O show do Chico Buarque

* O show do Chico Buarque é um exercício de escrita em forma de fanfic adolescente baseada em músicas do Chico. Os trechos são publicados no blog e atualizados por aqui.

Capítulo 1 – Carolina (completo)

– Nova turnê? Não sabia que ele tinha lançado disco no…

– Nem posso acreditar! – me interrompeu, aguda, uma amiga da Analu, contraindo o rosto inteiro em um sorriso e apertando os punhos contra o peito. Ela estava realmente empolgada. – Consegui comprar pela internet! – deu gritinhos de excitação – Os lugares não são ótimos, mas é o Chico, né?!

“É o Chico, né” aquele excesso de intimidade com um artista tão credenciado reverberou na minha mente.  Era mesmo o Chico. Ele, que canta todas aquelas músicas bonitas, que mexe com o coração de umas quatro gerações de mulheres mal e bem amadas. Mas que, ultimamente, estava mais dado a escrever bons livros do que boas músicas.

– Poxa, acho que vou tentar ir também… – falei por falar.

– Os ingressos já estão esgotados. – sentenciou a amiga, em um tom que me pareceu arrogante. Ainda mais arrogante do que a completa indiferença que os outros dois amigos da Analu tinham direcionado a mim durante todo o tempo. Era como se eu não tivesse o direito de querer ir ao show, já que não tinha acompanhado as notícias sobre as filas quilométricas para compra de ingresso ou o martírio que foi enfrentar o sistema de compras online.

– Ah, melhor assim, eu economizo… – disse, já me afastando, enquanto a escutava  enumerar para Analu as músicas que queria que o Chico cantasse.

Olhei em volta, provavelmente existiria uma rodinha mais amistosa na festa. Pessoas sorridentes com quem eu pudesse conversar sobre como fui relapsa com as notícias da nova turnê do Chico Buarque, sem me sentir culpada. Mas o cenário não era animador. As mesas estavam ocupadas por sonoras e herméticas rodas de amigos de infância, a fila do único banheiro disponível estava longa, mas nenhuma das pessoas por lá conversavam entre si.  A Analu continuava escutando a menina do Chico, e os outros dois amigos, que tinham ignorado minha presença enquanto eu estava lá, pareciam muito interessados na discussão da setlist.

Em uma última tentativa desesperada de me comunicar com outro ser humano, fui ao bar improvisado num canto mais sombrio do jardim em que acontecia a festa. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a bartender, rudemente, me esticou um copo plástico com um líquido vermelho dentro que, muito provavelmente, deveria ser destinado a outra pessoa. Provei a bebida com cautela. Não consegui definir se era uma espécie de groselha com vodka ou um suco artificial não-alcoólico de sabor indefinido. De qualquer forma, não estava bom e a bartender obviamente era mais uma que me desprezava.

Logo troquei a necessidade de fazer contatos com desconhecidos pela vontade de me desfazer do copo sem muito estardalhaço – não queria ser pega matando plantinhas inocentes ao despejar aquele líquido potencialmente cancerígeno numa parte do gramado.Muito menos queria ser flagrada  pela dona original da bebida – as pessoas por ali pareciam cada vez mais ameaçadoras. Para minha surpresa, apesar da decoração modernete, dos poderosos canhões de luz, dos trezentos designs diferentes dos copos plásticos, não existia uma única lata de lixo decente naquela festa. As mesas eram zonas de perigo social e a fila do banheiro tinha crescido ainda mais, mas permanecia silenciosa. Paranóica, decidi ir embora, nunca mais a Analu me arrastaria para essas enrascadas. Tentei olhar o número do taxi no celular, mas minha cabeça começou a girar.

– Rita! Rita! – a voz da Analu parecia distante, eu reunia forças para abrir os olhos. Um branco intenso me cegou, mas, vagarosamente,  formas começaram a fazer sentido. Eu estava sentada e alguém segurava minha cabeça, era Analu. Um dos amigos dela que me ignorava estava sentado numa bancada, olhando entediado em minha direção. Era como se não olhasse para mim, como se eu fosse invisível, e ele estivesse apenas fixando o olharnum ponto qualquer.

– Não sabe beber, isso que dá. – a voz, desta vez, não era a da Analu, mas parecia familiarmente irritante. Uma onda de adrenalina me acordou de vez.  Eu poderia levantar naquele momento e rasgar o pescoço da intrometida do Chico. Mas, mesmo um pouco grogue, ainda tinha algum autocontrole.

– Eu não bebi nada. – consegui dizer engasgada.

– É, mas acho melhor ir para casa. – disse Analu, misturando incredulidade e reprovação. Outra que não estava se esforçando para me fazer feliz naquele dia.

Eu estava indo para casa, pensei. Aliás, eu já estaria em casa, não fosse o mal súbito que tinha sentido e que me fez desmaiar – meu Deus, começava a lembrar da festa, todos devem ter me visto cair feito um galho seco. Será que tinha sido a bebida vermelha? Uma nova onda de ansiedade percorreu o meu corpo, olhei para baixo e minha roupa inteira, a calça clara, a blusa azul com detalhes brilhantes que tinha comprado na véspera, estava manchada de vermelho. Era como se eu tivesse sido recolhida de um campo de batalha, completamente ensanguentada.

O amigo, sem dizer uma palavra – novidade! – saiu do cômodo, que agora eu podia reconhecer como sendo a cozinha da casa em que a festa acontecia. Para minha irritação, a moça do Chico continuava me encarando como se eu fosse a filha endemoniada da vizinha, em um restaurante sofisticado, atrapalhando o jantar de todo mundo. Ah, se ao menos eu tivesse uma arma.

Analu me ajudou a levantar e, sem deixar de pressionar meu braço – estava praticamente me machucando -, conduziu-me pelo corredor que levava à saída. Nele, alguns convidados da festa me presenteavam com a (agora) conveniente indiferença de antes. Sentia alguma dificuldade para respirar, mas podia reparar melhor na expressão da Analu, que estava incrivelmente parecida com a da menina do Chico. Indiferença, repreensão, incômodo. E aquilo, vindo dela, poderia me fazer chorar, não fosse a raiva que eu estava sentindo. Raiva dela, da menina do Chico, dos amigos, da festa, da roupa manchada, da vida.

Um taxi já me esperava na porta da casa, entrei e me arrastei até a outra ponta do banco traseiro, esperando que Analu me acompanhasse. Ela, do lado de fora, se dirigiu ao taxista e deu as indicações do caminho para a minha casa, antes de, sonoramente, bater a porta. O que era aquilo? Ela não iria se preocupar em me acompanhar? Não iria nem perguntar como eu estava e o que tinha acontecido? Agora sim eu sentia que iria desabar, engoli as lágrimas enquanto o carro dava a partida.

– Briga de namorado? – o taxista me acordou do transe de lágrimas. Eu não estava afim da conversa fiada, então esperei que minha cara de poucos amigos fizesse as honras da casa. –Briga de namorado? – ele repetiu, elevando o tom da voz e separando bem as sílabas. É… Não ia dar pra escapar.

– Não, mais pra briga de amiga mesmo.

– Ah… – pelo retrovisor, pude ver ele piscar o olho esquerdo para mim, certamente achou que eu fosse lésbica. Não é o caso, mas, nessa altura da madrugada, tanto faz o que o taxista acha.

Voltamos ao silêncio. Que durou pouco.

– Você sabe que eu peguei um passageiro hoje à tarde que tinha brigado feio com a namorada. – eu estava disposta a escutar a história, contanto que ele não me fizesse mais nenhuma pergunta –  Novinho o rapaz… E como era o nome da namorada mesmo? – ele olhou para mim, e eu suspendi as sobrancelhas, esperando que ele percebesse que eu não conhecia nem o rapaz e muito menos a namorada e que era mais sensato que ele olhasse para a rua – Era desses que têm apelido… Bia?… Mari…? Carol? Carol! Isso, a Carol. O moço ficou a viagem inteira discutindo no telefone com a Carol. A tal namorada parece que é daquele tipo mais recatado, que gosta de ficar enfurnada dentro de casa… E eles tinham combinado de ir num show… De quem era mesmo?

– Chico Buarque – completei, irônica.

– Esse mesmo! – o taxista estalou os dedos gordos, deixando o volante de lado – Sei que o passageiro estava chateado porque tinha deixado pra ela comprar os ingressos e ela disse que esqueceu. Daí o que acontece? Os ingressos acabaram!  Pô! Mas aí até eu! Não é mesmo? O Chico Buarque… Não sabia que ele ia fazer show por aqui… Se soubesse, tava lá na fila.

– É, também fiquei sabendo só hoje… – o Chico Buarque não iria me deixar tão cedo.

– Acho que eles fizeram as pazes no final. Não sei se dura muito não, viu? A tal Carol parece bem xoxinha – eu sorri pela escolha da palavra. – É o que eu falo pros meus meninos, mulher pra casar tem que ser viva, ter um brilho nos olhos e estar pronta pro que der e vier. Você não concorda? – ele realmente estava achando que eu era lésbica.

Antes que eu pudesse concordar, o assunto já tinha mudado. Até chegar na minha casa, foram mais três, ininterruptos. Arredondei o valor da corrida pra cima e, não sei se por isso, ele abriu um largo sorriso embaixo do volumoso bigode e disse, premonitório: – Não se preocupa não, minha filha, que o tempo das vacas magras pra você já vai acabar.

– Boa noite, Rita! Quer que eu acenda a luz? – o porteiro da noite me recebeu solícito, como sempre.

– Boa noite, Lúcio… Não, obrigada, está tranquilo.  – no escuro, subo os degraus para chegar ao elevador. Moro no 19º andar de um total de 20 num prédio antigo, no centro da cidade.

Sempre que conto que moro sozinha na mesma cidade que meus pais, as pessoas me perguntam se era muito ruim morar com eles. Não era. Quando me formei e arranjei um emprego num laboratório que pagava bem, o caminho lógico me pareceu sair de casa – meus pais acabaram entendendo. Também, nunca dei motivo para que eles se preocupassem, e nada de muito novo aconteceu na minha vida desde a mudança. Tirando as contas, que insistem em chegar todo mês, a rotina de vai e vem do trabalho e a pouca atividade social continuam as mesmas (o elevador faz um barulho indecente quando chega ao meu andar).

A Analu é (ou era?) a minha última companheira de incursões sociais. Os meus outros amigos estão todos casados ou prestes a se casar, e nossos encontros se resumem a cafés e almoços sem pessoas novas para serem apresentadas. Com ela é diferente. Nos conhecemos no primeiro ano da faculdade, numa calourada unificada da Farmácia, que eu cursava, e da Engenharia Elétrica, que ela cursava. Eu estava encostada em uma parede, cautelosamente movendo meus ombros no ritmo do pop dançante que tocava, quando uma menina baixinha e loira caiu na minha cabeça. Era a Analu, e, instantes antes, ela dançava perigosamente na laje bem acima de mim, sem que eu percebesse. Nessa distração, quase quebrei meu nariz, mas ganhei uma amiga.

Ela, completamente tonta, chorou pedindo desculpas, enquanto meu nariz sangrava intermitentemente – se a Analu não fosse tão leve, talvez o estrago tivesse sido mais grave. Fomos pra enfermaria, trocamos telefones e e-mails e, no dia seguinte, ela já estava me contando sobre a desilusão amorosa que tinha sofrido na calourada. Combinamos de ir a outra festa, para que terminasse de afogar as mágoas e, seis anos depois, ainda somos companheiras de badalações. Nesse tempo, a Analu mudou bastante. Eu, nem tanto. Ela ficou mais séria, formou, começou o mestrado, arrumou um namorado, depois arrumou outro, e agora está solteira novamente. Eu ainda me sinto a mesma caloura estabanada, encostada na parede, embaixo de uma laje prestes a desabar.

Depois de passar os últimos dois meses solteira, como ela diz, “por opção”, a Analu tinha resolvido caçar novamente – nunca entendi a facilidade que ela tem em arrumar namorados. E era por conta disso que eu tinha ido à festa. Ela encontraria um pretendente, um dos rapazes mudos, e eu, supostamente, deveria me esforçar para interagir com o amigo dele, o outro rapaz mudo. “Você vai adorar o João, Rita! Ele é um amor e ainda por cima muito bonito, pra você variar um pouco!”.

O João era obviamente bonito. Alto, corpo definido, olhos castanhos claros, cabelo liso louro escuro, com uma franja jogada para trás sem premeditação. Mas era muito ariano e barbeado para o meu gosto sujinho. Ele estava usando jeans e camiseta branca, que, por mais que acenda a lembrança de James Dean nesse inconsciente coletivo, não revelava nenhuma personalidade. “Eu acho homem de jeans e camiseta branca enjoativo”  foi a primeira coisa que disse pra Analu, assim que ela me apontou o João ao longe. “Para você variar um pouco”, ela repetiu, em tom de desaprovação.

Eu sabia que aquilo era uma gozação velada pela minha última conquista amorosa. Há pouco menos de um ano, cometi um erro memorável com um padrinho do casamento de um amigo de infância.  Apelidado pela minha turma como o homem mais feio da festa, ele deu em cima de mim descaradamente. O meu superego bêbado de champanhe não achou ele tão feio. Bem, pelo menos não achou que fosse “o” mais feio da festa. Mas ele realmente não era bonito. Em minha defesa (ou não…), a aparência era o menor dos problemas dele.

Se o feio fosse uma pessoa agradável, poderia levantar meu lado não-superficial e soltar um “ele é tão legal que não consegui achar feio” – afinal, tenho bem desenvolvida a capacidade de transformar amabilidade em beleza. Mas, além de feio, ele conseguia ser pedante, egocêntrico e, consequentemente, ruim de cama. Em seu favor estava somente a minha crise de carência afetivo-sexual catalisada pelo espírito matrimonial da festa. Só isso justificava por que eu tinha ido parar numa cama de motel com o feio desprezível. Foi um gesto desesperado, e foram os três minutos e meio mais longos da minha vida. Depois de praticamente fugir do quarto, não sem antes escutar os autoelogios que o feio fazia à sua ligeira performance, ignorei todas as tentativas de novo contato que ele chegou a fazer.

Desde o incidente, a Analu tenta, sem sucesso, me arranjar para conhecidos dela.  E eu fico me perguntando por que as pessoas ainda fazem isso, digo, por que as pessoas ainda se relacionam. É tanto esforço pra algo tão efêmero e potencialmente frustrante (Ah. Sobrevivência da espécie. Entendo…). Lembrei que ainda estava com raiva da Analu e não queria dormir com aquilo engasgado, precisava ligar para ela. Procurei o celular na bolsa, e percebi, com algum pânico, que ele não estava lá. Será que tinha caído no taxi? Não era possível. Comecei a refazer mentalmente os meus passos desde a última vez que o tinha visto… Merda. Estava com ele na mão quando desmaiei, deve ter ficado no jardim da festa.

Telefone fixo é o último item na minha lista de prioridades nessa vida de morar sozinha. Nunca tinha feito nenhuma falta até então. Agora, mais do que desabafar com a Analu, precisava recuperar meu celular. Liguei o notebook e, torcendo para que ela olhasse o e-mail a tempo, mandei:

Analu,

Queria ligar pra você, mas perdi meu celular na festa, você achou? Estou chateada. Precisamos conversar!

 Rita

A resposta veio quase imediata. Bendito seja o 3G.

Rita,

Quem está chateada sou EU. Conversaremos. Seu celular vai ficar com o João, depois vocês combinam de se encontrar ;).

Analu

Fiquei perplexa. Como assim, ELA estava chateada? Como assim o celular ia ficar com o João? Vamos falar sobre limites, senhorita Analu? Contei até vinte. De nada iria adiantar escrever um e-mail raivoso. Ela tinha a irritante capacidade de desfazer todos os meus argumentos escritos – ao vivo, não era mais fácil vencê-la, mas, pelo menos, era possível. Respondi da forma mais expressiva que consegui digitar:

Amanhã. Aqui em casa. Depois da sua aula.

Na resposta rápida, ela conseguiu se complicar ainda mais:

Ok. Btw, já passei o seu e-mail pro João, ele vai entrar em contato ;).

Depois dessa, era melhor que eu tentasse dormir. Antes, precisava desmontar a fantasia da festa. Sempre me sinto fantasiada quando me arrumo um pouco mais, como se quem estivesse com essa roupa não fosse eu, e sim uma personagem que deveria ser leve, sorridente, dançante. E que péssima atriz eu era. Confrontei-me no grande espelho do banheiro. Meu rosto estava inchado e vermelho, a roupa parecia ainda mais suja e a maquiagem estava completamente borrada. O cabelo, pelo menos o cabelo, ainda estava razoável, os cachinhos negros brilhavam e caiam sem muita rebeldia sobre meus ombros. Não era tão difícil me achar bonita, refleti, reparando nos meus grandes olhos verdes separados pelo nariz com personalidade, que não é muito grande, só o bastante para não passar despercebido. Minha boca é fina, mas gosto dela assim. E estou numa fase boa com meu corpo, quase no meu peso ideal, não teria vergonha de ficar pelada com outra pessoa… No escuro, suspirei. Era óbvio que precisava ganhar algum tônus muscular, acho que poderia colocar um pouco de silicone… Mas o que pega em mim é esse meu desarranjo, nenhuma roupa nunca fica legal, eu não sei andar de salto (lembro que ainda estou calçada e chuto as sandálias para o monte de sapatos que se acumula num canto do quarto). E o apartamento se parece tanto comigo… Nada fica no lugar, o sofá é feio,  o móvel da televisão está torto, estão faltando dois azulejos da cozinha… Antes que eu pudesse sentir mais pena de mim mesma, coloquei o meu pijama de frio, com estampa de anjinhos, e deitei encolhida no meio da cama de casal. Que patética eu sou, uma cama tão grande só fazia com que me sentisse mais sozinha. Finalmente consegui chorar os últimos acontecimentos. E dormi soluçando.

Acordei afobada, pensando que estava atrasada. Não tinha o celular para me despertar, mas eram exatamente 7h15, o horário em que costumo levantar. Era sexta-feira e meu corpo inteiro fazia questão de lembrar porque eu não saía mais no meio da semana. Vinte e cinco anos não é mais idade pra essas farras pensei, irônica. Além de todo o resto, estava ficando velha precocemente. Resmunguei com despeito que a maior parte do pessoal da festa ainda estivesse na faculdade e, se quisessem, podiam matar as aulas de sexta de manhã. A Analu nem aula de manhã tinha, só uma à tarde que terminava às seis e meia – devia chegar aqui em casa umas sete. Tinha esperança de que a história do celular ter ficado com o tal João fosse uma pegadinha, mas, abrindo meu e-mail vi que não.

Oi Rita,

Aqui é o João da festa de ontem, não sei se você se lembra de mim (sou amigo da Analu). Estou com o seu celular, podemos nos encontrar pra eu te entregar? Quando/onde é melhor pra você?

Abs

João

Suspirei. Não iria responder até tirar a história a limpo com a Analu. Tinha que tomar banho, me arrumar e ir pro laboratório.

O dia passou arrastado, calibrar os equipamentos e medir um ou outro composto químico aqui e ali costumava ser bastante tedioso, mas, hoje, estava particularmente insuportável. A recepcionista tinha reparado nos meus olhos inchados e perguntado se estava tudo bem. Estava, respondi. Mas tudo o que eu queria era gritar com a Analu. Às cinco, saí apressada e fui direto para casa.  Fiquei cobrando o tempo do relógio da cozinha, esperando ansiosamente que ele passasse mais rápido, enquanto ensaiava mentalmente o que iria dizer para ela.  Quinze pras sete o interfone toca.

– Oi. – cumprimentei secamente a Analu.

– Oi. – ela retribuiu, desafiadora, entrando na minha pequena sala. Deu meia volta e me encarou, os braços cruzados, aguardando que eu começasse a batalha. Fechei a porta e, então, comecei:

– Analu, eu estou muito magoada com você. Nós estávamos juntas na festa, você não percebeu como seus amigos me trataram, como eu fiquei desconfortável? Aquela sua amiga veio toda arrogante pra cima de mim! Você sabe que eu me sinto mal com desconhecidos. Eu já tinha decidido ir embora, pra você ter uma ideia! Mas tomei um gole de uma gororoba vermelha que me deram por engano e desmaiei! Um gole! E você me tratou como se eu fosse uma adolescente que não soubesse beber! Nem perguntou como eu estava, se eu precisava de ajuda! Você por um acaso se lembra de como a gente se conheceu? Você se lembra de quem bebia até cair?! Poderia ter tido um pouco de consideração, pelo menos. E, ainda por cima, esse negócio de deixar o celular com o João! O menino foi tosco e me ignorou o tempo todo, como você pôde fazer isso comigo?! – parei, feliz com o resultado do ensaio, tinha dito tudo o que precisava.

A Analu respirou fundo. Sempre que tomava fôlego assim, eu sabia que lá vinha chumbo pesado.

– Rita, é claro que eu me preocupo com você. – ela segurou meus dois braços, me esfaqueando com aquele olhar castanho-intenso, eu estava prevendo mais uma derrota na guerra – Mas chega uma hora que cansa! Você entrou na festa já resmungando da roupa do João. E ninguém te fez nada de mal. Os meninos estavam calados porque eles são assim! Eles são tímidos! E você os intimidou mais ainda com esses olhões verdes e a cara amarga que fez desde a hora que chegou.  A Bárbara não é arrogante, ela é só muito expansiva. Pode ser chato se você não conhece, eu sei. Se tivesse ficado mais quinze minutos por lá, ia perceber que é só o jeito dela! Mas você deixou a gente falando sozinha! Olha: foram o João e a Bárbara que te carregaram pra cozinha, evitando que mais gente te visse, e você nem se preocupou em agradecer, só ficou implicando mais ainda com a Bárbara que estava tentando brincar com você, amenizar a situação. Com esse seu jeito, nunca vai arranjar ninguém mesmo. – abri bem os olhos, surpresa, por que a discussão tinha ido parar nesse ponto? Mas ela continuou –  Não estou falando que você precise arranjar homem. Você é toda independente! Tão independente que eu tinha certeza que não precisava da minha ajuda pra chegar em casa! Se sustenta, mora sozinha, tem um trabalho legal. Mas obviamente sente falta de alguma coisa. Se você não ligasse, eu entenderia, juro! Mas, depois do que você fez ano passado naquele casamento, não vou deixar você se jogar pra qualquer um só por desespero. Você precisa aprender a ter mais paciência e dar chance pras pessoas te conhecerem! E para você conhecer as pessoas! Sabe do que mais? Príncipe encantado não existe. Se você ficar implicando por esse tanto de coisa besta, vai ficar seca e amarga pra sempre. Está mais que na hora de você gostar mais de si mesma e deixar os outros gostarem de você! Não entende isso?

Ela parou e ficou me encarando, esperando a tréplica. Seu rosto estava completamente vermelho. Era quase engraçado que uma criatura daquele tamanho – exatos um metro e meio – tivesse aquele poder de persuasão. Já tinha visto a Analu brava, mas nunca em tantas palavras. Tudo que ela tinha dito fazia tanto sentido que não sei por que eu não tinha começado a chorar ainda, acho que estava em choque. Amarga. Repassei a festa na minha cabeça. Os meninos mudos, a amiga expansiva, os dois na cozinha quando eu acordei. Engoli litros de lágrimas de remorso. Não. Não era hora pra chorar, precisava tomar alguma atitude.

– Você tem o telefone do João no seu celular? – perguntei, fingindo firmeza. Ela ficou boquiaberta e remexeu a bolsa, deixando umas três canetas e uma lixa de unha caírem, enquanto pegava o aparelho, que me estendeu já com o número programado.

[Ligar]…

– Oi João, é a Rita, amiga da Analu, (….) não, tá tudo bem… Já… Já  estou legal, obrigada. Então, eu estava pensando se amanhã a gente podia se encontrar pra você me entregar o celular (Analu socava joinhas no ar com as duas mãos, com um grande sorriso no rosto) Isso… Isso… Tem um café bem legal aqui perto de casa, o Marina, conhece? Então. Depois estava pensando em ir ao cinema, se você topar (ela começou a dar pulos chacoalhando as mãos. Ri-dí-cu-la, murmurei para ela, encarando a cena)… Tá ótimo… Te encontro às seis no café, então.  Tchau, beijo… Até…

Desliguei. Ela estava tão eufórica que parecia que iria tascar um beijo na minha boca bem antes do João. Tanto escândalo por tão pouco. Mas, ainda mais rápido do que a onda de alegria tinha vindo, a Analu retomou o ar sério, franziu a testa e deu o toque final no sermão:

– Então Rita, escuta bem o que eu vou te dizer agora. Você vai sair amanhã com esse menino. Vocês vão conversar amenidades no café. Você VAI beijar esse menino na boca por lá ou no cinema, pode escolher. Quando já estiver com o seu celular e for me ligar para contar, eu não quero ouvir uma palavra sobre como o João é jeca, porque te adianto que ele é muito jeca – sorri nasalmente, prevendo o desastre-, como ele estava de camiseta branca de novo, como ele é barbeado demais, como ele recomendou só filme ruim pra vocês assistirem. Isso tudo eu já sei que vai acontecer. A única coisa que eu quero saber é como ele foi muito gente boa e beijou bem pra caralho e onde vai ser o segundo encontro. Ah! E, quiçá – estendeu as palmas das mãos e olhou para alto, como se fosse fazer uma prece, o meu caso era grave assim-, como ele é ótimo na cama!

– Analu! – repreendi a indiscrição – Ok! Vou dar o melhor de mim, prometo.

Ela me deu um abraço forte e, não contendo saltinhos de felicidade, se despediu, tinha que começar a fazer as malas – no domingo iria viajar pra participar de um congresso na Espanha, apresentar um artigo com uma turma do mestrado, e precisava conferir se tinha três pares de cada tipo de roupa.

Eu estava mais leve, a bronca tinha tirado um peso grande dos meus ombros. Me sentia querida de novo e realmente estava disposta a dar uma chance para o João. Enquanto tentava me lembrar de mais detalhes sobre ele na festa, o interfone toca. Era a voz da Analu:

– Ah. Esqueci de te falar! Você viu? Divulgaram que vai ter show extra do Chico Buarque. Domingo começam a vender os ingressos!

Sorrindo, coloquei o interfone no gancho. Depois das últimas vinte e quatro horas fazendo drama, tudo parecia estar correndo bem. Mesmo que a Analu tivesse tentado me convencer que a tal Bárbara era legal, ainda alimentava uma animosidade contra a menina do Chico. Ir ao show parecia uma questão de honra. Corri para pesquisar os detalhes. Teria que desembolsar trezentos reais para assistir do melhor setor, e era lá que eu queria estar, mesmo se tivesse que passar fome no próximo mês.  Seria bem perto de casa, no Palácio das Artes, a três quarteirões do meu prédio, e iria acontecer um dia antes dos outros três shows que já tinham esgotado. Como a turnê iria começar por aqui, tecnicamente, eu iria na estreia! Toma essa, menina do Chico! Os ingressos começavam a ser vendidos às nove horas da manhã de domingo. Eu estaria na fila às sete e garantiria lugar bem no meio do primeiro setor. E esse seria o melhor show da minha vida.

Revirei uma das caixas de mudança que nunca desfiz por completo, procurando por um CD dele. Era uma coletânea de músicas românticas que ganhei num amigo oculto, o único CD do Chico Buarque que eu tinha. Outros álbuns, tinha em vinil, o que era pouco útil, já que a vitrola tinha ficado na casa dos meus pais. Encontrei a caixinha plástica com a capa genérica e coloquei o cd para tocar no aparelho de DVD – minha casa era realmente minimamente equipada. Os primeiros acordes da valsinha contaminaram o ar, e eu me joguei no sofá feio e duro, para sonhar acordada e tentar despertar o romantismo que vinha me fazendo falta, já estava na hora, lembrei das palavras da Analu.

“O primeiro me chegou… Como quem vem do florista…” Enumerava o Chico, se fazendo de Teresinha. E eu, como ela, contava em uma mão os homens que já passaram por mim. Perdi a virgindade aos dezessete anos com o Pedro. Nossas famílias moravam no mesmo prédio, nos conhecíamos desde criança.  Ele era um ano mais novo e virgem também, então fizemos um pacto. Combinamos de matar aula um dia e nos encontramos no apartamento dele, enquanto nossos pais trabalhavam. Foi bem ruim e rápido, como acho que devam ser todas as primeiras vezes – pelo menos quando nenhum dos dois tem alguma experiência -, mas, um mês depois, ele propôs que fizéssemos de novo. A nova tentativa também foi um fiasco, mas a pior parte aconteceu depois. Deitamos abraçados e ele, ainda ofegante, se declarou para mim. Gaguejando, falou que estava apaixonado, que queria namorar comigo. Lembro que a única coisa que consegui sentir foi pena. Eu não estava apaixonada, na verdade,  foi mais ou menos a época em que comecei a a abandonar o hábito das paixões adolescentes, e até por isso tinha decidido resolver o “problema” da virgindade daquela forma. Acabei falando que achava melhor não, que eu gostava dele como amigo, que não queria estragar a amizade. Não adiantou nada, depois daquilo, tudo ficou estranho, nunca mais conseguimos nos olhar direito, mal e mal nos cumprimentávamos. Muito tempo depois chegou o convite de casamento dele e eu nem sabia que ele estava namorando sério. Foi exatamente o casamento em que encontrei o feio. Um frio na espinha interrompeu o fluxo do meu pensamento: será que ele achou que eu tinha pegado o feio por estar sofrendo com o casamento dele? E, pior, será que inconscientemente tinha sido isso mesmo? – quase soltei uma gargalhada, nunca tinha pensado nisso dessa forma, acho que talvez precise de terapia.

O meu segundo aconteceu quase dois anos depois, e não envolveu sentimentos profundos também: um amigo gay do cursinho queria experimentar uma novidade. Eu, racional como sempre, topei. Foi bem difícil alinharmos a parte prática da coisa, mas, no final, conseguimos um resultado razoável – imagino um jurado levantando uma plaquinha de nota 7 para a performance. Pelo menos ele ficou mais convicto de que não era aquilo mesmo que queria. E eu fiquei feliz por ajudar.

O terceiro foi minha única experiência mais marcante. Naquela festa que combinei de ir com a Analu, logo depois de nos conhecermos, ela me apresentou outra nova e grande amiga: a tequila. E também alguns colegas de curso dela, dentre eles, o Ricardo. Ele tinha um rosto agradável, boca e nariz grandes (tenho algo com narizes), os olhos bem pretos, expressivos, que eram  espremidos pelas maçãs do rosto quando ele sorria. A pele ainda tinha uma tonalidade adolescente, com algumas marcas de espinha e o cabelo estava bem curto por conta do trote do vestibular, o que dava um charme militar na composição. Não era lindo de morrer, mas, se o feio era “o” feio, o Ricardo era “o” legal. Daquele tipo que sempre vai conseguir pegar a mulher que quiser, que consegue fazer rir, que é atencioso com detalhes inesperados e perseverante quando escolhe um alvo, naquele dia, eu.

Lembro de estarmos conversando sobre o exame de direção no qual ele tinha acabado de ser reprovado pela segunda vez, e, de repente, o resto do pessoal que estava junto com a gente sumiu e ficamos sozinhos. Em algum lugar entre baliza e freio de mão, ele tirou uma mecha de cabelo que caía no meu rosto e encaixou atrás da minha orelha.  Depois disso, fui abrir os olhos novamente na cama dele, numa república que ele dividia com mais dois amigos. Era perto da faculdade e, na semana seguinte, fui para lá todos os dias depois da aula. Cheguei a inventar pros meus pais uma excursão didática para poder dormir fora de casa sem levantar suspeitas – ainda não sei como eles caíram nessa história… Excursão no primeiro período de faculdade… Só faltou eu ter falsificado uma autorização para eles assinarem.

Passamos os três dias da “excursão” praticamente sem sair do quarto dele. E ele continuou sendo legal, mas, não sei se por estar longe da tequila, ou se por terem se esgotado todos os assuntos banais nos poucos minutos em que conversávamos, acabei percebendo que não tínhamos mais nada em comum, além da química na cama. Acho que conseguiria ignorar esse pequeno problema por mais um tempo, afinal, não foi isso que acabou com o nosso relacionamento.

No fim de semana seguinte à excursão, falei que não poderia encontrá-lo, iria viajar com meus pais. Acabamos voltando antes do planejado e, sem avisar, fui até a casa dele no domingo. Apesar dos colegas de apartamento tentarem me deter, abri a porta do quarto e o peguei no ato, com outra. Apenas olhei a cena e fui embora. Aquilo abriu um rombo no meu ego, mas não chorei, não fiz escândalo. Não me sentia com o coração partido, eu definitivamente não estava apaixonada por ele. Foi por uma questão de convenção social que nunca mais quis vê-lo – uma culpa cristã me impediu de ligar o foda-se e fingir que nada tinha acontecido, afinal, o que eu queria continuava disponível, era só avisar com antecedência.

A Analu ficou bem mais revoltada do que eu, até relatou o caso na cornet, anexando a foto e o perfil dele. A cornet é um grupo de e-mails em que mulheres denunciam traições e filhadaputagens masculinas. Aliás, essas são duas das categorias oficiais do grupo: todos os emails trocados devem identificar, no assunto, se se trata de traição, filhadaputagem ou investigação (quando há a desconfiança de traição, ou alguém quer levantar o perfil de um cara que acabou de conhecer). Já que era impossível dissuadi-la de postar o acontecido, com muita luta, consegui que a Analu o classificasse como filhadaputagem. Na prática, não estávamos namorando nem tínhamos discutido fidelidade, ele era livre para fazer o que bem entendesse.

Ela ficou um mês monitorando meu estado psicológico, trocávamos quinze mensagens por dia. Por mais que tentasse convencê-la de que estava tudo bem, que eu não me apaixonava tão fácil, acho que ela se sentia culpada por ter nos apresentado – e deve ter confundido minha empolgação pelos orgasmos reais com amor verdadeiro, acontece. Tirando esse caso, nunca mais participei ativamente da cornet, mas ainda hoje me divirto lendo os e-mails e acompanhando eventuais barracos – me pergunto se meu subconsciente não registra todos os absurdos que homens fazem e é isso que me mantém longe deles. A gargalhada quase sai outra vez, eu, sempre tão objetiva, me fazendo de mistério para mim mesma, era o que me faltava.

Assim como a Teresinha, eu deveria ter parado no terceiro. O quarto e último foi o feio, que dispensa apresentações. Espreguicei os dedos dos pés enquanto a Maria Bethânia começava a cantar sobre o amor dela, que tinha o jeito manso só dele, e voltei à tentativa de me lembrar do João. Muitas fichas na mesa apostando que o meu quinto homem seria ele. Iria com mais calma dessa vez, vou tentar conhecê-lo antes – repetia para mim mesma, num esforço para me convencer de que desse mato sairia cachorro. Até agora só sabia que ele tinha uma beleza óbvia e tendia a ficar mudo quando intimidado por olhos verdes e cara amarga, o que aumentava a chance de eu nunca ouvir a voz dele ao vivo, essa é a única cara que tenho – repreendi minha clara tentativa mental de auto-sabotagem. Os olhos castanhos caramelizados, nariz e boca sem personalidade, porém harmônicos, o cabelo jogado pra trás, o porte atlético. Isso poderia render, suspirei, nostálgica. E jeca…  Será que ele iria querer ir ao show do Chico Buarque?

Adormeci no sofá. Sonhei que estava num grande salão oval. O chão, de tábuas bem enceradas, era da mesma tonalidade do olhar castanho intenso da Analu. As paredes eram cobertas por longas cortinas de veludo preto e ornadas com infinitos filetes em que corria um líquido vermelho, como em milhares de veias. Não era grotesco, ficava até bonito, aquele líquido escorrendo para cima e para baixo, refletindo a luz que vinha das pequenas e numerosas lâmpadas no teto.  Olhei em volta e não havia ninguém. Uma música começou a invadir o ambiente. A princípio não consegui reconhecê-la, mas pude perceber, então, duas pessoas dançando juntas, como num baile, em um ponto bem distante do salão. Era valsinha, quero dizer, a música era aquela, Valsinha. Nessa versão, o Chico cantava quase a cappella. O casal se aproximou flutuando, e reconheci, no longo vestido vermelho, a bartender da festa, ela tinha os olhos grandes bem abertos e um sorriso de orelha a orelha para o seu par, que era nada menos que o taxista bigodudo, ainda com as roupas que vestia no taxi: uma calça jeans surrada e um camisa de mangas curtas meio desbotada.  Ele olhava para ela admirado, como se estivesse orgulhoso de ter um par tão bonito, como se estivesse apaixonado. Passo longos instantes analisando o rosto do taxista. Num movimento brusco, ele se inclina e deixa que a bartender caia em seus braços. Então, do outro lado do salão, consigo ver um homem que me observa. Com terno preto e uma gravata borboleta redundantemente vermelha, ele permanece impassível, os lábios travados, mas as feições estão relaxadas, como se estivesse olhando para o horizonte. É o João. De repente, sinto vontade de ir embora, mas tropeço, caio, e, num segundo, ele está ao meu lado para me levantar, ainda com o mesmo olhar, ainda com o mesmo silêncio.  “E o dia amanheceu em paz…” Finaliza o Chico, e o salão está novamente vazio ecoando a última palavra da música.

Acordo. Era quase uma da madrugada e o CD já deveria ter parado de tocar há tempos, o aparelho de DVD estava desligado. Podia escutar apenas o zumbido da geladeira. Com alguma dificuldade, me transferi para a cama. Ela já não me parecia tão grande. Girei de um lado para o outro, tentando desvendar o sonho. Odeio quando sou enganada pelo meu próprio inconsciente, o que aquilo queria dizer? Será que eu me sentia atraída pelo João? Preferia acreditar que ainda não.

O melhor a fazer era dormir. Às seis da tarde, no café Marina, eu descobriria.

Recuperando o sono da noite anterior, acordei tarde, quase onze horas. Como em todos os sábados, desde a mudança, saí para almoçar na casa dos meus pais. Era costume chegar lá ao meio dia e ficar até mais ou menos umas três. Às vezes jogava xadrez com meu pai, às vezes assistia a um filme na TV com minha mãe. Se morar com eles não era ruim, agora que eu era visita, a situação tinha melhorado exponencialmente. Minha mãe sempre preparava minha comida favorita, meu pai trazia uma sobremesa bem calórica da rua e, vez ou outra, ainda ganhava um presente. Invariavelmente, um livro ou uma bijuteria que minha mãe achou “a minha cara”. Quando chegava a hora da despedida, ainda percebia alguma tristeza, principalmente no olhar da minha mãe. Meu pai, por sua vez, adotou a mania de sempre dizer “eu te amo” em vez de “até logo”. Por algum motivo, fico um pouco assustada, bate em mim a consciência de que, eventualmente, será a última vez que poderei vê-los.  Como se eles pudessem morrer até o próximo sábado e fosse bom que deixássemos claros os nossos sentimentos. Procuro não pensar muito nisso.

Voltando à minha casa, me permito começar a entrar em pânico por antecipação. Que roupa iria colocar? Será que iria “preparada”?  Iria facilitar ou dificultar as segundas e terceiras intenções do encontro? No banho, optei por facilitar as negociações. Querendo ou não, iria pegar esse garoto. Dedidi pela clássica combinação decote e salto, que, em suas enormes variações, nunca falhou. Não iria tão produzida, era algo mais informal. Escolhi uma blusa mais larga, mas com um generoso decote em V, uma calça jeans justa e uma sandália com saltão. Será que poderia ficar tão alta? Tentava lembrar a altura do meu par… Eu tinha quase um metro e setenta… Ele era alto também, acho que dava, vai o saltão mesmo. Sequei meu cabelo, que, por alguma interferência divina, estava se comportando bem para eventos desta semana, e coloquei meus enormes brincos de argola. Agora, maquiagem. O que farei? O menos possível, lembro da aversão que alguns homens têm a batons, passo um quase da cor da pele e o rímel. É isso. Vou conferir o meu reflexo de corpo inteiro e, como sempre, estava a imagem e semelhança do desarranjo.

Apesar disso, o decote com salto não falhava nunca. Já tinha usado em uma dezena de outros encontros. Apesar de ter dispensado todos os caras, a decisão sempre foi minha e não deles. Os meus peitos, por menores que fossem, eram uma distração. Desconfio que deva ser uma característica evolutiva do sexo masculino, essa coisa de subitamente ter as órbitas oculares vidradas nos peitos das mulheres. Quão mais civilizado o homem, menores os milésimos de segundo em que descuidadamente o olhar parava lá. Eu era até bem compreensiva, como isso é algo que acontece com todos, nunca foi um critério de exclusão, a não ser que a situação se tornasse insustentável – nunca tinha acontecido comigo, mas já escutei relatos de homens que não conseguiam parar de olhar para lá, daí realmente ficaria difícil levar o encontro para frente.

Meus critérios de exclusão eram mais específicos, apesar de serem, ao mesmo tempo, muito abrangentes. Não é que eu acredite em príncipe encantado, como a Analu falou, apenas não quero um homem que: tenha menos de 22 anos, tenha mais de 40 anos, seja menor do que eu, seja loiro, participe ou tenha participado de diretório acadêmico na faculdade, faça artesanato, tenha blog, trate a mãe mal, não tenha irmãs, seja muito bem dotado ou muito mal dotado, nunca tenha pegado ônibus na vida, ainda ganhe mesada, tenha namorado mais de três vezes, tenha sido casado, tenha namorada ou esposa, tenha namorado ou esposo, seja bissexual, seja gay, jogue futebol, não tenha carteira de motorista, fume, use drogas ilegais, tenha uma moto, tenha pegado amiga minha anteriormente, faça teatro, seja amigo do povo do teatro, seja jeca, use calça jeans e camiseta branca como uniforme ou tenha ficha suja na cornet. Para mim, esses são critérios completamente racionais e justificáveis, e com certeza existe todo um conjunto de homens que não apresentava nenhuma dessas características. Mas, para tentar finalmente ter um namorado, estava disposta a relevar uns quatro ou cinco desses critérios e mergulhar na vida loka. Quinze para as seis, hora de sair de casa.

Ele estava me esperando na porta do Café Marina, olhando para a direção errada. Antes que pudesse me ver, tive algum tempo para analisá-lo.  Não estava usando outra camiseta branca, no lugar, uma camisa pólo, azul marinho, com a marca ridiculamente grande bordada sobre o peito. Ponto negativo. A censura da Analu me impede de contabilizar esses pequenos deslizes. “Não é a camiseta branca! Que bom!” Tentava inutilmente me animar.

Preferiria que ele estivesse dentro do Café, me aguardando numa das mesas. Acho que me sinto mais atraída por homens que demonstram esse tipo de segurança. Mas a última coisa que ele transparecia era alguma segurança. Batendo o pé nervosamente, ainda esperava que eu aparecesse pela outra esquina. Penso que eu também não exibia um andar muito seguro e seria incapaz de fazer uma entrada inesquecível. Se fizesse,  provavelmente seria tropeçando depois da primeira troca de olhares. Melhor contar com o elemento surpresa, portanto.

Parei por alguns instantes bem perto do João. Ele não percebeu que eu já estou ali. Podia sentir o seu cheiro agradável, perfumado na medida certa para o fim de tarde. Era o mesmo cheiro que senti na festa, ao cumprimentá-lo. Já conheci outros que usavam um perfume similar, talvez não fosse um grande indício de personalidade, no final das contas.

– Oi. – falei quase em seu ouvido, para assustá-lo. Ele deu meio pulo para o lado, surpreendido. Não consegui deixar de achar graça. O meu sorriso teve um impacto maior do que o susto. Com as faces instantaneamente coradas, ele levanta sutilmente os cantos da boca, acho que era pra ser um sorriso também. Desajeitado como eu, me cumprimenta com um beijo no rosto e encara os meus peitos no decote por um milésimo de segundo. Inevitável.

-Tudo bem? – pergunta, quase não abrindo a boca.

– Tudo… Então, vamos entrar?

Sinto que ele ficou aliviado por eu ter tomado a iniciativa. No salão do café Marina, um atendente que já me conhece sorri de longe. Caminho com cuidado sobre os desafiadores saltos até a minha mesa favorita, no fundo, perto da única janela. Na verdade, é uma vitrine estreita, coberta por um adesivo fosco avermelhado. Através dela, é possível perceber somente as silhuetas dos pedestres que passam pela calçada. De fora, o mesmo efeito: apenas uma sombra indecifrável de alguém tomando um café ou lendo um jornal.

A mesa é pequena, enfeitada com uma vela. Não foi necessária muita dança para definirmos nossos lugares, sento de um lado e ele se dirige ao outro. Antes de sentar, tira uma vida dos bolsos da calça. Enche as duas mãos com uma exageradamente volumosa carteira de couro preta, um celular, que devia ser o dele, um molho de muitas chaves e, por último, o meu celular, que me estende, sorrindo, ainda com uma timidez astronômica.

– Ah! Obrigada!

Ele grunhe alguma reação, mas permanece mudo. Começava a me sentir realmente mal por ter ficado com tanta raiva do silêncio na festa. Então pensei sobre minha teoria, nunca comprovada na prática, sobre rapazes bonitos inseguros. Ou eles são gays enrustidos, ou têm pênis muito pequenos ou têm uma péssima relação com a mãe. Olhando para a sugestão de músculos na abertura da camisa pólo, desejei conduzir uma pesquisa empírica sobre o assunto… Sorri maliciosamente enquanto ele tentava arrumar toda a mudança que foi tirada dos bolsos em um canto da mesa, ocupando quase metade do espaço.

Num dia normal de julgamentos, já teria descontado uns cinquenta pontos. Mas prometi me esforçar, então, a cada vez que implicava com algum detalhe insignificante, zerava o placar e dava uma nova chance, não sabia até quando isso iria durar.

– A Analu que deixou o celular com você né…

– É… Eu deixei desligado… – ele disse, quase se desculpando.

– Obrigada! – já me apresso a ligar o celular, a bateria ainda estava viva – Mas ela não deveria ter te dado esse trabalho, desculpa…

– Ela me falou que não iria dar tempo pra te encontrar por conta da viagem… Mas ontem vocês se viram né? – fiquei feliz por constatar que ele era capaz de formular uma frase com mais de três palavras. Ao mesmo tempo, pensei que poderia ter se mostrado mais feliz por ter tido a oportunidade de me encontrar outra vez, no lugar de justificar por que ele teve que assumir a responsabilidade pelo celular. Amarga.

– É, ela passou lá em casa pra pegar um sapato lá em casa – não sabia porque tinha que inventar um motivo, não sou uma boa mentirosa – e aproveitei para emprestar o celular para te ligar…

O atendente que me conhecia chegou à mesa e nos entregou os menus, enquanto me cumprimentava oficialmente – Tudo bem, Rita? – eu sorrio, está tudo bem, na medida do possível, dentro daquelas circunstâncias.

Esperei por algum tempo, fingindo olhar as opções. Já sabia que precisaria de um pouco de álcool e esperava que o João pensasse o mesmo. Ele parecia não estar prestando muita atenção no menu também. Senti que teria que tomar a iniciativa novamente:

– Vamos beber alguma coisa? Você gosta de vinho? – ele me olha intimidado. Acho que exagerei. Pedir vinho é uma responsabilidade muito grande. Mas, se ele não sabe nada sobre o assunto, é a primeira coisa que temos em comum. Sem aguardar que ele responda, peço duas taças de vinho tinto.

– Adoro pedir vinho aqui porque não tem complicação, eles te trazem o que eles têm. Não entendo nada de tipo, safra… Gosto quando é tinto e bom, mas não reclamo se estiver ruim também. – soltei uma risada, tentando deixá-lo mais confortável.

Pela primeira vez, ele sorri sem constrangimento. E eu, finalmente, consigo reparar em como ele é bonito. Obviamente bonito como sempre. Mas também bonito de uma forma que eu posso vir a apreciar. Cabelos sem premeditação. E tão tímido.

– Então, você está fazendo qual curso? – uma das duas coisas que a Analu tinha me adiantado sobre ele. Que ele ainda estava na faculdade, ela tinha me dito antes da festa, a outra, que ele era jeca, tinha me falado ontem.

– Medicina…

– Ah, em qual período você está? – começava a sentir um tédio imenso com esse princípio de conversa. Passei todos os cinco anos de faculdade começando conversas com as pessoas da mesma forma. Achei que já estava livre disso, mas parece que ainda vou precisar de alguns anos antes de abandonar a convivência com os universitários. A voz do Silvio Santos ecoa na minha mente.

– No quinto.

– Você já morava aqui ou veio pra estudar? – tento parecer interessada.

– Eu vim pra fazer cursinho, meu irmão já estava aqui… Tem cinco anos isso… Minha família é de Luiz das Dores.

– E vocês voltam muito lá pra Luiz das Dores?

– Eu costumava ir todo fim de semana quando tinha namorada. – ele para de falar subitamente, como se percebesse que trazer a ex para a mesa do nosso primeiro encontro talvez não fosse uma grande ideia. Eu finjo não ter notado. Começava a ficar genuinamente interessada na conversa.

– Vocês terminaram faz pouco tempo?

– No começo do ano…

Na prática, isso queria dizer que ele estava, no máximo, há três meses solteiro. Ele redireciona o rumo da conversa, tentando fugir do assunto:

– Você trabalha no laboratório que fica perto do campus da medicina, né? A Analu me contou… – sorrio, confirmando e tentando pensar no que mais a Analu poderia ter dito sobre mim.

Uma garçonete me interrompeu antes que eu pudesse contar mais sobre o laboratório, e posicionou nossas taças na mesa, enchendo generosamente com o vinho genérico. Aproveitando que o entardecer deixa o ambiente cada vez mais mal-iluminado, ela acendeu a vela que decorava a mesa.

Talvez não fosse a intenção da garçonete, mas, segurando a taça de vinho, com a chama produzindo reflexos avermelhados sobre o meu rosto, percebo como o nosso despretensioso primeiro encontro está ficando constrangedor.

Queria apagar a vela, substituir o vinho por cervejas e gritar “não é minha culpa, juro!”. Mas foi o João quem guiou o próximo movimento. Ele olhou na minha direção da mesma forma como tinha olhado na cozinha da festa, enquanto eu me recuperava do desmaio. Era como se ele estivesse observando algo que eu mesma não podia identificar na imagem refletida naqueles grandes olhos castanhos. Ele acabou de descobrir como eu sou bonita, concluo, inspirando rapidamente, como uma presa acuada. Não digo isso no sentido geral da beleza. Ele acabou de descobrir como eu sou bonita para ele. Assim como eu tinha percebido que ele também era bonito para mim, alguns instantes antes.

Depois de tomar dois longos goles de vinho, ele respira fundo e, fazendo um esforço sobre-humano para vencer a timidez, diz:

– Seus olhos são muito bonitos.

Dessa vez, era o meu sangue que subia todo para o rosto. Sorri encabulada, tínhamos trocado de papéis. Mergulhei o olhar na taça e bebi violentamente. Não conseguia pensar em nenhum assunto para competir com aquilo. Meus olhos são bonitos. Isso quer dizer que qualquer interação despretensiosa que eu estava tentando encenar foi por água abaixo. Os interesses reais do nosso encontro já estão na mesa (em algum lugar no meio da bagunça dos bolsos) e, não sei por qual razão, aquilo me tirava o equilíbrio. Queria voltar para casa sozinha, sem complicações, e dormir com o meu pijama de anjinhos. Quando estava quase executando um plano de fuga, ele tenta me resgatar:

– Você falou que queria ir ao cinema, a gente vai ver qual filme?

Dou uma engasgada, antes de responder:

– Ah… Sabe o que é… Não vai dar para ser hoje. – reparei a queda brusca de eletricidade no olhar do João.  Para piorar, não consegui encontrar nenhuma desculpa plausível para cancelar um encontro num sábado à noite e a frase termina lá mesmo.

Fiquei em silêncio, ele também. Com remorso, lembrava o quanto tinha demorado para que ele tomasse alguma iniciativa, e pensei no quanto deve ter sido ruim ter recebido um não tão cedo. Ele não estava tentando esconder o baque. Terminamos nossas taças de vinho em silêncio e pedimos a conta.

Apesar dos meus protestos, ele pagou por nós dois. Enquanto abria a carteira pude notar o que a deixava tão volumosa. Fotos do que parecia ser a família dele quase transbordavam das várias camadas. Crianças, uma mulher com jeito de mãe, um casal de velhinhos com jeito de avós. Na saída da cafeteria, sem conseguir me encarar, ele arriscou:

– Você falou que mora aqui perto, né? Posso te acompanhar?

Se tivesse perguntado se eu queria que ele me acompanhasse, eu poderia negar de forma educada. Mas ele perguntou se podia e eu não sabia dizer não. Estava me sentindo a pior pessoa do universo. A destruidora de corações de rapazes bonitos que levam foto dos avós na carteira.

Assenti e seguimos em silêncio, já estava me acostumando, quase não parecia constrangedor. Na esquina da rua de casa, para não perder o costume, tropecei. Ele evitou a minha queda segurando firme em meu braço. Fui surpreendida com a força com que ele me segurava, parecia que eu não pesava nada, que ele poderia me levantar com uma só mão, se quisesse. Deixei um pedaço de fôlego escapar e trocamos olhares pela primeira vez desde que o assunto tinha acabado no café. Enquanto retornava à posição vertical, ele perguntou:

– Você já foi a algum médico ver o que aconteceu na festa? Nem tinha bebido nada, né?

Fiquei surpresa ao perceber como o drama pela paranoia na festa tinha me feito esquecer completamente que não era normal eu desmaiar daquele jeito. E mais surpresa ainda por ele ter reparado que eu não tinha bebido nada. Ainda, pela forma como ele soltou a pergunta de uma só vez, devia estar querendo me perguntar isso desde muito antes e aguardava apenas a chance. Estava preocupado comigo.

– É, ainda não deu tempo, mas acho que não foi nada. Tomei uma bebida estranha lá, meu estômago devia estar vazio… Estou bem agora.

Ele continuou segurando o meu braço, mas sem fazer força. Quando percebeu que eu tinha reparado, se afastou, esquecendo os dedos em contato com a minha pele por tempo suficiente para que um arrepio me cortasse no meio.

Em frente ao meu prédio, me despedi dando tapinhas ridículos nos ombros largos e agradecendo pelo celular. Apressada, transpus o portão. Não sabia se sobreviveria a um abraço. Subi os degraus para chegar ao elevador com o peso do mundo sobre mim. Nunca tinha parecido tão minha culpa não gostar de um homem absurdamente bonito e com uma timidez mais do que charmosa. Que tinha reparado em mim na festa. Que tinha fotos da família na carteira. Que era forte o bastante para que eu me sentisse leve. Voltei a olhar o portão. Ele me observava, como um cachorrinho abandonado.

– João? – antes que ele pudesse dizer qualquer coisa – e não acho que diria -, envolvi os meus braços em seu pescoço e o beijei.

No princípio, ele parecia estar em choque, mas aos poucos retribuiu. E como retribuiu. O corpo inteiro dele me beijava, era ao mesmo tempo quente e frio, tímido e decidido. Antes de nos separarmos, ainda tive tempo para mais uma pequena paranoia: lembrei que a Analu tinha falado sobre como ele beijava bem. Será que ela já tinha pegado o João? Não. Ela teria me dito.

Recuperei o fôlego e falei: – Depois a gente combina o cinema. Ele sorriu daquele jeito que o deixava bonito e eu flutuei até o meu apartamento.

Antes mesmo de entrar em casa, já estava ligando para Analu. Narrei com detalhes todas as minhas implicâncias, o silêncio, a vida dos bolsos em cima da mesa, a falta de inciativa, eu cancelando o cinema. Deixei que ela xingasse até a minha terceira geração antes de contar o epílogo na entrada do prédio. Quase fiquei surda com o grito que ela soltou antes de começar a me cobrar os detalhes físicos, afinal, era só isso que ela queria saber mesmo. Não deixei de lembrar da dúvida sobre o beijo. Perguntei:

– Analu, como você conheceu o João?

– Então, ele é irmão do Francisco, o meu rolo! Que estava na festa também, lembra?

– O outro da festa era irmão do João? Por que não me contou antes?!

– Porque você ia falar que não pegaria irmão de alguém que eu estivesse pegando, que era estranho – ela tinha razão, mas fiquei um pouco brava ainda assim.

– E a história da namorada do João, você conhece?

– Se conheço! Foi a única namorada dele, parece que ficaram juntos quase nove anos! Desde a adolescência. Acho que só beijou essa menina na vida. E, com ele na capital, ela ficou muito ciumenta. Ele nunca fez amizades por aqui porque a namorada não deixava. Você viu, é jeca de tudo. Daí que ele acabou descobrindo que quem traía era ela lá em Luiz das Dores. E ficou todo traumatizado. O irmão dele quer que ele saia, conheça gente nova, contei sobre você, e…  (ela riu satisfeita) Parece que deu certo.

– Analu! O João namorou uma menina por nove anos? – parecia inacreditável, apesar de justificar muita coisa.

Ela confirmou, mas não sabia mais detalhes. Conversamos mais um pouco, principalmente sobre a viagem que ela faria para o congresso em Madri. Eles voltariam só no próximo domingo, seriam três dias de atividades acadêmicas e teriam o resto do tempo livre. Perguntei se queria que eu comprasse ingresso pro Chico pra ela, mas ela não iria ter dinheiro, queria fazer muitas compras no freeshop. Aproveitei para encomendar um estojo de maquiagem de verdade e ela me prometeu um postal. O ônibus para o aeroporto sairia às cinco e meia da manhã. Contei sobre os meus planos de ir para a fila do ingresso cedinho também. Desejei boa viagem e nos despedimos.

Tentei não racionalizar sobre o encontro ainda mais. Não foi fácil, passei um bom tempo colocando, naquele homem que tinha amparado a minha queda na rua, o menino que namorou a mesma garota por nove anos e foi traído por ela. Pensei no olhar triste de quando cancelei o cinema, e na nova onda de eletricidade quando abrimos os olhos pós-beijo. Era ótimo me sentir desejada, mas ainda sentia a mesma insegurança de quando ele disse que achava meus olhos bonitos. Sentia que não seria capaz de retribuir qualquer sentimento. Eu não seria capaz de gostar dele o tanto que ele demonstrou ser capaz de gostar de mim. Mesma namorada por nove anos. Varri a nova tentativa de autossabotagem da mente. Tempo ao tempo, precisava arrumar a casa e ir dormir cedo, o despertador estava programado para 6h30.

Os primeiros acordes da música eletrônica me acordaram, mas ainda estava muito escuro para já ser o despertador. Olho a tela do celular, 5:43, uma mensagem:

Analu.

FYI, já tem fila pro ingresso.

 

 

Capítulo 2 – Futuros amantes (em construção)

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