Sobre o amor

Eu estava pensando… Sabe aquele instante na vida em que você para de achar que tem todo o tempo do mundo e começa a temer que o tempo passe rápido demais e que não dê para fazer tudo o que quer fazer? Acho que cheguei nesse ponto.

Você transforma a atenção que me dirigia em uma sonora gargalhada.

Eu estou falando sério.

Então, você contrai o rosto para controlar o divertimento e fazer de conta que me leva a sério. Não acho justo acabar assim com o seu sorriso, eu gostaria que você continuasse rindo, continuasse não me levando a sério. E apenas ficasse ciente de que era um problema real sobre o qual eu estava refletindo quando você chegou de surpresa e me deu um abraço. E também que soubesse que eu me levo a sério, mas não ligo se você não me levar, acabo achando que você é quem está com a razão e talvez eu devesse aprender a ser mais leve. Mas é muito pra mim no momento, então continuo com o meu drama existencial.

É engraçado como aconteceu de uma hora pra outra, estava aqui sentado no banco, olhando os meninos jogarem bola e, de repente, vem essa pomba e caga no meu ombro.

Aponto pro ombro cagado, que tentei (sem sucesso) limpar com uma folha – você retoma a risada e se desculpa, voltando à expressão de prisão de ventre.

Foi aí que comecei a pensar que eu já tenho sonhos que não vão poder ser realizados, assim, de jeito nenhum. “Ah, isso não é verdade, dá um exemplo de sonho que não vai poder ser realizado”. Ser o cara mais novo a ganhar o Nobel de literatura.

Vem você novamente com a risada, a fazer pouco caso de mim (e da mesquinharia desse meu sonho e talvez de todos os outros), e se desculpa uma vez mais – não sei porque insiste em fazer isso, você quase sempre tem razão.

Isso não vem ao caso, acontece que o fim da vida, a aposentadoria, minha morte lenta e solitária num leito de hospital ganharam contornos reais, de repente. “Tudo isso por conta da caca de pomba?”. É um jeito de olhar pra situação. Mas foi mais por conta da inevitabilidade das coisas, não posso fazer nada para mudar o que já está em curso e o tempo anda contra mim, assim como as pombas. “Minha avó costuma falar que…”

E eu sorri porque costumo gostar de quando você conta as histórias da sua avó. Então, você engasgou com o meu sorriso (eu gosto quando você faz isso também, assustar quando eu tenho alguma reação imprevista). Acho que pode ter pensado que eu estava sendo irônico, mas juro que não. Desengasga e conta logo a história da sua avó, que, no momento, é o que eu mais quero ouvir.

“Então, a minha avó diz que…”

E você conta uma história maravilhosa que parece nada ter a ver com o meu problema real, até que, numa última frase, faz todo o sentido do mundo. E a pomba descaga, o tempo anda mais devagar e os sonhos parecem possíveis novamente. Eu te amo.

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