A lagarta e o horário de silêncio

Num réveillon, decidi inovar e ir prum retiro espiritual. Isso foi bem antes da Índia surgir na minha vida (e, para todos os efeitos, a Índia ter surgido não tem nada a ver com elevação espiritual). O retiro ficava numa cidade no interior de São Paulo e oferecia horários extensos de meditação, refeições zens e aulas de ioga. Das 9 da manhã às 6 da tarde, era proibido conversar. A proibição era para qualquer comunicação verbal ou não-verbal, de forma que não era permitido nem contato visual nesse horário.

Um casal com (codi)nomes hindus chefiava o local. A mulher parecia uma legítima indiana, com sotaque e tudo, e estava cuidando do filho recém-nascido. O marido era um português que tinha encontrado iluminação e perdido uma perna, não lembro muito bem se uma coisa estava relacionada com a outra, mas ele se virava bem meditando com a perna-mecânica. Uns três cachorros guardavam o sítio e vez ou outra a mulher chamava aos gritos o nome do menos comportado: Shiiiiiiva!

Cheguei numa quarta e passei quinta e sexta praticamente sozinha. Contrariando o regulamento do lugar, ligava meu telefone celular e conversava pelo Facebook, inclusive durante o horário de silêncio #vidaloka. Como estava sozinha num quarto coletivo, me enfiava debaixo do edredom para que a iluminação do celular não despertasse suspeitas durante a noite. Em vez de elevação espiritual, desenvolvi uma paranoia de que a qualquer momento iria ser descoberta e expulsa do sítio.

Também não me adaptei muito bem às atividades contemplativas. Não que tenha me esforçado muito: fui à meditação uma vez mas, depois disso, ignorava o soar do gongo às 5 da manhã e continuava dormindo. Porém, ficava atenta para acordar com o gongo do café da manhã, às 8 – perder a primeira refeição do dia significava não comer nada até às 2 da tarde, quando o almoço era servido.

No fim de semana, mais gente chegou ao lugar e ganhei uma colega de quarto, o que me impediu de conversar no Facebook. Uma segunda colega chegou durante o horário de silêncio e teve que se virar com o nosso aparente desprezo (sem contato visual). Como acontece quando não se tem nada a fazer a não ser ficar em silêncio, dormimos muito cedo e muito.

A moça que tinha chegado no horário de silêncio nos acorda desesperada no meio da noite: ela tinha pisado em um bicho e seu pé estava inchado e doendo. Apesar de sofrer calada por 40 minutos (!!), resolveu nos acordar porque bolinhas roxas começavam a aparecer no dedão – seria bastante irônico mais uma perder a perna por ali.

Conseguimos acordar o caseiro do sítio, um homem que trabalhava por lá em troca de casa, comida e iluminação. Ele foi chamar seu chefe que levou a colega prum hospital de emergência, em que rapidamente a dispensaram com um “provavelmente foi uma lagarta, não vai acontecer nada, deixa eu ir cuidar do paciente baleado aqui”.

No dia seguinte, outra mulher chegou ao sítio. Mais velha, ela parecia não entender muito o conceito de silêncio e não parava de falar por um segundo. Foi quando aprendi que ela e a chefa do sítio foram vizinhas em uma cidade da região metropolitana da capital paulista, cidade aliás em que a chefa nascera e vivera toda a vida, e que as duas viajaram juntas pra Índia num pacote ótimo da CVC.

A passagem de ano foi passada dormindo, como 90% do tempo por lá. Como o retiro ficava em um condomínio com muitos outros sítios, o sono do réveillon teve como trilha sonora clássicos do É o tchan e hits da época, destaque para Ai se eu te pego, tocado à exaustão em um vizinho, além dos fogos na madrugada. Fui embora fugida um dia mais cedo do que o previsto e aproveitei a carona de volta à civilização com a moça que tinha pisado na lagarta.

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