As 5000 camisinhas, o arco-íris e a prostituta

O meu primeiro estágio remunerado foi num projeto de pesquisa de prevenção ao HIV da faculdade de medicina. Trabalhava na comunicação com os voluntários – homens gays, bissexuais e travestis.  Num fim de semana antes do carnaval, fui para a sede de uma ONG participar de uma força-tarefa pra empacotar 5000 camisinhas que seriam distribuídas no concorrido (cof cof) sambódromo belorizontino.

linha

A missão era simples: colocar os pacotinhos de camisinha em caixinhas com instruções sobre a prevenção.  Na pequena casa suburbana, estavam reunidos um dos voluntários mais antigos e engajados do projeto, uma colega e dois membros da ONG. Montamos um esquema fordista em que um abria caixinhas, outro colocava a camisinha dentro e outro fechava. Alguns pacotes de camisinha estavam rasgados, o que fazia com que o lubrificante melecasse tudo e nossas mãos ficassem escorregadias, interrompendo a linha de produção de tempos em tempos para nos limparmos.

A tarde ia monótona, em meio a casos de um dos membros da ONG que já tinha sido infectado por todas as doenças sexualmente transmissíveis catalogadas, parcialmente por ter sido usuário de drogas injetáveis, mas, por algum milagre, tinha passado ileso pelo HIV. Ele narrava detalhes de sua vida louca, vidaaa. Numa pausa para o café, o voluntário engajado chamou a todos para ver um arco-iris que tinha se formado no céu, nada mais adequado – momento oinnn coletivo.

arco iris

O trabalho demorou mais do que o previsto e já era noite quando voltei pra casa. Meu orçamento era para voltar de ônibus, mas o lugar onde a ONG ficava não era muito convidativo para esperar num ponto, então fui arrastada para rachar um taxi com a trupe. Combinaram com o motorista de levar todos para a Rua da Bahia, perdi parte da negociação e achei que o taxi me deixaria na Rua da Bahia próxima a minha casa.

Quando o taxi parou num lugar do centrão, bem longe, e todos desceram, fiquei com cara de cachorro abandonado. Quebrada e sem dinheiro, minhas moedinhas foram todas para a vaquinha do taxi e eu precisaria que ele me levasse mais a diante. Com pena, mas resmungando muito, o motorista concordou em me levar para perto de casa, não sem antes, num sinal no caminho, parar para combinar um programa com uma prostituta. Depois de se cumprimentarem como velhos conhecidos e conversarem amenidades, ele pergunta sobre a disponibilidade da moça e pede “Dois minutos e já volto”, ela sorri.

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