Outro ao fim do dia

Depois de ler este texto aqui sobre um fim de dia em BH, fiquei inspirada pra escrever um também!

 

E é bem depois da última nota de música clássica e do derradeiro pouso de gotas na fonte central que, de banho tomado, homens e mulheres lotam novamente aquilo que já foi exclusivamente um campo aberto de atividades ilícitas. Não que elas não existam agora na Raul Soares, mas, pelo menos, têm como companhia tantas outras menos perigosas. Observem, por exemplo, aquele rapaz de vinte e tantos anos que aguarda enquanto seu grupo de amigos se reúne. Ele flana descompromissadamente, por entre traficantes e prostitutos, olhando o celular com insistência, em busca de notícias de um e outro que ainda não chegou. ‘O Wesley tá sem crédito, você tem? Envia mensagem! Avisa que a gente tá no Diva’, ele pede, enquanto encaminha o grupo para o barzinho da esquina. Num reflexo rápido, evita que um dos amigos seja atropelado por uma moto.  ‘Cláudio! Larga desse celular e presta atenção na rua!’, ‘Uai. Eu tava mandando a mensagem!’, ‘Afes’.

Nas mesas dispostas pela calçada, todo tipo de gente se diverte. Grupinhos de menores de idade histéricos circundam os quarteirões próximos, trocando olhares maliciosos. Mas ele não se preocupa tanto com esses menores, sente pena mesmo dos moleques sonolentos, apoiados sobre mesas movimentadas vez ou outra pelo tranco dos cascos de cerveja esvaziados por mães ruins. Mas não há nada que ele possa fazer, suspira. O Wesley vai chegar a qualquer momento, e daí vão ele, o Cláudio, o Wanner, o Marcos e o Vinni pro karaokê da Rio de Janeiro.

Por lá, ainda é cedo e apenas três mesas estão ocupadas. Duas por casais, e outra por um grupo eclético que poderia muito bem ser de alguma igreja da região. Na entrada, em uma judiada folha de papel A4, lê-se “Respeite! Ambiente família!”. Não há nada melhor para definir o karaokê que é, definitivamente, um ambiente família e, mais do que isso, familiar – no mesmo salão estão reunidos, como num almoço de domingo: o garçom homofóbico, que vez ou outra passa torcendo o nariz pro Wanner e Marcos de mãos dadas; o garçom gay, que belisca a cintura do cliente ali, para pedir licença e passar o microfone pra outra mesa; e o segurança mal encarado que guarda a porta durante toda a noite.  Além desses velhos conhecidos, o Vinni reconhece também um dos casais e vai até a mesa cumprimentar. Na verdade, não é bem um casal, eles são apenas amigos, e o cara dá um show cantando New York, New York com coreografia, relata o Vinni – ‘a perna dele vai lá no alto!’. Os amigos ficam na expectativa, parece que a música está na lista para ser cantada.

Quando todo o grupo já está bem acomodado, com o menu de músicas e as caipirinhas azedas em mãos, uma moça da mesa eclética pega o microfone para cantar. “Baianidade nagô”. ‘É… Não devem ser evangélicos’ lamenta Wesley, que tinha suposto a origem da mesa. Aos primeiros acordes, o casal que era casal de verdade começa a se abraçar e se beijar, sem muito pudor. A mulher é bem gorda, de pele morena bronzeada e veste um top rosa com alças trançadas que pressionam as adiposidades costais, apresuntadas. O namorado tem um porte armarístico, com braços musculosos e a aperta como se o mundo estivesse no fim. ‘Cobicei’. Ele reflete, sem desviar o olhar dos músculos abundantes, ignorando completamente a coreografia animada que seus amigos fazem enquanto entonam as notas carnavalescas junto à colega da outra mesa ‘Curtindo minha baianidade nagô ô ô ô ô’.

Quando finalmente consegue desgrudar a atenção do romance alheio, ele recosta a cabeça numa das grandes janelas que dão para a rua, reflexivo. ‘Eu queriaaaa… que essa fantasia fosse eterna…’. Observa os prédios residenciais do entorno que vão aos poucos perdendo a luminosidade fenétrea, enquanto as guaritas dos porteiros ganham um tom batmeo cada vez maior. Tenciona, então, aspirar profundamente o aroma urbano daquele momento, mas engasga com o excesso de urbanidade liberada por algum desavisado que abriu a porta do banheiro masculino. ‘Poxa tiozão do karaokê, nunca ouviu falar de desinfetante!’ Pensa, quase alto, e dirige o olhar enraivecido pro careca de barriga saliente no caixa, responsável pelo estabelecimento.

É acordado do transe odorífero pela primeira música que tinha programado para cantar com os amigos, ‘Joanna – Tô fazendo falta’. Naquela noite, serão muitas ainda as músicas cantadas. Exausto, porém feliz, terá que cancelar pedidos porque não dará tempo de cantar tudo quanto gostaria. Depois de deixar o bar, combinará a ida a uma boate, provavelmente na Savassi, e, enquanto o Wanner e o Marcos desistem do novo programa (afinal, casais morrem cedo) ele atravessará a rua pensativo, se questionando se o saldo da noite valerá o preço do taxi de volta.

 

 

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