão, perguntei como seria a multa pelo cartãozinho, ele me respondeu serenamente: “Amanhã, quando você fizer o check out, você informa a perda…” ao que eu repliquei: “mas não farei check out amanhã, ainda tenho mais uma diária”, e ele, sem alterar o tom de voz, matou qualquer leveza que ainda sentisse pós-torre: “então, é que provavelmente amanhã estaremos lotados e você terá que ser transferida para a outro hostel”.

WTF

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