Paris, je t’odeio (parte 6)

Paralisada diante da possibilidade de ter de mudar de hostel no dia seguinte, mantive-me catatônica por tempo o bastante para que o recepcionista terminasse o que estava fazendo e voltasse a completa atenção a mim. “Mas… a outra recepcionista… disse que…” Ele apenas me informa que eu deveria conversar com ela, bem de manhã. Com a perda do cartãozinho de acesso pesando contra mim, concordei em esperar o outro dia e comprei o cartão para acesso ao wi-fi por três horas.

Sentei-me em uma das mesas do hall de entrada e abri minha linda salada e meu suco de sabor exótico. Ao pegar o celular na mochila, acho o maldito cartão de acesso ao hostel. Tentei chacoalhá-lo para o recepcionista, para provar que eu não era irresponsável, mas ele me ignorou. Depois de engolir a raiva e a refeição, subi para o quarto, onde bati na porta uma, duas e três vezes. Nenhum sinal de vida. Aparentemente minha colega de quarto não estava lá. Talvez a russa tivesse levado a chave para a rua. Desço os quatro andares, e pergunto novamente para o recepcionista, que me responde, com a mesma irritante constância de sempre, que a minha colega estava no quarto sim, mas se eu quisesse eu poderia aguardar no hall. E que não, não havia nenhuma chave extra. Maravilha.

Resolvo voltar ao quarto e insistir mais, quem sabe ela estivesse dormindo. Quatro andares mais tarde e quase uma porta derrubada depois, não deu outra. Com uma camiseta-camisola, a russa pouco simpática abre a porta e, num meio-termo entre a careta pelo contato com a luz do corredor e uma careta de irritação mesmo, estende a chave em minha direção, aponta para ela e, em seguida, para mim e faz o sinal universal de pergunta, colocando a palma da mão para cima, como quem dissesse: “Onde está a sua chave?”. Com o olhar chamuscando de ódio, aponto para a chave, faço circulos grandes com o dedo indicador, para identificar o quarto, e sinalizo o número 1, comunicando claramente: “SÓ TEM UMA PARA O QUARTO, IDIOTA, NÃO ENTENDEU AS INSTRUÇÕES DA RECEPÇÃO?”. Claro que a russa que só fala russo não tinha entendido. Uso quinze minutos da internet do cartão no telefone e caio no sono.

Acordo às 7h15 da manhã seguinte. A russa já escovava os dentes na pia do quarto, ela sai antes de mim para o café e, por milagre, deixa a chave no quarto. Desço logo em seguida e vou para recepção, onde a mesma moça do dia anterior rearranja os quartos, manuseando uma pilha de papéis. Ela pede para que eu volte em meia hora, porque só aí ela terá noção dos quartos vagos. Tomaria meu café muito mais tranquila se estivesse com o assunto resolvido, penso, mas me encaminho para o refeitório.  Na porta, um senhor trajado com vestes idoso-hipster (ou apenas de um francês típico) lê uma HQ com atenção. Ao perceber minha presença, solta um bon jour muito animado e simpático e confere o cartão de acesso ao quarto, me desejando uma boa refeição.

A russa já está sentada numa das mesas e uma dupla de loiros se serve na fila. A primeira etapa para conseguir a comida é pedir algo para uma mulher numa janela, chuto que é café, mas não há canecas, xícaras, ou copos, apenas grandes tigelas para cereal. Os escandinavos da frente estendem as tigelas que a mulher traz de volta com algo dentro.  Na minha vez, entendo que ela pergunta “café ou chocolat“. Escolho o chocolat. Ela enche a tigela com chocolate quente e meu coração fica aquecido com a abundância. O buffet também é bem farto, com pães, geléias, manteiga, queijos, e outras coisinhas. Pego meu pãozinho, geléia e um queijinho e tento, pela última vez nesta encarnação, estabelecer algum contato com a russa.

Mal me assento na mesa em que ela estava e ela se levanta. Fazendo um esforço sobrenatural (fiquei até com medo de que explodisse algum aneurisma no cérebro dela, ou coisa parecida), ela diz: “bon appetit“.  Em seguida, fala uma frase em russo, que eu não entendo. Então, ela repete a palavra “ключ” algumas vezes (kluch! kluch!) e faz um gesto que identificava ou a abertura de uma porta com chave ou o desentupimento de cano. “Ah! The key!”, refaço o gesto e digo “Qui-ííí” tentando incluir uma palavra no repertório da colega, que me ignora. Aponto então para a recepção, tinha deixado a chave por lá. A russa vai embora. Já sei uma palavra em russo, cantarolo mentalmente enquanto tento descobrir uma forma civilizada de beber o achocolatado na tigela de sucrilhos.

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