Amor pelas gramáticas

Quando entrei para a pós de Revisão de Textos, lá no início de 2010, eu achava que, dentre muitas coisas, iria aprender direitinho a gramática para aplicá-la em todos os textos que revisasse (ou escrevesse). Mas, já na terceira aula do primeiro dia, meu mundo caiu.

Um professor passou um questionário em que perguntava objetivamente: “quais gramáticas você tem?”, “quais gramáticos você conhece?”, e eu, vinda do jornalismo, no meio do mar de pessoas de letras, achei que tinha uma gramática e meia em casa. E não sabia o nome de gramáticos, muito menos o da gramática que eu achava ter. Ou melhor, sabia o nome de um sim, o Pasquale. Afinal, aquilo era um gramático, não era mesmo?

Eu tinha a noção da multiplicidade da língua, aquela coisa de desvio padrão culto, língua coloquial, dialetos, etc. Mas achava que, quando se falava em desvio padrão da língua, era um consenso. Pensava que uma malha de regras consistentes segurava algo que podia ser taxado de correto. Consequentemente, acreditava que eu poderia aprender a língua culta em sua totalidade.

Tudo degringolou quando eu conheci os gramáticos (das gramáticas normativas mesmo, nem fui tão longe). E me apaixonei por suas gramáticas, aprendendo a lê-las e a aprender com elas. O que antes eu achava que seria um material para consulta, se transformou na minha leitura de cabeceira.

Naquele primeiro dia de pós, chegando em casa, corri para conferir o nome da gramática que achava que tinha. Para minha surpresa, não era uma gramática. Era o Novo manual de português do Celso Pedro Luft. A outra que eu achava que tinha era um livro didático que ganhei da minha professora de português na oitava série.

Imediatamente, comecei a pesquisar os preços e a programar a compra… Com a mensalidade da pós, não daria para comprar naquele mês, mas, em breve, teria minha primeira gramática de verdade. Escolhi a do Bechara por dois motivos básicos: primeiro, ele era o único gramático que tinha participado na definição do novo acordo ortográfico. Segundo, eu escutei errado uma colega de curso mais experiente que falava de como a gramática do Cegalla era boa para consulta.

Na época, meu pai pensava em prestar vestibular novamente e, por pura sorte, comprou uma gramática de peso: a nova gramática do português contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra. Seria nela que eu estudaria durante os primeiros meses de pós. Bem mais barato, consegui comprar também o O que muda com o novo acordo ortográfico, do Bechara. E fiquei feliz, uma fonte a mais de consulta para as eternas questões dos hífens, que, em alguns casos, são resolvidas no cara ou coroa mesmo.

Mais pro fim do primeiro semestre, quando finalmente comprei a Moderna Gramática Brasileira do Bechara, já tinha judiado bastante do Celso Cunha. E me surpreendi ao encontrar, dentro daquela linda capa branca coloridinha, uma gramática viajada até dizer chega, cheia de teorias alternativas e textos densos. Definitivamente, esta não é uma gramática de fácil consulta, ela tem uma personalidade mais enigmática. E isso não quer dizer que seja uma gramática ruim, muito antes pelo contrário, é minha preferida das atuais, mas não dá para contar 100%. Se você procurar uma resposta sobre alguma vírgula mais difícil de ser justificada, ela olhará fundo em seus olhos e dirá: “pode ser, mas também pode não ser, só sei que foi assim”.

Depois da gramática do Bechara, precisando de um pouco de chão, comprei o Dicionário de dificuldades da língua portuguesa do Cegalla e a Gramática normativa da língua portuguesa do Rocha Lima.

O dicionário é uma diversão infinita. Ele consegue reunir todas as dúvidas que existem (pelo menos, nunca houve uma dúvida minha que não estivesse lá objetivamente solucionada) e até coisa que você nem sabia que não sabia e existia para ser sabida. Abri uma página aleatória e encontrei o seguinte verbete:

ó, oh. 1. Grafa-se ó antes de um vocativo, para chamar; interpelar; invocar: “Ó Gondin, eu precisava falar com você.”  (Graciliano Ramos) […] 2. Escreve-se oh! Quando se trata de exprimir alegria, tristeza, lástima, surpresa, repulsa, admiração, etc.: “Oh! Que linda paisagem!”.

A gramática de Rocha Lima, por sua vez, levou minha relação passional com as gramáticas a outro nível: foi com ela que eu chorei pela primeira vez lendo uma gramática. Aconteceu no final da parte bibliográfica da seção “Dados biobibliográficos do autor”. Sem um aviso prévio, quem escreveu (não está identificado), me solta essa:

Morreu aos 22 de junho de 1991, na Casa de rui Barbosa, entre seus pares do Círculo Linguístico. Fazia conferência sobre poema de Manuel Bandeira. Só a morte súbita interrompeu-lhe a palavra: morreu vivo.

Engasguei no “morreu vivo” que, afinal, é tudo que eu desejo para a minha vida e, por que não, para a de todo mundo.

Foi quase no final de 2010 que finalmente adquiri a ultradidática gramática do Cegalla, a mais quadradona e cara de todas elas. Ao mesmo tempo, é a que me fornece o mais objetivo material para consulta – e exercícios de concurso para quem quiser praticar. Também surrupiei uma coleção do Pasquale dos meus pais, só para fins de divertimento.

Apesar de volumosa, minha coleção ainda não era suficiente. Faltava um último sonho de consumo para que eu acalmasse minha sede gramatical. Naquele primeiro semestre de pós, o mesmo professor do questionário trouxe para a sala uma gramática especial. Ela era a primeira gramática da língua portuguesa, de 1536. A nova edição era de uma universidade de Lisboa e trazia o texto transcrito e traduzido na medida do possível, sem apagar as gracinhas da época, e, depois da transcrição, vinham fac-similes do original.

Era a coisa mais bonita que eu já tinha visto na vida. A partir do primeiro momento em que a vi, a quis, e jurei pra mim mesma que um dia iria para Portugal e encontraria essa gramática. O professor contou que a conseguiu por acaso, numa banquinha de sebo em Lisboa, e não tinha visto mais em lugar nenhum. Não sei se foi o efeito de tantos olhos gordos, ou se foi a falta de noção do professor que a usou como suporte pro projetor, mas, ainda naquela aula, o superaquecimento do aparelho abriu um rombo queimado na capa da primeira gramática da língua portuguesa.

Em fevereiro de 2012 eu estava em Lisboa. Não tinha conseguido visitar a Lello e Irmão no Porto, mas estava na Ler devagar, que também figurava na lista das livrarias mais bonitas do mundo. Eu passava os olhos descompromissadamente pela estreita estante dedicada à língua portuguesa. Tinha certeza de que ela estaria lá. Puxei a lombada branca um pouco encardida e não pude evitar o nó na garganta ao ler, na capa, “Fernão de Oliveira – Gramática da Linguagem Portuguesa (1536)”.  Minha coleção, por ora, está completa (mesmo que existam mais um milhão de gramáticas no mundo!).

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